Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
Priscila Rêgo

Enfim resta-nos a demografia para explicar que o socialismo é inviável.

 

Helena Matos, no Blasfémias.

 

Penso que o que a Helena quer dizer com "socialismo", neste contexto, é o Sistema de Segurança Social contributivo que temos actualmente. Este sistema baseia-se num princípio simples: os portugueses que trabalham descontam uma parte do seu salário todos os meses para pagar o salário (a pensão) dos que já não trabalham. De que é depende a sustentabilidade deste sistema?

 

a) Rácio entre número de contribuintes e número de beneficiários;

b) Tempo de vida a contribuir versus tempo de vida a receber prestações;

c) Valor médio das contribuições e valor médio das pensões;

 

Agora vejamos. Como é que a demografia altera estes parâmetros? Se a esperança média de vida aumentar, o rácio b) altera-se e passa a haver mais pressões do lado da despesa com pensões do que do lado da receita contributiva. Porém, o problema mantém-se caso as reformas passem a ser garantidas numa base de capitalização individual. Em qualquer dos casos, o problema resolve-se subindo a idade de reforma ou mexendo no parâmetro c), o que implica aumentar as contribuições ou reduzir as pensões.

 

E no ponto b), o que acontece? Se a taxa de natalidade diminui, o rácio contribuintes/beneficiários cai. Portanto, e em teoria, quanto menor for a taxa de natalidade, maior será a pressão para acabar com o sistema contributivo actual, dependente deste rácio, e substitui-lo por um sistema de capitalização individual. Será mesmo?

 

Não é bem assim. A "magia" da multiplicação dos pães num sistema de demografia pujante não vem do nada nem cai do céu. Se cada casal tem 10 filhos, os pensionistas de hoje podem de facto ter reformas extraordinárias, mas isto implica um custo grande para os pais dessas crianças: o custo de as alimentar, vestir e educar. Não há almoços grátis. Se queremos que eles nos paguem a reforma um dia, temos hoje de lhes pagar os estudos.

 

Ou seja, num sistema contributivo a diminuição da natalidade deve ser compensada com um aumento das contribuições feitas sobre os salários. Ao contrário do que parece à primeira vista, não há qualquer perda de utilidade: pura e simplesmente, o dinheiro que em circunstâncias demográficas diferentes seria canalizado para os filhos passa a ser canalizado para os pensionistas. Do ponto de vista do consumo individual do contribuinte, a situação é neutra. 

 

Isto não significa que um sistema de capitalizações não tenha vantagens. Algumas delas são o facto de tornar os contribuintes mais responsáveis, alinhar melhor os incentivos, separar de forma mais clara aquilo que é um seguro do que é uma prestação social e por aí fora. Mas fazer nascer dinheiro nas árvores não consta do lote. 

 

Leitura complementar: Take it easy, boys 


25 comentários:
De Luís Lavoura a 22 de Dezembro de 2011 às 09:50
Excelente post.

Falta referir que um sistema de capitalização só funciona se a economia fôr pujante e estiver em crescimento. Se isso não acontecer, as poupanças serão aplicadas em ativos que não se valorizamrão. Ou seja, o sistema de capitalização, tal como a Priscila bem escreve, não faz crescer o dinheiro nas árvores - depende, tal e qual como o sistema atual, de uma economia saudável.


De PR a 22 de Dezembro de 2011 às 13:32
"Falta referir que um sistema de capitalização só funciona se a economia fôr pujante e estiver em crescimento. Se isso não acontecer, as poupanças serão aplicadas em ativos que não se valorizamrão."

Isso é independente do sistema. Se a economia colapsar, também não há contribuições suficientes para pagar as pensões. Um activo ou uma contribuição são rigorosamente a mesma coisa: direitos de saque sobre a produção.


De Luís Lavoura a 22 de Dezembro de 2011 às 14:26
Certo, de acordo. Só que, os proponentes do sistema de capitalização argumentam muitas vezes, falsamente, que tal sistema garante sempre boas reformas e que é independente do progresso da economia. O que eu pretendo dizer é que isso é falso: tanto o sistema de capitalização como o atual sistema de solidariedade intergeneracional dependem do crescimento económico e só podem fornecer boas reformas se a economia estiver em progresso.


De Ludwig a 23 de Dezembro de 2011 às 09:55
Priscila,

«Ao contrário do que parece à primeira vista, não há qualquer perda de utilidade: pura e simplesmente, o dinheiro que em circunstâncias demográficas diferentes seria canalizado para os filhos passa a ser canalizado para os pensionistas.»

Parece-me que estás, implicitamente, a considerar que a utilidade do dinheiro é a mesma independentemente de como o gastamos. Mas não é assim. Geralmente, as pessoas vão considerar que o dinheiro gasto com os seus próprios filhos tem mais utilidade (contribui mais para os objectivos dessas pessoas) do que o dinheiro pago em impostos para os pensionistas.


De Luís Lavoura a 23 de Dezembro de 2011 às 11:17
De facto, a expressão utilizada pela Priscila não é a mais feliz.
Mas o argumento permanece: o dinheiro a mais que a sociedade hoje gasta com os idosos corresponde ao dinheiro a menos que gasta com as crianças e jovens.
Mas há um contra-argumento. No passado, as crianças e jovens auferiam uma educação (e um sustento) rudimentar, e começavam muito cedo a trabalhar e a contribuir para o orçamento familiar. Hoje muitas crianças e jovens permanecem um (grande) fardo para os pais e para o país até muito tarde (20, 30 anos de idade). Portanto, é discutível se o país gasta menos com a educação e o sustento de crianças e jovens do que o que gastava há (digamos) 50 anos atrás. É que, se o número de crianças e jovens é muito mais pequeno, o seu sustento e educação custa per capita muito mais.


De Pedro a 23 de Dezembro de 2011 às 12:22
Está bem visto. Eu também considero que o investimento do Estado numa escola perto de minha casa para o meu filho, tem muito mais utilidade que o investimento feito numa escola a duzentos quilómetros....


De PR a 23 de Dezembro de 2011 às 13:05
Certo, certo. Só que esse problema existe sempre no sistema de contribuições. Ele agrava-se com a diminuição da natalidade, mas está presente em qualquer nível de natalidade [por muitos filhos que tenhamos, temos sempre de pagar a pensão dos pensionistas]. Mas acho que não era isto que a Helena Matos tinha em mente quando escreveu a frase que eu citei.

Off-topic: não queres escrever alguma coisa acerca da discussão neste box de comentários? http://adoutaignorancia.blogs.sapo.pt/252151.html



De Ludwig a 23 de Dezembro de 2011 às 14:03
«Só que esse problema existe sempre no sistema de contribuições.»

Mas é um problema fundamental que, a meu ver, inquina muitas discussões sobre economia.

Por exemplo, supõe que temos duas opções para os transportes: uma rede privada ou pública. A privada é mais eficiente, economicamente, mas o que isto quer dizer é que maximiza o proveito para accionistas e clientes. A pública é menos eficiente, gasta mais dinheiro para obter o mesmo resultado, e ainda mais dinheiro porque o resultado é ter transportes subsidiados, mais baratos para o utilizador e, por isso, sai muito mais cara no total. Mas, em vez do dinheiro ser cobrado a quem precisa de se deslocar, é cobrado a quem tem mais dinheiro, pelos impostos. Ou seja, a quem custa menos pagar.

E aqui torna-se fundamental distinguir entre o valor em dinheiro e em utilidade. Porque a utilidade dos transportes públicos para quem, com pouco dinheiro, não poderia recorrer aos transportes privados pode compensar a perda de utilidade para quem, com muito dinheiro, poderia pagar menos impostos e pagar do bolso os transportes, que lhe sairiam mais barato.

Quando fazemos as contas apenas ao dinheiro esquecendo a utilidade que o dinheiro tem para cada pessoa acabamos com um resultado muito diferente do ideal. Porque, no fundo, o dinheiro só vale pela sua utilidade, e não por si.

« não queres escrever alguma coisa acerca da discussão neste box de comentários? http://adoutaignorancia.blogs.sapo.pt/252151.html»

Parece interessante. Tenho andado com pouco tempo, mas vou tentar. Obrigado pela dica.


De PR a 24 de Dezembro de 2011 às 15:11
Ludwig,

Não tenho a certeza de ter percebido bem. Na microeconomia, os preços revelam a utilidade e, nesse sentido [e dadas as condições x, y e z], dizer que a solução A ou B é a mais eficiente significa que esta é a que maximiza a utilidade da sociedade como um todo.

O que pode aqui ser criticado não é a identificação de um elemento com o outro, mas o pressuposto implícito de que os agentes têm curvas de utilidade e de restrição orçamental semelhantes. Sem isso, a interferência pode de facto aumentar a utilidade.

Mas a maior parte dos economistas que está contra os subsídios não o faz por acreditar que os agentes são todos iguais e não há assimetria na distribuição de recursos. A questão é que só há verdadeira redistribuição se apenas os mais pobres utilizarem os recursos subsidiados. Mas se a ideia é subsidiar os mais pobres, então o melhor mesmo é fazê-lo directamente, com dinheiro ou financiamento semelhante.

Isto não quer dizer que a subsidiação directa de actividades não faça sentido nalguns casos. Mas, se o objectivo é redistribuir, a subsidiação directa é apenas um second best. [E muitas vezes nem isso, como mostram alguns estudos acerca do tipo de utentes que frequentam serviços fornecidos abaixo do custo].

Bom Natal!


De Ludwig a 25 de Dezembro de 2011 às 23:27
Priscila,

O preço equivale à utilidade se todos os agentes forem iguais e se a utilidade total for simplesmente a soma das utilidades individuais. Isto, muitas vezes, não é verdade. Por exemplo, supõe que convertes o sistema de ensino num sistema privado e dás dinheiro às pessoas em vez de pagar professores e escolas. Isto fará com que as escolas se estratifiquem ainda mais, com as mais caras tendo melhores professores e condições, e as mais baratas ensinando pior. Mesmo que isto seja mais eficaz e resulte numa soma de utilidades maior – o que os mais ricos ganham compense o que perdem os mais pobres – ainda assim há uma perda de utilidade significativa pela injustiça de crianças com pais menos abastados terem tão menos oportunidades do que os filhos dos mais ricos.

Em geral, nem os agentes são todos iguais – e uma redistribuição realista nunca vai dar a todos o mesmo poder de negociação no mercado – nem a utilidade total é simplesmente a soma das utilidades dos indivíduos. E é por isso que é importante ter em mente que, mesmo que «Na microeconomia, os preços revelam a utilidade», na realidade os preços revelam apenas o ponto de equilíbrio entre as forças de negociação dos vários agentes envolvidos.


De PR a 26 de Dezembro de 2011 às 00:19
"Mesmo que isto seja mais eficaz e resulte numa soma de utilidades maior – o que os mais ricos ganham compense o que perdem os mais pobres – ainda assim há uma perda de utilidade significativa pela injustiça de crianças com pais menos abastados terem tão menos oportunidades do que os filhos dos mais ricos."

Mas de onde é que daqui se extrai que a utilidade total não é a soma das suas partes? Só se considerarmos uma dimensão "ética" na ideia de utilidade. Mas nesse caso estamos a desvirtuar tanto o conceito que mais vale cunhar outro termo...



De Ludwig a 27 de Dezembro de 2011 às 16:25
«Mas de onde é que daqui se extrai que a utilidade total não é a soma das suas partes? Só se considerarmos uma dimensão "ética" na ideia de utilidade. Mas nesse caso estamos a desvirtuar tanto o conceito que mais vale cunhar outro termo...»

Não é preciso uma dimensão "ética" (não sei o que fazem aí as aspas, mas copio-as, à cautela :)

Basta admitires que a utilidade de algo, para algumas pessoas, possa ser função da utilidade que esse algo tem para outros. Por exemplo, a possibilidade de qualquer criança ter uma educação gratuita tem utilidade para mim, para além do que isso me beneficie individualmente.

Assim, se fizeres algo ao ensino público que me deixa com o mesmo acesso à educação (e aos meus filhos), mas que afecta o acesso às crianças pobres, estás a reduzir a utilidade que o ensino público tem para mim.

Isto deriva de considerações éticas minhas, admito, visto ser função de eu dar valor à utilidade que algo tenha para outros e não apenas para mim. Mas esse valor não deixa de ser também parte das minhas preferências, daquilo que contribui para os meus objectivos e, por isso, da utilidade das coisas para mim.

O resultado é que a utilidade de algo para cada individuo pode ser também função da utilidade desse algo para outros indivíduos. O que me parece não encaixar nos modelos da microeconomia.

Por exemplo, eu prefiro pagar mais impostos para um sistema de saúde que trate mesmo que não tem dinheiro do que pagar menos só para me tratar a mim, mesmo que a qualidade do tratamento para mim e para os meus filhos seja igual. Isto porque a utilidade do sistema de saúde, para mim, incluir a utilidade que tem para os outros. Isto parece-me difícil modelar com as premissas da microeconomia.


De PR a 27 de Dezembro de 2011 às 23:17
Em termos analíticos, isso corresponde a assumir que as funções de utilidade são interdependentes. Mesmo que teoricamente seja possível, na prática os resultados devem ser demasiado caóticos para serem calculados "à mão" [Uma nota lateral: acho que o Francisco Louçã tem alguma coisa publicada neste âmbito].

Mas uma forma mais simples de integrar essa ideia no paradigma da microeconomia é simplesmente assumir que a desigualdade de rendimentos é uma externalidade negativa.

Esta abordagem até deve estar mais próxima de capturar o problema subjacente. É que dificilmente ficaremos preocupados com o facto de os pobres consumirem menos bolotas, menos concertos ou menos haxixe que os ricos; a questão de fundo é os níveis de satisfação das necessidades serem globalmente muito mais baixos - independentemente da forma como cada rubrica dá o seu contributo relativo.



De Ludwig a 29 de Dezembro de 2011 às 14:42
Priscila,
«Mas uma forma mais simples de integrar essa ideia no paradigma da microeconomia é simplesmente assumir que a desigualdade de rendimentos é uma externalidade negativa.»

Se bem percebo, não... Imagina que um serviço público (e.g. educação, saúde, justiça,. transportes, etc) me custa mais caro, em impostos, porque tenho um rendimento acima da média. Se o privatizarem, poderei usufruir dele à mesma pagando menos. Uma externalidade negativa será a perda de utilidade para as pessoas mais pobres, cujo acesso a esse serviço estava a ser subsidiado, em parte, por mim. Mas não é dessa que eu estou a falar. Estou a falar da perda de utilidade para mim por eu achar que toda a gente devia ter acesso a esse serviço, mesmo que aqueles que ganham mais ajudem a subsidiar o serviço para quem ganha menos. Ou seja, a minha função de utilidade depende de factores que não me afectam a mim directamente. O que resulta na possibilidade de ser pior para mim ter o mesmo serviço por menos dinheiro.

Penso que esta é uma das razões pelas quais em microeconomia se considera que o agente económico é o agregado familiar. Porque se fores modelar as relações entre mim, os meus filhos e a minha mulher com as curvas de oferta e procura, etc, vai dar um erro enorme. Nós não estamos a agir cada um no seu interesse próprio mas, em grande parte, pelo interesse dos outros também. Numa sociedade isto é menos significativo, mas é suficientemente forte para haver Estado (que é outra coisa que a microeconomia não modela bem, tendo apenas de considerar como um dado fixo...).

Quanto a ignorar o tipo de bens ou serviços, focando apenas o rendimento, penso que também estás enganada. Entre bolotas, concertos e haxixe não faz diferença porque são tudo bens que aceitamos como sendo de consumo (para transaccionar num mercado livre). Mas com coisas como educação, saúde, justiça, direitos fundamentais, etc, não se passa o mesmo. Essas, penso que é consensual, devem ficar fora do mercado e serem geridas visando também o bem comum e não apenas os interesses individuais de cada um.

E o que me parece é que os modelos económicos servem apenas para o que se transacciona no mercado mas não servem para decidir o que deve ficar fora do mercado. Por exemplo, tu podes modelar como funcionaria o mercado dos hospitais privados ou dos transportes privados, mas não consegues determinar se os lucros nesse mercado têm um valor superior ao de garantir que toda a gente tem acesso a tratamento médico ou transporte. Isto porque preço e valor não são a mesma coisa, e 50€ de tratamento médico não vale o mesmo que 50€ de bolotas.


De Miguel Madeira a 29 de Dezembro de 2011 às 15:58
"Uma externalidade negativa será a perda de utilidade para as pessoas mais pobres, cujo acesso a esse serviço estava a ser subsidiado, em parte, por mim. Mas não é dessa que eu estou a falar. Estou a falar da perda de utilidade para mim por eu achar que toda a gente devia ter acesso a esse serviço, mesmo que aqueles que ganham mais ajudem a subsidiar o serviço para quem ganha menos."

É exactamente a segunda situação que tipifica uma externalidade negativa tal como o conceito é definido em Economia; ou melhor, mais do que o "incómodo que o Ludwig sente por os pobres não puderem andar de autocarro" ser uma externalidade negativa, talvez seja mais "o prazer que o Ludwing sente por os pobres poderem andar de autocarro" que seja uma externalidade positiva, mas vai dar ao mesmo.


De Ludwig a 29 de Dezembro de 2011 às 17:07
Mas porque é que é uma externalidade? A menos que se considere que o dinheiro que eu poupo por privatizarem o serviço também seja uma externalidade e que, basicamente, todas as consequências de alterações de impostos e serviços públicos sejam extrenalidades (visto serem decididas unilateralmente).

Mas o problema persiste. Um economista dirá que a privatização é boa ideia porque o mesmo serviço passa a custar menos para quem o pode pagar, ignorando o valor (que não está no preço) de se prestar esse serviço a quem não o pode pagar...


De Miguel Madeira a 29 de Dezembro de 2011 às 22:42
"Externalidade" é quando uma acção ou uma transação causa beneficios ou danos a terceiros que não participaram nessa transação ou acção.

Imagine-se que planto plantas bonitas no quintal, e isso faz os meus vizinhos sentirem-se bem porque gostam da nova paisagem - isso é uma externalidade positiva.

Agora imagine-se que as outras pessoas sentem-se felizes por saberem que uma família desfavorecida, apesar de tudo, continua a poder andar de autocarro. É termos económicos, é mais ou menos a mesma coisa (em vez de ser o meu belo jardim que dá prazer às outras pessoas, é a possibilidade de a família pobre poder andar de autocarro que dá prazer às outras pessoas)


De Miguel Madeira a 29 de Dezembro de 2011 às 22:59
"Um economista dirá que a privatização é boa ideia porque o mesmo serviço passa a custar menos para quem o pode pagar, ignorando o valor (que não está no preço) de se prestar esse serviço a quem não o pode pagar..."

Umm, não - um economista também irá incluir, no seu raciocinio, a perca de utilidade de quem deixa de consumir o produto por não ter dinheiro para o pagar. Eu conseguiria explicar isso melhor se pudesse fazer gráficos - talvez tente fazer um no Vento Sueste sobre o assunto


De PR a 30 de Dezembro de 2011 às 00:55
Eu já levava uns cinco parágrafos de explicação, mas reparei que o Miguel Madeira expôs a questão de forma bem mais sucinta. E se ele tiver tempo para explicar tudo com gráficos, acho que vale bem a pena esperar :)


De Miguel Madeira a 30 de Dezembro de 2011 às 12:23
Vamos lá ver se se percebe alguma coisa disto:

http://2.bp.blogspot.com/-3FxqgTLc6RM/Tv2nnSYGZxI/AAAAAAAAA6k/6Fv8ciTSeos/s1600/gr%25C3%25A1fico2.PNG

este gráfico é suposto representar o efeito de subsidiar a produção de um produto (ou, o que vai dar ao mesmo, de uma empresa pública vender um produto com prejuizo). A curva vermelha é a curva da oferta com subsidio, a preta sem subsidio. P1 é o preço sem subsidio, P2 com subsídio.

Agora a análise que os economistas fazem:

http://1.bp.blogspot.com/-stzSk70dIeI/Tv2nsLEHSVI/AAAAAAAAA6s/p2wkg2KcqHI/s320/grafico3.PNG

O conjunto das zonas azul, verde-claro e verde-escura é a despesa com um subsidio. A área verde-clara é a perca de utilidade dos consumidores que continuam a consumir sem subsidio mas pagando um preço mais alto; a área verde-escura é a perca de utilidade dos consumidores que deixam de consumir; a área azul é a perca total de utilidade provocada pelo subsidio (a despesa total menos a utilidade que o subsidio dá aos consumidores).

E pronto, o valor de prestar o serviço a quem não o pode pagar está na análise - é o triangulo verde-escuro

[Se isto fosse mesmo um gráfico representando os efeitos de um subsidio, seria necessário mais uma área colorida, representado os efeitos do subsidio sobre os lucros da empresa; mas como o que estamos a discutir é um subsidio a uma empresa pública, não faz grande sentido incluir isso, e para falar a verdade eu já nem me lembro bem como isso iria ser mostrado no gráfico]


De Anónimo a 30 de Dezembro de 2011 às 18:38
Acho que é melhor dar 5 euros ao Pedro Lains para tirar essa análise custo-benefício a limpo.


De Ludwig a 1 de Janeiro de 2012 às 13:57
Miguel,

Obrigado pelos gráficos, que são bastante claros. Mas penso que isso não foca o problema que eu mencionei.

Se aumenta o preço das escolas primárias (por reduzir o subsidio), tu estás a contar que os que continuam a utilizar o serviço perdem utilidade apenas pelo aumento do preço, e os que deixam de utilizar o serviço perdem utilidade apenas em função do preço que pagariam. Um problema disto é que o preço que pagariam é mais função do dinheiro que têm do que do valor que dão às coisas (parece-me que estas curvas de oferta e procura têm de assumir, implicitamente, que todos têm dinheiro que chegue, apenas têm preferências diferentes). Mas não é esse o problema que estou a focar aqui.

O problema que acho que esse gráfico não inclui é a perda de utilidade para os que ainda compram o serviço (verde claro) só pelo facto do serviço ter ficado fora do alcance dos outros que já não o compram.

Por exemplo, se a educação pública ficar acessível a metade das pessoas por aumentar 100€ por mês, a perda de utilidade para mim não seria apenas os 200€ por mês por causa dos dois miudos que tenho na escola, mas muito mais do que isso porque, para mim, é muito mau que só metade das pessoas possam ter os filhos na escola. E essa perda de utilidade não vem no gráfico.

Daí que, pelo gráfico, não poderias prever que eu preferiria pagar 400€ por mês (por exemplo) para ajudar a suportar um sistema de saúde universal em vez de 200€ por mês para pagar o mesmo serviço para os meus filhos.

A ideia que tenho (admitindo perceber pouco disto) é que estes modelos assumem implicitamente que as curvas são ditadas pelas preferências dos agentes (e não por restrições como ganhar só 400€ por mês e não ter como pagar mais por muito que queira) e que a utilidade para cada agente é função apenas daquilo que acontece a esse agente, e que nenhum agente se preocupa com os outros (caso contrário não poderias medir a utilidade por essas áreas).

Essas premissas, em geral, são falsas.


De PR a 1 de Janeiro de 2012 às 23:26
Ludwig,

"O problema que acho que esse gráfico não inclui é a perda de utilidade para os que ainda compram o serviço (verde claro) só pelo facto do serviço ter ficado fora do alcance dos outros que já não o compram."

O gráfico do MM, em concreto, não inclui. Mas essa perda de utilidade é "incluível" num diagrama deste género.

Por exemplo: se a utilidade do agente médio aumentar pelo facto de todos os outros agentes poderem comprar o bem [educação, no teu exemplo], então é necessário derivar uma nova curva de procura, que se situa à direita da curva inicial (como esta: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Positive_externality.svg)

Se o modelo incluir esta externalidade, um subsídio à produção surge como a solução mais eficiente [do ponto de vista da utlidade total]. Claro que na prática pode ser difícil perceber exactamente onde estão as externalidades.



De Miguel Madeira a 28 de Dezembro de 2011 às 22:12
Convém notar que, em "economês", "eficiência" tem muitas vezes a conotação de "situação em que não seria possivel melhorar a situação de alguém sem piorar a de outro". Isso pode, nalguns casos, ter implicações muito diferentes do que na linguagem comum se chamaria de "eficiência"


De chat a 14 de Julho de 2014 às 17:46

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