Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
Priscila Rêgo

Vale a pena ler a entrevista de Paul Krugman ao Jornal de Negócios. A entrevista promete ser uma dor aguda no coração de alguma Esquerda que tinha visto em Krugman uma espécie de messias da Nova Economia (a Nova Economia é a economia sem matemática e com conclusões de Esquerda) e de paladino contra a austeridade. Entre outras coisas*, Krugman defende que não há alternativa à austeridade, que não há um ataque concertado ao euro e que a saída da moeda única não é, por enquanto, uma opção. Em poucas palavras: não há saída sem dor. Nem bodes expiatórios a quem apontar o dedo.

 

Grande parte da Direita também ficará surpreendida com as posições de Krugman. Alguma dissonância cognitiva poderá até ser inevitável: o que é que é suposto a Direita conservadora dizer de um tipo para quem o Estado Social é sustentável, que defende que a dívida pública não é para pagar e que, ao mesmo tempo, afirma que Portugal devia baixar salários em 20% relativamente à Alemanha? O coração diz "bate"; mas a razão diz "louva". É o drama do criacionista que dá de caras com um fóssil de transição.

 

Este é o maior mérito de Krugman: a capacidade de analisar a economia para além das divisões e compartimentos impostos pelo espectro político. O mundo não é de Esquerda ou de Direita - o mundo é como é. E se os preconceitos acarinhados durante décadas não se ajustam ou adequam aos fenómenos do mundo real, pois tanto pior para os preconceitos. Krugman não deixa de ser Esquerda por dizer que não há alternativa à austeridade. Limita-se a colocar-se junto a uma franja cada vez mais restrita dessa Esquerda: a que ainda não fechou os olhos ao que se passa à sua volta.

 

*Entre outras coisas que, certamente, andou a ler por cá: a crise não é um problema de Estado Social, a austeridade é um sinal ao centro da Europa, países pequenos não escolhem a austeridade, aceitam-na por ausência de alternativas, as agências de "rating" são sobreestimadas, não há uma guerra euro/dólar.    

 


8 comentários:
De Luís Lavoura a 29 de Fevereiro de 2012 às 09:58
Portugal devia baixar salários em 20% relativamente à Alemanha

Eu não percebo esta afirmação:

(1) A maioria dos produtos de exportação alemães - automóveis, máquinas industriais, produtos químicos, produtos elétricos, equipamentos industriais - não compete com a maioria dos produtos de exportação portugueses. Portanto, para quê comparar a estrutura de custos de uns com a estrutura de custos dos outros?

(2) Portugal é competitivo com os salários que tem, tal como se verifica pela recente expansão das exportações portuguesas. A balança comercial portuguesa está atualmente equilibrada.

(3) Os salários não perfazem mais do que 40% (provavelmente um bocado menos) dos custos das exportações portuguesas. Por quê contrair os salários se esse nem é um custo tão dominante?

(4) Portugal não pode ambicionar competir através dos baixos salários, dado que há muitos países que têm salários bem mais baixos do que Portugal, inclusivé países da União Europeia (a Roménia, a Bulgária, a Polónia). Portugal tem que competir com outras armas.


De Miguel Madeira a 29 de Fevereiro de 2012 às 17:05
1) e 3) - o que interessa não é só as exportações, mas também as importações

2) Isso não será em grande parte devido à diminuição das importações, por sua vez devida à crise

Além disso, o qu interessa não é só a competição directa entre empresas portuguesas e alemãs: o facto das empresas alemãs serem competitivas face, digamos, às japoneses contribui para valorizar o euro, e assim diminui a competitividade das empresas portuguesas face às paquistanesas.


De Luís Lavoura a 29 de Fevereiro de 2012 às 10:00
a Nova Economia é a economia sem matemática e com conclusões de Esquerda

A Economia Austríaca é a economia sem matemática e com conclusões de Direita.


De tete a 29 de Fevereiro de 2012 às 14:44
Aliás, ser de esquerda ou de direita, é neste momento algo "alimentado" só pelos Exmos deputados desta Republica à beira mar plantada. O que´o povo quer neste momento, é conseguir pagar as dividas e o dia a dia..Vejam as poucas diferenças "ideologicas" entre PS e PSD. Pois... não se come ideologia, nem se como esquerda ou direita.
O que Portugal precisa não é de senhores de fora que nos venham abrir os olhos!!!! ou precisa?!O que se pagou a este senhor, para vir a Portugal se calhar dava para algumas sopas dos pobres!!!
Deixem-se se senhores de prémios Nobel, aliviem a carga fiscal, aumentam a competitividade através de diminuição de custos de funcionamento (agua, luz etc) para aumentar a competitividade e depois então vejam se não pôem o Pais a crescer e a ser competitivo. Prontos :( a mim ninguem paga pela receita, snif snif


De Miguel Madeira a 29 de Fevereiro de 2012 às 17:10
A respeito do estado social, pensei a mesma coisa quando li a ultima (ou penúltima) coluna dele.

Acerca de ele poder estar a provocar dissonâncias cognitivas tanto à Esquerda como à Direita - palpita-me que é que por vezes os leitores esquecem-se que os artigos dele raramente são sobre a questão "o que New Jersey Portugal deveria fazer?", mas sim sobre "o que os EUA a UE deveria fazer?".



De Sérgio Pinto a 1 de Março de 2012 às 07:12
Bem, depois de anos em caixas de comentários, nota-se que sou recém-chegado ao 'outro lado' dos blogues e que ainda não pesco grande coisa disto - achava que a minha resposta geraria uma espécie de 'pingback' que apareceria aqui automaticamente (obviamente, enganei-me). Em todo o caso, aqui fica: http://jardimdemicrobios.blogspot.com/2012/03/krugman-e-esquerda.html


De l.rodrigues a 6 de Março de 2012 às 09:28
O problema não é a economia com Matemática. O problema é a Matemática aplicada à economia ser demasiado simplista.
A economia clássica está presa a modelos mecanicistas à imagem da física do século 19. Mas para traduzir o que se passa na Economia é preciso uma matemática de sistemas complexos...


De chat a 14 de Julho de 2014 às 17:02

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