Terça-feira, 22 de Novembro de 2011
Priscila Rêgo

Há algo de estranho numa sociedade que se indigna colectivamente com a ignorância de toda uma geração. Se os jovens da Sábado não forem uma amostra fiel da sua classe, a situação não justifica grande escândalo. Em qualquer população é fácil encontrar casos suficientemente afastados da média para excitar os cérebros mais impressionáveis.  Mas se forem uma amostra fiel, é caso para perguntar que raio de geração foi a dos pais deles que não lhes ensinou (ou incutiu o interesse por saber) algo que considerava tão querido e essencial. Como, por exemplo, quem era o "padrinho".

 

Independentemente da gabarolice que está sempre presente na forma como se olha para estes casos ("sim, sim, claro que eu sabia essas"), convém lembrar que as respostas do "estudo" da Sábado podem não revelar necessariamente uma ignorância atroz à Miguel Sousa Tavares, uma crise de valores do Ocidente como diz o Pulido Valente ou a conspiração das agências de rating que o Gomes Ferreira apregoa. Há pelo menos três alternativas. E manter a mente aberta a cada uma é pelo menos tão importante como saber quem pintou a Capela Sistina.

 

Cherry-picking. As reportagens são uma forma recorrente de confirmar o bias dos jornalistas. Não é difícil de perceber: sem as preocupações de confirmar ou infirmar hipóteses, e com todas as liberdades que um registo menos rígido concede, qualquer cuspidela no chão pode ser lida como o prenúncio do Dilúvio Universal. No caso da Sábado, a jornalista parece ter feito uma interpretação demasiado aberta das liberdades que a reportagem concede. Não demorou muito para que um jovem confirmasse o que era óbvio desde o início: a autora escolheu as respostas a dedo. 

 

Convergência para a média. No início da década de 90, havia pouco mais de 100 mil estudantes matriculados no Ensino Superior. Duas décadas depois, o número mais do que duplicou. O nível absoluto do estudante médio pode não ter piorado, mas o nível do estudante médio face à média da população ter-se-á inevitavelmente degrado. Em parte, era expectável. Há vinte anos, os universitários eram filhos da classe alta a serem tratados por doutores num país de semi-analfabetos; hoje, o estudante universitário vem da classe média e circula num mundo cheio de pessoas que levam mais 20 ou 30 anos de leituras.  

 

O mundo muda. E os conhecimentos também. Saber o nome dos Reis e a localização das capitais , os estilos artísticos e a autoria de livros pode ter sido uma vantagem há quarenta anos. Cristalizou-se como cultura geral numa altura em que o acesso à informação era restrito e, portanto, escasso. Mas com a disseminação do acesso, o tipo de competências que são necessárias pode estar a mudar rapidamente. Procurar e seleccionar dados, estabelecer redes de contactos e reagir melhor à frente de um pc do que perante um microfone serão provavelmente qualidades muito mais valorizadas no mundo actual do que ter a litania das Dinastias na ponta da língua. 

 

Qualquer uma das possibilidades é mais plausível do que a hipótese alternativa, e recorrentemente ensaiada, de que esta nova geração é, pela primeira vez na história, mais incapaz do que a que a precedeu. E quem se orgulha de conhecer a História, devia saber que esta não é sequer uma crítica nova.


10 comentários:
De Luís Lavoura a 22 de Novembro de 2011 às 09:25
O meu pai aprendeu na escola, por volta dos anos 1930, coisas como por exemplo recitar todos os afluentes da margem esquerda do rio Douro, por ordem da nascente à foz, e depois todos os afluentes da margem direita. Ficava imensamente chocado quando eu lhe dizia que não sabia nada disso, nunca mo tinham ensinado.


De Luís Lavoura a 22 de Novembro de 2011 às 09:28
Há vinte anos, os universitários eram filhos da classe alta

Fiz o meu curso universitário há mais do que 20 anos e não tenho, de forma nenhuma, a noção de que todos os meus colegas fossem da classe alta. Pelo contrário, havia bastante gente remediada ou de recursos limitados. Eu diria que era classe média. (E eu nesse tempo sabia o que era classe alta, pois tinha anteriormente estado em colégios privados com jovens dessa classe.)


De Joao a 22 de Novembro de 2011 às 12:56
Parabéns.

Belo artigo!


De FNV a 22 de Novembro de 2011 às 16:02
Vc nisto não é tão boa como em economia e política.
Sobre as generalizações, de acordo ( escrevi o mesmo).
Já sobre o efeito algodão, pode dar as voltas que quiser, mas a verdade é que um cavaleiro não tem de ser apenas um especialista em selas, ou seja, um "jovem" não tem de ser apenas bom no facebook e em milhares de horas ao tm .
Essa de dizer que cada época selecciona a sua cultura e isso é adaptativo, levar-nos-ia a uma deprimente conversa sobre a cultura cubana , soviética ou salazarista.


De PR a 22 de Novembro de 2011 às 22:25
"ou seja, um "jovem" não tem de ser apenas bom no facebook e em milhares de horas ao tm"

Nem eu assumi isso. Dizer que o jovem médio só é "bom no facebook e em milhares de horas ao tm" é que me parece tão simplista como dizer que a minha geração só era boa no cinema e em milhares de horas ao computador. Não é uma crítica nova.

Quanto à cultura adaptativa, acho que os casos que deu até a confirmam. Bastou mudar o terreno de jogo para que uma parte da ex-URSS mudasse a estratégia: passaram a trabalhar em vez de se encostarem ao vizinho do lado.



De FNV a 23 de Novembro de 2011 às 11:12
Confirmam???? Meu Deus: em Cuba, por exemplo, os estudantes só têm acesso à biblioteca do prof . BoaventuraSSantos . Nisso serão bons, mas são, obviamente ignorantes em qualquer escala, capice ?


De FNV a 23 de Novembro de 2011 às 11:15
falta uma vírgula a seguir ao advérbio. Scusami.


De PR a 24 de Novembro de 2011 às 00:39
É, mas parece-me que o tipo de pressões de mercado a que os estudantes portugueses estão sujeitos serão ligeiramente diferentes das que pesam sobre os cubanos.


De FNV a 24 de Novembro de 2011 às 13:06
Vero ( por enquanto).


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