Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
Priscila Rêgo

Por vezes, convém a esquecer a economia e sair de casa para espairecer um bocadinho. Assim, e enquanto o mundo cai aos bocados, podemos ler o que o Henrique Raposo tem a dizer acerca de Deus. Deus não é para o bico da ciência reza mais ou menos assim:

 

O que torna Flew num caso subversivo para o ateísmo hegemónico não é a mera conversão à ideia de Deus. A subversão está na forma, porque Flew chegou a Deus através da ciência, e não através da fé. Flew atingiu Deus através da física e da cosmologia. O ex-papa dos ateus pegou nos dados científicos, e Eureka: há um Deus subjacente à racionalidade da natureza e do universo. Tudo bem? Tudo mal. Deus não é um assunto científico. Deus não se prova ou desprova cientificamente. Deus é um salto de fé abraâmico, kierkegaardiano. Se Dawkins está errado, Flew também não está certo.

 

Isto é perturbador. Apetece perguntar: ok, Deus não se prova ou desprova cientificamente. E isto porque?...

 

A pergunta não é retórica. Certamente que se Deus em pessoa, a saltitar sobre a água e a curar cegos com o toque, se apresentar ao Henrique, ele verá confirmada a sua crença na existência de um ente superior. Apesar de esta confirmação não ter o grau de refinamento de uma "prova científica" (não chega a tanto: é apenas senso comum aliado a um par de olhos), ela é seguramente uma prova "empírica" que ninguém mentalmente são - ateu ou crente - desprezaria. A ideia de que Deus não pode ser provado por via empírica é um afirmação irrazoável de quem começou a pensar no assunto sem ter os dois pés bem assentes na terra.

 

O Henrique remete para Popper e lembra que mesmo a ciência não prova nada, limitando-se a afirmar verdades provisórias. Mas esta é uma afirmação trivial que tanto se aplica a Deus como à destreza linguística do Jorge Jesus. Apesar de não ser possível provar, sem qualquer resquício de dúvida, que o treinador do Benfica não é um Camões em potência, parece razoável concluir, à luz da evidência disponível, que ele é um semi-analfabeto (sem desprimor: não obstante, tem um cabelo maravilhoso). É este grau de certeza, provisório e relativo, que está envolvido em afirmações como "Deus não existe" e por aí fora. 

 

Agora, há um ponto curioso que poucas vezes vejo referido. Esta deferência epistemológica perante Deus, como se ele fosse uma entidade distante, intocável e inalcançável, é uma coisa relativamente recente. A grande maioria das religiões - sobretudo as mais antigas - não está preocupada com subtilezas deste género. Zeus era um homem como os outros, que podia ser preso com cem nós (mas disparava raios das mãos). Com Thor e cª passava-se a mesma coisa (suspeito que as personagens da Marvel são bastante mais poderosas do que os Deuses que as inspiraram eram no imaginário da Grécia e Escandinável antigas). O próprio Antigo Testamento retrata um todo-poderoso bastante humano. Pelo menos, ao nível das qualidades pessoais.

 

A minha suspeita, que gente mais esperta do que eu provavelmente também já terá tido, é que toda esta "éterização" de Deus, bem como o refinamento teológico dos últimos oito ou nove séculos (e pelo menos na linha "justificativa" de Leibniz) são em grande medida uma forma de fazer recuar a "linha de refutação". Ou seja, e perante os avanços da ciência, as religiões sobreviveram à custa de mecanismos de justificação teológica, que tornaram a refutação mais difícil ou facilitaram - com algum esforço psicológico e muito boa vontade à mistura - a compatibilização da noção de Deus (que na prática deixou de ser "o" Deus típico) com informações dissonantes que vinham de vários campos do saber (biologia, química, etc.). Neste sentido, o recurso ao "Deus não se prova" é a derradeira estratégia de defesa, depois de todas as outras terem caído.  

 

 

 


Arquivado em: ,
24 comentários:
De Luís Lavoura a 29 de Fevereiro de 2012 às 09:49
toda esta "éterização" de Deus, bem como o refinamento teológico dos últimos oito ou nove séculos são em grande medida uma forma de fazer recuar a "linha de refutação"

A religião que tem a conceção de Deus mais etérea de todas - o islamismo - toma a existência de Deus como uma evidência indiscutível. O Corão nem sequer se dá ao trabalho de discutir se Deus existe ou não - a sua preocupação centra-se em afirmar a unicidade de Deus.


De jj.amarante a 29 de Fevereiro de 2012 às 11:48
Uma tese plausível, outra é que afinal também há vida para lá da economia.


De Nuno Gaspar a 29 de Fevereiro de 2012 às 14:51
"Ou seja, e perante os avanços da ciência, as religiões sobreviveram à custa de mecanismos de justificação teológica, que tornaram a refutação mais difícil"

Mas porque raio às mudanças chama avanços na ciência e recuos na teologia? Uma imagem mais precisa de como o mundo funciona certamente pode enriquecer as maneiras de olhar para ele e para a desilusão de nele cada um perceber o seu fim.
A ciência só pode tratar do geral, impessoal. Os significados que pode ter Deus nunca podem escapar a, em maior ou menor grau, perspectivas singulares e pessoais. Por isso, neste caso, Henrique Raposo está certo. Se ciência ou religião tentam ocupar o território uma da outra caem no precipício.


De PR a 29 de Fevereiro de 2012 às 23:18
Nuno,

Se vir um homem a recuar alguns passos perante um buraco no chão, é legítimo supor que ele está a ganhar balanço para dar um salto. Mas se ele recua à medida que um tipo com uma faca se aproxima, é mais razoável concluir que ele está a recuar. É este padrão de "dança sincronizada" que eu noto na relação entre a ciência e a religião que me leva a dizer que a segunda está a recuar.

Quanto à segunda parte do seu comentário, só ajuda a obscurecer a questão. O meu pai também tem um significado e uma relação singular com cada um dos três filhos, e é óbvio que é um disparate dizer que a sua existência não pode ser confirmada por via empírica.


De Nuno Gaspar a 29 de Fevereiro de 2012 às 23:25
Priscila,

Não vejo buraco no chão, nem faca, nem dança. Quando muito, vejo alguém que anda com as duas pernas. Cortam-lhe uma e fica a saltar ao pé coxinho.


De PR a 1 de Março de 2012 às 00:55
Desconversar também conta como um recuo, Nuno :)


De Nuno Gaspar a 1 de Março de 2012 às 00:21
Segunda parte: o que tem existência empírica é o corpo. Não terá dificuldade em partilhar a sua identidade. A relação singular que se estabelece entre cada um, que no fundo é o que interessa, não tem esse acesso empírico e até pode nem desaparecer quando já faltarem corpos.


De PR a 1 de Março de 2012 às 01:00
"A relação singular que se estabelece entre cada um, que no fundo é o que interessa, não tem esse acesso empírico e até pode nem desaparecer quando já faltarem corpos."

Logo, Deus é feito da mesma substância que me liga ao meu pai?


De Nuno Gaspar a 1 de Março de 2012 às 03:26
Ó Priscila,
Não sei de que substância Deus é feito. Mas alguma coisa há-de ter a ver com a recusa em aceitar que o mundo acaba no que se consegue ver e dizer dele e com a forma irrepetível com que cada um se confronta com a sua existência e o seu fim. A objectividade da ciência aí não mete o bedelho. Nesse aspecto, a partilha de simbolos, exemplos, arte, ou até o silêncio, pode ter muito mais interesse.


De PR a 1 de Março de 2012 às 23:56
Ah. Deus é arte, silêncio ou uma recusa. Ok, aí concordo que a ciência não mete o bedelho.


De Nuno Gaspar a 2 de Março de 2012 às 00:49
"Desconversar também conta como um recuo", Priscila.

Tilt!


De Pedro a 4 de Março de 2012 às 00:17
Acho que todos já todos percebemos que nem o Henrique nem o Nuno acreditam em Deus. Essa sua filosofia de Deus, Nuno, é bastante zen, meio new age, parece coisa do Paulo Coelho. É óbvio que Deus nada tem a ver com a razão e a ciência. Já se levou Deus a sério, já, quando se explicavam os fenómenos físicos do mundo à luz da religião. mas isso acabou.


De Nuno Gaspar a 4 de Março de 2012 às 15:48
"Já se levou Deus a sério, já, quando se explicavam os fenómenos físicos do mundo à luz da religião. mas isso acabou."

É. Por isso foram contruídos laboratórios dentro de algumas Igrejas. E alguns pesquisadores cristãos chegam mesmo a andar paramentados diante dos tubos de ensaio. Já a maior parte das explicações para os fenómenos físicos têm sido descobertas por ateístas fundamentalistas.


De Pedro a 4 de Março de 2012 às 16:47
O laboratório era o Génesis. Agora é uma simples alegoria. É do domínio do literário, da arte, etc. É um discurso.


De Miguel Madeira a 29 de Fevereiro de 2012 às 16:58
Lembro-me de no 10º ano ter feito um trabalho sobre a diferença entre "deismo" e "fideismo", entre a escola que quer provar Deus pela razão, e a que a quer provar pela fé; a própria existência dos "deistas" parece mostrar que houve muita gente que não concordava com HR.

Já agora, seria interessante saber se HR é pessoalmente religioso, ou se é apenas daqueles pessoas que acham que a religião (independentemente de ser verdadeira ou false) é boa porque acham a vida em sociedade requer algo mais do que apenas a "razão fria" (é que, para falar a verdade, ele não me parece particularmente religioso, embora nalguns artigos me parece valorizar a prática religiosa como "cola social"). Se for do segundo tipo, até se percebe bem as suas reservas à racionalização de Deus, porque para esses pessoas a grande vantagem de Deus é não fazer parte do mundo racional.


De Nuno Gaspar a 29 de Fevereiro de 2012 às 18:16
Deus não faz parte do mundo racional?
E depois?
Tanta coisa que não faz parte do mundo racional: o mal, o bem, o belo, o amor, a nossa morte. Não é por isso que deixamos de conviver com elas no quotidiano.


De pr a 29 de Fevereiro de 2012 às 23:25
Acho que o raciocínio do HR não é refinado a esse ponto. Ele parece-me uma espécie de "agnóstico por temor". Como se tivesse receio de analisar o conceito à luz da razão e quisesse alargar essa "cobardia" (entre aspas, à falta de melhor termo) epistemológica a toda a gente.


De besouro a 29 de Fevereiro de 2012 às 19:23
Mas quando é que esta gente, de uma vez por todas, acaba com esta palermice divina.
Deus é uma criação humana. PONTO


De ssss a 10 de Maio de 2012 às 13:41
idiota


De manuel.m a 29 de Fevereiro de 2012 às 22:21
O Alfa e o Omega

Li o post com a curiosidade habitual com que leio este blog e nele e nos seus comentários encontrei um pouco de mim , e do que tem sido este meu caminho que já vai longo ,tentando perceber a questão magna da existencia divina .
Hesitei em comentar : Afinal que poderia acrescentar ao que já foi tão debatido ? Mas ciente ds minhas fragilidades e dos limites naturais que este meio me impõe ,resolvi no entanto escrever , confiando na generosidade de quem lê.

Se bem percebi diz a Priscilla Rego que à medida que o Ciencia explica , a "ideia" de Deus encolhe .Não concordo nem posso aceitar que uma (A ciencia ) seja incompativel com a possibilidade do sobrenatural ,ou seja Deus .
Os cristãos primitivos representavam Jesus ,Filho de Deus ,como o Alfa e o Omega ,a primeira e ultima letra do alfabeto grego ,ou seja o principio e o fim de todas as coisas .
Vinte séculos depois , a Ciencia diz-nos que houve realmente um principio (o Big-Bang) e que haverá um fim com o colapsar do Universo e os cientistas vão ao ponto de calcular com relativa exactidão quanto tempo resta . Conhecem eles também como era o Universo fracções de segundo depois da sua criação ,mas não há explicação inteligivel para o espirito humano para o que existiria imediatamente antes desse instante (Tudo , absolutamente tudo ,matéria ,espaço ,tempo ,contido no infinitesimamente pequeno ) Isto é o que a ciencia sabe ,o que a ciencia prova . Mas vai mais longe e diz-nos que o Universo , (Que por definição é tudo aquilo que existe...) , se expande continuadamente ,mas não pode dar uma explicação para onde , que tipo de realidade cósmica vai ocupando , até entrar em colapso sobre si próprio e acontecer o Omega de que falei.
Conhece certamente a investigação do CERN sobre o Bosão de Higgins e o nome porque é conhecido (A particula de Deus ) e saiba que muitos cosmologistas chegaram à conversão pela ciencia e pela constatação que fazem de ser a existencia de Deus a unica possibilidade de haver uma explicação coerente para o que há.

Fala em Flew e na sua conversão .Eu poderia acrescentar o nome de C.S. Lewis , (o de Narnia ), ele que foi também ateu convicto . Ambos tiveram o seu momento da Estrada de Damasco aravés da Razão ,intelectuais que eram de enorme estatura . Este ultimo foi soldado nas trincheiras da I Guerra e já demasiado idoso para combater na II , foi convidado a fazer várias palestras na BBC sobre o Cristianismo para uma audiencia que passava pelas terriveis provações e sacrificios que se conhecem . Reunidas em livro são talvez a mais poderosa força conhecida na apologetica da fé cristã .
Tudo isto é demasiado importante para se tornar num mero jogo de futebol Crentes/Ateus pois como já se percebeu não há balizas nem sequer bolas ...
manuel.m


De João Leal a 2 de Março de 2012 às 11:31
Li há uns meses valentes o livro de Flew e não me lembro de ele lá dizer que se converteu mas sim que passou a pensar que existe um criador.
O filósofo diz que chegou à conclusão de que há observações da ciência que indicam, no seu ponto de vista, a necessidade de um criador ou de uma mente planificadora.
Existe o já referido Big Bang, a impossibilidade de saber o seu agente causador e o que existia antes. É dito no livro que “nada absoluto” é a ausência de tudo e que tudo no universo aponta para um estado anterior. Assim, o universo não pode ter vindo obviamente do nada. Dizer que veio, filosoficamente é o equivalente a dizer que não se tem respostas.
Outro ponto importante que é referido no livro é a codificação do adn. Há um principio de linguagem em qualquer informação. A codificação no adn e como este dá instruções à célula são linguagem e esta não pode ter surgido do nada, pressupondo uma inteligência criadora como tudo na experiência cientifica humana diz.
Estas são as bases do livro, se bem me lembro. Portanto, Flew chega mesmo à conclusão, pela lógica e pela honestidade, de que tem de existir um poder anterior dentro e fora das nossas coordenadas espacio-temporais que programou e activou.
Há só uma questão importante. Flew não se converteu a uma fé. Ele tornou-se teísta. Isto é muito importante. Ele não acredita num ser de relação pessoal como o Henrique Raposo refere. Isto faz toda a diferença e teria evitado uma crónica tão falhada como aquela.


De Pedro a 4 de Março de 2012 às 00:07
O Henrique Raposo tem razão. Deus é tanto para o bico da ciência como os duendes. Cada um tem direito à sua fantasia, coisa que na religião se chama fé, uma outra dimensão qualquer igual aos afectos, à arte, etc e tal. Isto é um discurso muito novo na Igreja, como se sabe. Já lá vai o tempo em que os católicos acreditavam que Deus tinha criado mesmo o mundo.


De iupi a 6 de Março de 2012 às 13:31
com cada 'avanço' da ciência na interpretação da 'realidade', a única coisa de que ficamos a saber mais é sobre o crescente tamanho da nossa ignorância. cada resposta dada traz consigo muitas novas perguntas.

quando a base para reflexão é uma prosa do Henrique Raposo, não se pode pedir muito.




De chat a 14 de Julho de 2014 às 17:01

شات مصريه (http://www.maasrya.com/)
منتدي صور مصريه (http://www.maasrya.com/vb)
منتدي صور (http://www.maasrya.com/vb)
منتديات مصريه (http://www.maasrya.com/vb)


Comentar post

autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds