Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Priscila Rêgo

O post anterior é demasiado fatalista. Na verdade, há várias formas de ultrapassar os problemas que a assimetria no acesso à informação coloca ao estabelecimento de contratos. O banco que pede o dinheiro ao seu cliente não pode garantir por palavras que não irá fugir com os seus depósitos - mas pode mostrar-lhe por acções que não tem intenções de o fazer. Uma sede faustosa no centro da cidade é um forte indício de que tenciona estar ali durante muitos e bons anos.

 

Também é difícil provar o amor. Uma boa maneira de dar alguma credibilidade a meras declarações é condimentá-las com prendas caras e inúteis, que mostrem à potencial companheira o grau de investimento que se está disposto a fazer na relação. Neste caso, como no anterior, o princípio da sinalização é simples: provar, através de actos, que se tem determinadas qualidades ou que se está disposto a honrar certos compromissos. O propósito das acções é revelar estados interiores não directamente observáveis.

 

Povavelmente, é esta a estratégia do Governo português para lidar com a "troika". Não é difícil perceber porquê. Há propostas que conjugam um impacto social tão grande com um proveito económico tão ridículo - e que foram enformadas por um discurso tão violento e intransigente - que só podem ser entendidas à luz deste prisma. O propósito não é pôr a casa em ordem mas mostrar a quem está lá fora que se está disposto a ir tão longe quanto necessário para se cumprir os objectivos.  

 

Exemplos: a ideia de aumentar o horário de trabalho em meia hora, cortar quatro feriados, eliminar o ponto do Carnaval e fazê-lo. Qualquer pessoa que se tenha dado ao trabalho de fazer as contas chega à conclusão de que todas estas medidas podem, no melhor dos cenários, ter um impacto negligente em qualquer variável macroeconómica (e, no pior, serem contraproducentes). Mas se o objectivo não era melhorar a situação, mas sim sinalizar uma posição de compromisso, a estratégia faz sentido. Na verdade, a estratégia só faz sentido se as medidas foram marcadamente violentas. Se se enquadram nas expectativa da população, não dizem muito ao exterior acerca da coragem do Governo.    

 

Se a estratégia correr bem - e há alguns indícios de que está a surtir efeito -, talvez seja possível esperar que a Europa abra um pouco os cordões à bolsa e que nos dê mais dinheiro para cumprirmos as metas em mais tempo. Esta é a melhor solução para os credores preocupados com os seus activos e para os portugueses atolados em passivos, pois permite alicerçar o pagamento da dívida (ou melhor, a sua estabilização) numa economia menos débil. Mas só é possível se houver certeza de que a parte com mais informação não vai enganar a outra quando as concessões forem feitas - e isto exige actos, não promessas. Ao contrário do que pensa António José Seguro, não era possível chegar ao Céu sem antes passar pela expiação.

 

 


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8 comentários:
De Luís Lavoura a 14 de Fevereiro de 2012 às 10:39
prendas caras e inúteis, que mostrem à potencial companheira o grau de investimento que se está disposto a fazer na relação

Em evz de "investimento" seria talvez melhor escrever "desperdício", "esbanjamento", ou "gastos sumptuários".

A prática de dar prendas caras e inúteis, à companheira ou seja a quem fôr, é estúpida e, se quem recebe as prendas não fôr parvo, contraproducente.

É isso mesmo que eu penso das medidas referidas neste post como sendo oferecidas por Portugal à Alemanha - o aumento das horas de trabalho, a eliminação de feriados nacionais (a dos religiosos está bem), etc. São prendas caras, inúteis e, de facto, potencialmente contraproducentes.

E só se a Alemanha fôr parva é que não perceberá isso.


De jj.amarante a 14 de Fevereiro de 2012 às 12:42
Se as medidas são inúteis não devem ser usadas. Este post não as consegue justificar, continuamos no domínio da irracionalidade.


De é uma medida com escasso significado a 14 de Fevereiro de 2012 às 16:55
4 dias de salário a 600,000 funcionários

a 40 x 4 x 600 mil=96 milhões apenas

é claro que se poupam só no sector hospitalário mais uns 15 milhões em horas extraordinárias

mas tudo junto 100 milhões
e provavelmente nem vão trabalhar grande coisa



De PR a 14 de Fevereiro de 2012 às 22:31
"Se as medidas são inúteis não devem ser usadas. Este post não as consegue justificar, continuamos no domínio da irracionalidade."

Não são "inúteis" no sentido que emprega o termo. Elas são substancialmente ineficazes, mas instrumentalmente eficientes. Sem elas, seria impossível garantir à outra parte que estamos dispostos a cumprir o acordo.

Um homem que não perceba a importância de sinalizar disposições internas, por exemplo [como é o caso do Luís Lavoura], dificilmente terá muita sorte com mulheres.

"mas tudo junto 100 milhões"

A medida é retirar feriados. Não é deixar de pagar dias de trabalho.





De Luís Lavoura a 15 de Fevereiro de 2012 às 10:02
A Priscila deve ter as mulheres em muito má conta, se considera que são tão estúpidas que acham que é inteligente esbanjar dinheiro em prendas caras e, ainda por cima, inúteis.
Qualquer mulher minimamente inteligente percebe que comprar coisas inúteis e caras é uma atividade estúpida e auto-destruidora, e que não pode ter confiança num homem que aja dessa forma.
Como jj muito bem apontou acima, estamos no domínio da irracionalidade, e a Priscila está a defedner uma espécie de newspeak, em que práticas estúpidas são consideradas inteligentes, esbanjar dinheiro é considerado uma administração avisada do capital, etc.


De Luís Lavoura a 15 de Fevereiro de 2012 às 10:04
A medida é retirar feriados. Não é deixar de pagar dias de trabalho.

È, na prática, equivalente.

Retirar feriados é acrescentar dias de trabalho. Como o salário não aumenta, isso é o trabalhador dar mais trabalho pelo mesmo salário. Ou seja, é o trabalhador dar ao patrão dias de trabalho não pagos.


De PR a 16 de Fevereiro de 2012 às 00:41
"Como jj muito bem apontou acima, estamos no domínio da irracionalidade, e a Priscila está a defedner uma espécie de newspeak, em que práticas estúpidas são consideradas inteligentes, esbanjar dinheiro é considerado uma administração avisada do capital, etc."

Não. Estou a mostrar como práticas aparentemente estúpidas podem ser, na verdade, úteis. O post é acerca disso: se quiser perceber como, pode ser boa ideia lê-lo.

"Retirar feriados é acrescentar dias de trabalho. Como o salário não aumenta, isso é o trabalhador dar mais trabalho pelo mesmo salário."

E que tem isso a ver com a ideia apresentada pelo comentador anterior, ao qual eu estava a responder?


De chat a 14 de Julho de 2014 às 17:06

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