Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
Rui Passos Rocha

Faz amanhã uma semana que tive a oportunidade de jantar acompanhado da malta do Partido Pró-Vida em cinco minutos de Direito de Antena. Confesso que de todo o zumbido fixei pouco mais do que o que me pareceu essencial: que defendem a inviolabilidade da vida humana desde a sua concepção até à morte natural. No blogue do partido ficamos a saber que são também contra a «educação nacional-sexualista e o "casamento homossexual"» [1]. Assim com hífen e aspas.

 

É o próprio PPV que admite seguir a doutrina social da Igreja, ainda que diga ter apoiantes não católicos. A ideia é cristalina e o próprio Bento XVI já a repetiu: «ninguém é proprietário da sua vida» [2], que se deve à vontade de um Deus que por sua vez ditou como destino que os pais de cada um de nós nos fizessem quando, onde e como fizeram. Os Seus desígnios são insondáveis, e é tudo menos censurável o Seu bom gosto na escolha do entretenimento a que assiste.

 

Não faço ideia de até que ponto os senhores do PPV levariam à prática o que defendem, mas quero ressalvar que nisso a Igreja é absolutamente coerente e humana. Humana porque, mesmo no caso de uma gravidez com perigo de vida para a mãe, o aborto está fora de questão [3]; coerente porque pessoas como o ex-Papa João Paulo II e o mais alto representante do Vaticano nos Estados Unidos foram proprietários das suas vidas nas respectivas fases terminais, tendo um sido entubado [4] e o outro ventilado artificialmente [5], até às suas mortes não naturais.

 

A religião não emudece apenas quando um crente idoso diz que está farto de viver [6]. Os guardiões do templo também não têm muitas palavras a dizer quando o que defendem lhes escorre pela testa.


24 comentários:
De Nelson Gonçalves a 7 de Dezembro de 2011 às 09:12
Só por curiosidade. Se a Igreja diz que "ninguém é proprietário da sua vida", então os católicos quando adoecem não podem ir ao hospital. Assim não incorrem na pena de cuidar de algo que não lhes pertence ou de "artificialmente prolongarem a sua vida".

Aliás, não se percebe porque é que a Igreja não é como os calvinistas, que não se vacinam (http://en.wikipedia.org/wiki/Staphorst) para não incorrerem na fúria de um deus que se entretêm com as nossas desgraças.


De Miguel Madeira a 7 de Dezembro de 2011 às 09:43
Podem perfeitamente ir ao hospital - exactamente porque eles não são os proprietários da sua vida, têm a obrigação de tratarem bem dela.


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 10:24
Então nesse caso não é censurável o que fizeram o Papa e o cardeal americano. A defesa da "morte natural" só se aplica à sua cessação e não ao seu prolongamento? Mas natural não significa... contra artifícios de todo o tipo?


De Nelson Gonçalves a 7 de Dezembro de 2011 às 10:47
Eu estava a ser irónico. Não consegui.

Ao ler o post , fiquei com a ide-a de que o RPR faz uma ideia pré-concebida da doutrina da Igreja.
Existem,existiram e vão continuar a existir, conflitos entre a doutrina da Igreja e a nossa consciência e vontade. E cada um é livre de decidir como bem entender, a Igreja é clara neste aspecto. Agora não podemos escapar às consequências das nossas decisões.

Nos casos que relata o RPR , são eticamente difíceis (para mim) de julgar. Mas não tenho a pretensão de considerar que uma instituição milenar como a Igreja está errada. Pode estar, mas convêm primeiro perceber porquê,

Disclaimer 1: não conheço o Partido Pró-Vida nem sei o que é que eles defendem em concreto.

Disclaimer 2: apesar de católico, tenho bem presente que a doutrina da Igreja não pode nem deve ser aceite cegamente


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 10:52
"Tenho bem presente que a doutrina da Igreja não pode nem deve ser aceite cegamente"

Repare que o texto não é sobre o que eu penso sobre a doutrina social da Igreja, mas sobre a hipocrisia que vejo da parte do topo hierárquico que a defende.


De Nelson Gonçalves a 7 de Dezembro de 2011 às 11:26
Criticar o Papa é criticar a Igreja. Se bem que a relação entre a hierarquia e a base não seja tão rígida como antes do Vaticano II, o Papa ainda personaliza a Igreja.

Eu não vejo hipocrisia no ser e estar da Igreja (mas isso não significa que sejam todos santos ou que não existam pontualmente), vejo opções morais difíceis de tomar.


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 11:29
Mas aqui a crítica é à hipocrisia, não à fé do Papa ou de outros que defendem a doutrina social da Igreja.


De Luís Lavoura a 7 de Dezembro de 2011 às 09:29
"jantar em cinco minutos de direito de antena"?! Não percebo. Jantaram durante o tempo de antena? O Rui encontrou-os durante o tempo de antena? Como se materializa isso?


De Miguel Madeira a 7 de Dezembro de 2011 às 09:41
Talvez o RPR tenha uma televisão na sala de jantar


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 10:23
Estava a jantar e levei com o PPV, com todo o gosto.


De Tiago Moreira Ramalho a 7 de Dezembro de 2011 às 10:41
O facto de uma pessoa ser incoerente não significa que esteja errada. Eu posso perfeitamente achar que matar alguém é horrível e matar alguém por um qualquer motivo. Isso não fará com que matar passe a ser uma cena porreira, pá. Nem faz com que eu esteja menos certo no meu juízo sobre o assunto.

O que se pode apontar é hipocrisia. Infelizmente, no debate sobre estas coisas, tudo isto fica feito numa salganhada em que ninguém se entende. Mas o facto é que mesmo um hipócrita pode ter toda a razão do mundo.


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 10:46
Se tu queres que seja aplicado aos outros algo que não aplicas a ti não me parece que consideres verdadeiramente bom aquilo que defendes. Ou seja, não me parece que intimamente consideres que tens razão. És simplesmente hipócrita.


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 10:47
Não estou a falar de ti, claro. É um exemplo.


De Tiago Moreira Ramalho a 7 de Dezembro de 2011 às 10:53
Mas mesmo isso não implica que eu não esteja certo. Eu posso agir de forma errada e dizer aos outros para agir de forma certa. Pensa no pai que fuma e que diz ao filho para não fumar porque faz mal.


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 10:54
Não façam nada que possa prolongar a vossa vida, ou serão pecadores e irão para o Inferno. Isto dito por um chefe da Igreja parece-me ligeiramente diferente que isso do pai fumador.


De Tiago Moreira Ramalho a 7 de Dezembro de 2011 às 10:56
Não estou a dizer que a escala é a mesma. A única equivalência está no princípio. O princípio aplica-se: ser hipócrita não significa estar errado.

Aliás, eu até te diria mais: o pai pode condicionar a vida do filho de forma muito mais activa que o chefe da Igreja. O pai pode ir lá e tirar-lhe o maço, cortar na mesada, dar-lhe porrada. O Papa não vai aos hospitais desligar as máquinas.


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 10:59
Concordo com o princípio. Mas como disse acima noutro comentário, o post não é propriamente uma crítica à doutrina social da Igreja, mas à hipocrisia de quem a defende.


De Tiago Moreira Ramalho a 7 de Dezembro de 2011 às 11:04
Não é essa a leitura normal do teu texto. Pareces atacar as posições e usar a hipocrisia para lhes retirar força. Mas admito ter sido falha de interpretação minha.


De RPR a 7 de Dezembro de 2011 às 11:10
Ou então não me expliquei bem. Não seria a primeira vez ;)


De Pedro a 8 de Dezembro de 2011 às 01:08
faz o que eu digo, não faças o que eu faço, não é? É boa filosofia popular e um pai menos dado ao exemplo pode bem agir assim, mas não me parece adequada à Igreja Católica, que sempre teve pretensões de guia moral um pouco mais elevadas, tanto quanto me lembro. Não sei se o Tiago Moreira Ramalho se dá conta, mas isso é um bocado desleixado e relativista. Sinal dos tempos, ou a Igreja afinal sempre foi assim?


De Tiago Moreira Ramalho a 8 de Dezembro de 2011 às 10:21
Pedro, se eu disser que matar é bom e começar a matar a seguir, isso faz com que matar seja bom? Não me parece. A consistência entre palavras e actos não é condição nem necessária nem suficiente para que as palavras tenham algum fundo de 'verdade' ou de valor, digamos. Não digo que a inconsistência seja uma coisa boa. Digo apenas que inconsistência per se não significa erro.


De Pedro a 8 de Dezembro de 2011 às 12:14
Sim, já sei que matar é mau, Tiago. Está assente.


De Tiago Moreira Ramalho a 8 de Dezembro de 2011 às 12:32
Lindo menino. Agora é tempo para ir fazer os TPCs.


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