Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011
Priscila Rêgo

As declarações de Passos Coelho ao Correio da Manhã têm duas dimensões diferentes.

 

A dimensão factual é... vá, factual. Portugal é dos países da OCDE onde há mais professores por aluno. A escola pública não vai (nem deve) ter capacidade para absorver os professores excedentários ao longo dos próximos anos. E a alternativa ao colo do Estado não é necessariamente o desemprego: para além do esforço pessoal da requalificação, há sempre a aventura da emigração. Onde está o escândalo? Se se querem indignar, pelo menos escolham outro país para o fazer.

 

As declarações de Passos não resolvem nenhum problema, mas são importantes por duas razões. A primeira é trivial: lembram a quem perdeu - ou está prestes a perder - o emprego que há alternativas, por muito inconcebíveis que ainda possam parecer nalguns sectores profissionais (o tempo mudará isto). Mas a segunda é mais importante: as declarações sinalizam aos professores a gravidade da situação. Quem estivesse a pensar  atrasar a requalificação ou desperdiçar oportunidades de emprego na expectativa de que a torneira do Estado voltasse a abrir, irá agora pensar duas vezes. 

 

Só que o discurso também tem uma dimensão política e essa, compreendo, pode ser um tiro no pé. Porque dá a entender ao povo que o Governo está mais preocupado em varrer os desempregados para debaixo do tapete do que em voltar a dar-lhes um lugar à mesa; porque pode ser lida como um "sacudir de água do capote" num país que precisa de união para ultrapassar um das crises mais difíceis da sua história democrática. Um político numa entrevista não é um técnico num gabinete de estudos.  

 

Perante isto, há duas reacções possíveis. Podemos lembrar a dimensão factual das declarações e assim ajudar a apaziguar os ânimos mais exaltados. Ou enfatizar a sua dimensão política e contribuir para enganar os tolos


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10 comentários:
De Jurgen Alfred a 20 de Dezembro de 2011 às 12:28
Cara Priscila,

Nem sempre podemos concordar com as afirmações de outrem e, igualmente, não somos forçados a reconhecer a sua extensiva aplicabilidade (o mesmo que dizer que não teremos de concordar com o total do conteúdo). No caso específico por si abordado, não terei qualquer argumento a opor ao discurso de PPC, tanto mais que este só deu forma linguística pública ao que muitas pessoas e famílias vêm pensando e falando na subcave da portugalidade.

É engraçado, que ostentamos orgulhosos a bandeira de um país de emigrantes mas, quando toca a alguns, a coisa muda de figura (serão os mesmos que se recusam peremptoriamente a trabalhar fora da área de qualificação? Talvez). A nossa esfera cultural e histórica fortemente marcada pela emigração, e nisso não há mal (o que não é o mesmo que dizer que não se deva tentar prosperar na sua nação!)
PPC não se propôs a uma debandada geral daqui para fora, assumiu que haveria essa solução caso os professores, como exemplo de uma classe operacional, não se queiram requalificar ou sujeitar a outro trabalho - então têm uma alternativa viável e saudável. O que nesta história (que nem isso chega a ser) causa alguma confusão é a honestidade com que as cartas foram postas sobre a mesa – a isso nós não estávamos habituados por parte de um governante, mesmo no tempo em que o ir não era sequer uma opção mas a única solução….

Contudo, e é aqui que será necessário fortalecer o discurso de PPC, teremos a par desta necessidade de exportar os nossos excedentes qualificados e operacionais (o que é sempre negativo e ele enquanto gestor sabe), reformular o ambiente académico português – planeando o futuro hoje mesmo, reconstruindo a formação de base e as opções pelo ensino profissional e superior com qualidade para tal (julgo que a postura de PPC perante as novas oportunidades podem ser um sinal do reconhecimento dessa necessidade). Mas isto são outros dois e quinhentos…


De iupi a 20 de Dezembro de 2011 às 14:41
então precisávamos de um primeiro ministro para que os portugueses - professores ou não, soubessem como resolver a sua vida? onde ganhar para comer? se não fossem estes sábios conselhos, em breve estariamos a morrer á fome á espera do estado?...

factos: em breve todos estaremos mortos, porquê adiar esse momento e andar aqui a dar encargos ao estado e aos outros? morra já. é mais barato e ajuda o país a sair de uma 'crises mais difíceis da sua história democrática' (se for funcionário público, melhor).

o srº primeiro ministro é pago para trabalhar - ele e os outros ministros - para nós, por isso que o faça, que justifique o ordenado e o nome.


De Rui Costa a 20 de Dezembro de 2011 às 22:48
Um conjunto de dados que podem ajudar a clarificar a existência ou não de um excedente de professores.

http://costarochosa.blogspot.com/2011/12/emigracao-de-professores-e-de.html

Para lá da questão moral ou politica subjacente (deve um Primeiro Ministro incitar à emigração? As declarações foram mal interpretadas?), a práxis foi a usual e o debate político esvaziou-se de conteúdo e, sobretudo, de objectividade. A qualidade do sistema de ensino e as suas necessidades para ser de excelência ficaram fora da gritaria usual.


De José António Abreu a 21 de Dezembro de 2011 às 09:06
Priscila: você é demasiado sensata para escrever na blogosfera.


De Getulio a 21 de Dezembro de 2011 às 12:12
E boa, ouvi dizer.


De Pedro a 23 de Dezembro de 2011 às 10:41
Priscila, não é grande obra enfatizar a dimensão politica de uma declaração politica, que é aquilo que, por definição, faz um primeiro ministro em declarações públicas. Difícil seria enfatizar a dimensão politica do acto de ele comer um pedaço de bolo rei. O problema não é só ético, coisa que por estas alturas parece que não interessa nada, o problema é mesmo prático. Acho que nenhum governante ainda tinha tentado fazer política de emprego de outros países. Os governantes do Brasil ficaram surpreendido, tanto que já vieram dizer que não estão importando professores portugueses.


De PR a 23 de Dezembro de 2011 às 13:10
Não foi uma declaração pública, foi uma entrevista. Se tivesse, por ele próprio, puxado do assunto, compreenderia alguma das críticas. Mas se lhe fazem a pergunta, queria que ele fizesse o quê? Desse uma das alternativas por convicção e omitisse a outra por conveniência? Para fazer team-building, já nos chegou o Sócrates.


De Pedro a 23 de Dezembro de 2011 às 14:25
Priscila, a diferença entre ele dizer isso num comunicado oficial, ou dizê-lo em resposta a uma pergunta de um jornalista, é demasiado subtil para eu perceber (percebia melhor a diferença, se ele o dissesse em casa a um amigo). Em qualquer das circunstâncias, respondendo ou não a perguntas, deve afirmar com convicção o que pensa que são as soluções para o país. Ele não tem um botãozinho de imputabilidade que se desliga ou desliga. Portanto, ele pensa que a emigração é uma solução para os desempregados “excedentários” e isso, não há dúvidas, é a convicção dele. Eu não acho mal que ele seja franco em relação ao que pensa, não quero que omita nada em relação ao que pensa, porque essa é a forma de o conhecermos melhor. Posso é achar mal ter um PM que pensa isso, mas isso é outro assunto. Quanto a mim, ele estava a criar uma categoria de cidadãos excedentários, o que me desagrada muito. A melhor forma de resolver isto, seria mesmo esvaziar o nosso PM de toda a dimensão politica e colocá-lo ao nível puramente técnico de um funcionário do centro de emprego em conversa com um utente numa pausa para um cafezinho. Já ninguém se maçava com esses pormenores éticos irrelevantes.


De PR a 23 de Dezembro de 2011 às 19:14
"Portanto, ele pensa que a emigração é uma solução para os desempregados “excedentários” e isso, não há dúvidas, é a convicção dele (...) Quanto a mim, ele estava a criar uma categoria de cidadãos excedentários, o que me desagrada muito"

Hum... não. Ele apresentou isso como uma - de DUAS - opções que podem ser individualmente escolhidas pelos professores. E nem sequer fez disto tema de política pública. É uma opção individual.

Quanto aos excedentários: não foram criados pelo PM - são um facto a partir do momento em que o país tem mais professores do que precisa e falta de dinheiro para se financiar. O PM só sugeriu uma forma de se lidar com eles (a minha formulação não é a mais feliz, mas estou de saída).

Bom Natal!


De chat a 14 de Julho de 2014 às 17:46

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