Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
Rui Passos Rocha

A tragédia grega não é feita só de amor, azar e morte. O que a distingue do drama social é concentrar-se na psique do herói. A boa tragédia descreve pormenorizadamente a assimilação psicológica dos infortúnios de quem, até há pouco, nadava num mar de rosas.

 

Este artigo tem a vantagem de conter duas tragédias numa só. Um casal grego que ganhava 43 mil euros anuais governa-se agora com cerca de metade, e isto temporariamente porque o marido está prestes a perder o subsídio de desemprego. Depois de terem comprado casa e pago a educação superior dos dois filhos, o pouco que sobrou começa a desaparecer.

 

Como os filhos, para já empregados, receberam uma simpática herança de uma familiar, os pais dizem que está a chegar a hora de receberem dinheiro deles. Um dos filhos responde algo como isto: “se as coisas piorarem, cá estaremos para ajudar”.

 

A gratidão e a solidariedade são bonitas, mas talvez nem sempre sejam justas. Sendo a Grécia um caso peculiar de patronagem e sanguessuguismo político, uma quebra assim abrupta das esperanças dos cidadãos é revoltante. Mas devia ser particularmente revoltante que o discurso político tenha omitido, nas últimas décadas, a fragilidade estrutural em que a economia assentava. A culpa não foi só política, mas o exemplo vem de cima.

 

Os pais-43-mil-euros que estão hoje dispostos a tirar mais um quanto aos filhos são os mesmos cujos direitos adquiridos impõem agora uma readaptação brutal à nova geração: salários mínimo e médio inferiores, reforma mais magra e tardia, mercado laboral liberalizado e com menos direitos para os novos trabalhadores. Esta é a tragédia dos pais que, sem o saber, provocaram a avalanche, mas também  dos filhos que dela terão de se desenterrar.

 

[publicado também na minha outra casa]


15 comentários:
De J.Alfred a 23 de Fevereiro de 2012 às 11:11
Caro Rui,

Efectivamente, a tragedia helénica assume contornos de acentuada descaracterização social que, em todo o caso, passam além da estrutura, ou das bases, da economia e das finanças. O que pode ser significativo observar neste caso, não é um lado emocional de auxilio mutuo e familiar, de extrema importância em qualquer momento e, particularmente, numa altura como a presente (independentemente da direcção do vector – pais/filhos ou filhos/pais). O significativo é o extremo racionalismo económico que se apodera das emoções e das relações que, por fim, fecunda toda uma bacia semântica e consequentes.


De RPR a 23 de Fevereiro de 2012 às 11:44
Não percebi tudo, mas acho que está a dizer que a relação entre gerações devia ter menos racionalidade económica e mais laços afectivos. Isso parece-me particularmente útil para a geração que levou com os anos gloriosos em cima, já que as novas gerações têm mesmo de fazer contas diariamente.


De J.Alfred a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:22
Caro Rui,

A sua resposta é suficiente para elucidar o meu comentário. Não que descorde do que diz, pelo contrário, sendo eu um jovem empregado reconheço a angústia (i.e., o peso e significado) das suas palavras. O que assinalo, é que o principio de solidariedade e, particularmente, o contexto de interdependência familiar, no duplo sentido restrito e lato, se foi desertificando, se me permite o termo, e a espaços substituído por uma meta-narrativa económica e financeira. A racionalidade do abaco pelo sentido de uma terminologia dos sentimentos. Embora, com a seriedade necessária, reconheça que uma disposição distinta será um complexo atendendo ao universo que se institui em nosso redor.


De o universo que s'institui...... a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:30
este deve ter tirado um curse de comuna i cação associal

s'e um jovem empregado em muitas partes deste mundo
e com níveis de vida superiores aos gregos

consegue sobreviver nos slums das megalópoles com menos de 8000 dólares anuais....

porque é que um casal de gregos ou portugas nã consegue viver por 20 mil...


em 1992 os espanhóis em sevilha dormiam dentro dos carros...nã é um nível de vida bom mas sobreviviam
em biscates com 100 000 pesetas anuais

e 8000 pesetas por mês em 1992 era poucochinho

aqui o salário mínimo rondava os 44.500$ contos

há aqueles que têm direitos adquiridos

e eurropeus de 2ª que nunca os tiveram

basta ser gitano...



De O GAJO reconhece a angst a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:40
reconheço a angústia (i.e., o peso e significado (simbolismo quantitativo explanatório) das suas palavras....

nitidamente uma NEUROSE DE TRANS FERÊN(ferenc najos) CIA

OU una Histeria de Angústia?
ô Histeria de conversão?

e pelo texto tem NEUROSES NARCÍSICAS com necessidade de expressão....

nisso tem uma em comum com o autor do texto

mim trata o dois em um por 5 aeurriós à hoira

u outro neurótico narcísico faço adesconto de 70%


De RPR a 23 de Fevereiro de 2012 às 17:26
JA, ao que parece discorda mesmo, e eu também discordo de si. Mas no essencial estamos de acordo: a solidariedade entre gerações é importante. Aliás, sem ela o Estado Social não existe. Aquilo em que divergimos é no grau de justiça social intergeracional, que me parece dever ser maior (vamos sofrer as consequências de alguns excessos) para que a própria solidariedade não se corroa.

Se a desigualdade intergeracional aumentar a ponto de gerar tensão entre velhas e novas gerações, o JA dirá que a solidariedade desapareceu e que a culpa é de pessoas como eu que não consideram a solidariedade um bem absoluto e independente de considerações económicas?


De J.Alfred a 23 de Fevereiro de 2012 às 19:11
Caro Rui,

A Solidariedade, de um ponto de vista pragmático, como tudo na vida, faz e é parte da economia. Agora, coloco é o pensamento ao nível conceptual ponderando até que ponto a equidade geracional, por exemplo, será desgastada por observação e campos teóricos puramente (sem serem exclusivamente) económicos.
Não ponho em causa, na génese discussão, a importância de uma justiça social que comporte um entendimento geracional, e se assim for, julgo, damos o primeiro passo para revolver a questão da degradação da solidariedade social. Creio, é que na base, deve ser compreendida não apenas como um espectro de âmbito económico mas, também, de enraizamento psicossocial, com um contexto prático que a acompanhe.
Mas, em todo o caso, admito que tenhamos de ser mais pragmáticos e, por isso, mais económicos na linguagem que utilizamos.


De a tragédia grega resulta da intervenção a 23 de Fevereiro de 2012 às 14:56
dos deuses

há tragédia por hubris há tragédia via toque de Midas

e esses salários de 22 mil por ano presumo que de 2009
(uma vez que em 2010 houve cortes para muitos funcionários)

eram de apenas 3 milhões de dracmas em 1997....

ora de 3 milhões para 8 milhões e picos em 12 anos.....

dá quanto de taxa de aumento anual

(1+n)elevado a 12=8/3

é só fazer as con tásse

tásse

direitos adquiridos à custa de quê?

é que não são os funcionários do estado que são contribuintes líquidos para o systema

tiraste o curso na Covilhã ou foi em Évora?

é que se foi tens desculpa


De é claro que se fores engenheiro a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:00
da escola guterrista...nem contas pelos dedos sabes fazer

quanto mais juros con postos

pauvre con...

e isto é elogio e patronage é snob

clientelismo e backchich político-institucional....


De os mestres de obras gregos a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:11
em 94-98 iam para a Alemanha

a partir de 2002 graças ao boom imobiliário grego...

ganhavam mais na grécia do que numa alemanha que restringia os aumentos salariais...

só quem fosse cego é que não via crises futuras

tal como cá apartamentos de 250 mil a 500 mil euros

dignos de países com maior nível de vida

e ladrilhos de mármore como os dessa casa do casal grego

fica carote uma sala de 40 m2 ou mais com ladrilhame de mármore

o mê prime tamém só ganhava 25 mil...e comprou uma casota de 400 mil...é fino

era para pagar em 40 anos uma pechincha né...

com 43 mil por ano

quanto pouparam nos últimos 10 anos?

5% 10%

com 21.000 euros na Áustria poupavamos 30% a 50%

cada um paga os estylos de vida que tem

casas de 500 metros quadrados são caras mesmo quando se é mestre de obras como o tal grego

já agora os 700 mil haitianos que ainda dormem nos escombros das casas

devem estar numa comédia grega né?


De e os romenos que vivem com 200 euros por a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:15
mês....devem estar numa hipertragédia

e só recebem 12 meses...

ou os islandeses que se reformam no mínimo aos 67....
e perderam os fundos de pensões em 2008

e recebem menos de 1/3 do que recebiam há 6 ou 7 anos?

ou seja 33% e menos das pensões de 2006


De meu Deus só 20 mil a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:22
como é que será com aqueles casais de velhotes nos EUA

que aos 70 tiveram de voltar a trabalhar e a morar na rua

e a comer do lixo dos supermercados

por os bancos terem queimado os seus fundos de pensões?


só na rica Florida o nº de velhadas que perdeu reformas e casas
aumentou 5% ao ano desde 2008
em 4 anos (1+0,05)elevado a 4=21,55%

tendo em conta que já eram umas dezenas de milhares em 2007...

estes o New York times nã se alembra...

em contrapartida os russos e chinocas fazem reportagens demagógicas sobre estes americanos desvalidos...que vivem de food stamps

é menos do que 20 mil euros ou dólares ou mesmo rublos por ano...né?
tásse


De uma quebra das expectativas dos 200 mil a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:34
haitianos que tinham internet...

e agora nem casa têm é revoltante...mas em 20 anos aconteceu em tanto lado...

gente que tinha um nível de vida e hoje está na miséria

cristãos iraquianos outrora uma élite do regime...
hoje refugiados em diásporas várias

diás porras...fine né?


De George sand a 2 de Março de 2012 às 01:39
Economia e finanças não são nem por sombras as minhas áreas.
Em relação ao que se passa na Grécia e na Europa, só me faz impressão uma coisa: fala-se de tudo...menos de pessoas.
A realidade na Grécia é muito complicada. O dia a dia das está a ficar difícil. Os horizontes estreitam-se. A esperança desaparece. As perspectivas, os sonhos, deixam de fazer sentido. Não os dos números. Mas os das pessoas.
Cumps.


De chat a 14 de Julho de 2014 às 17:02

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