Quinta-feira, 8 de Março de 2012
Priscila Rêgo

Esta não é uma delas, porque o post do Carlos Guimarães Pinto revela, parece-me, uma genuína preocupação com o verdadeiro estatuto do embrião/feto humano. Mas acho que está a olhar para o problema pelo prisma errado.  

 

Há um ponto prévio a fazer (de importância limitada, reconheço) acerca da questão alemã. Não sendo especialista na questão, duvido que se possa dizer que "as mortes nos campos de concentração eram aceites como necessárias e normais pela maioria". Afinal de contas, a "Solução Final" data de 1942, numa altura em que Hitler já levava muitos anos no poder e o aparelho estatal e a comunicação social estavam substancialmente controlados para ocultar a carnificina. Mesmo que houvesse alguma self-deception por parte da opinião pública, há registos de oficiais que escondiam a natureza do seu trabalho das próprias mulheres, sugerindo que a tragédia estaria bastante menos difundida do que o Carlos dá a entender. 

 

O caso dos índios americanos e negros da África colonial parece-me mais interessante, por ilustrar a tese do post anterior. A razão por que ficamos hoje chocados com as atrocidades impostas a estes povos têm pouco que ver com a sua progressiva inclusão nesse grupo difuso que é o dos "seres humanos". "Ser humano", enquanto categoria biológica, nem faria muito sentido no século XIX, quando os europeus começaram a preocupar-se com estes problemas. Não foi nestes termos em que pensaram.

 

Alás, se alguma coisa a genética fez, foi precisamente confirmar as diferenças genéticas entre os povos. Talvez não sejam suficientemente grandes para inviabilizar a reprodução cruzada (que está no centro da definição de espécie), mas elas estão lá. A investigação moderna confirma a intuição dos esclavagistas: os negros e índios eram mesmo diferentes dos europeus que os conquistaram. Só por uma questão de sorte (ou azar, conforme a perspectiva), é que somos todos homo sapiens sapiens. Mais alguns de milhares de anos (ok, estou a exagerar - but you got the point) e a história poderia ser outra.

 

A razão por que negros, índios e outros grupos passaram a ser vistos como dignos de direitos não tem que ver com algum critério biológico que circunscreve a espécie humana ou delimita o começo e fim da vida. Ela surgiu naturalmente a partir do momento em que nos apercebemos que eles partilhavam connosco todas as características que tornam a nossa vida subjectivamente digna de ser vivida e preservada. Porque sofrem, temem, pensam e amam como nós. Que também partilhem outras coisas, como trechos do ADN, é um pormenor de somenos.  

 

O problema do aborto parece-me precisamente o oposto. Apesar de ser geneticamente semelhante a quem o criou, e de fazer portanto "parte da família", o embrião não tem muito mais que o ligue a gente como eu e o leitor. O critério de classificação é meramente taxonómico; o que conta, o que realmente importa - e que só está potencialmente nos genes - não está lá. O processo pelo qual o Carlos chega à conclusão de que se enganou quando pôs "sim" no boletim é, parece-me, diametralmente oposto àquele que nos levou a concluir que os americanos e africanos também devem ter direitos. 

 

É como a compra de casa. Nas estatísticas macroeconómicas, não é considerada "consumo" e não afecta, por isso, a taxa de poupança das famílias. Não faz mal, desde que as próprias famílias não façam uma leitura literal desta identidade e passem a comprar casa ao desbarato imaginando que estão a aumentar as suas poupanças. As categorias económicas, como as biológicas, são importantes para estruturar o pensamento. Mas não precisamos de ficar presos a elas. 


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7 comentários:
De Nuno Gaspar a 8 de Março de 2012 às 03:00
"O critério de classificação é meramente taxonómico; o que conta, o que realmente importa - e que só está potencialmente nos genes - não está lá".

O que é que importa que não está lá, Priscila? O que é que o seu embrião tinha a menos do que você tem quando está a dormir além do tempo de espera até estar consciente e sentir a alegria de viver?


De Miguel Madeira a 8 de Março de 2012 às 09:50
Actividade mental, p.ex.?

Note-se que, quando eu acordo, continuo a lembrar-me de quase tudo o que fiz ontem e de grande parte dos últimos 38 anos, o que quer dizer que, no fundamental, o meu cérebro continua a funcionar durante o sono - se não fosse assim, todas as memórias e sentimento de existência continuada despareceriam, e eu acordaria como um bebé recem-nascido todos os dias (uma espécie de "Feitiço do Tempo" ao contrário?).


De Nuno Gaspar a 8 de Março de 2012 às 12:30
A memória, neste caso, não importa. Até as galinhas têm. Também uma vítima de AVC amnésica não terá menos direito a viver do que o Miguel Madeira. E isso até tem a ver com classificações biológicas que julgo que era de onde a Priscila se queria afastar. Mais.


De Luís Lavoura a 8 de Março de 2012 às 17:31
se alguma coisa a genética fez, foi precisamente confirmar as diferenças genéticas entre os povos

A Priscila pode dar alguma referência que justifique esta afirmação?

Naturalmente que os negros são geneticamente diferentes dos brancos - por alguma razão produzem mais melanina na pele. Mas, será que as diferenças genéticas vão muito para lá disso? Tenho muitas dúvidas. A minha observação da inteligência, emotividade, etc de pessoas de diferentes raças dá-me a ideia que as diferenças genéticas entre as diferentes raças humanas são, certamente, muito inferiores às diferenças genéticas entre diferentes raças de cães ou entre diferentes estirpes de arroz,


De PR a 8 de Março de 2012 às 22:47
Sim. Mas não tenho aqui à mão (posso enviar-lhe a referência dentro de alguns dias, se tiver mesmo interesse).

Mas o ponto essencial é que mesmo essa diferença genética "trivial" entre raças já foi uma descoberta. Antes do século XX, esse conceito nem sequer existia. (Não havia uma justificação para diferentes fenótipos)


De Luís Lavoura a 9 de Março de 2012 às 09:37
O ponto é que a Priscila sugere no post que as diferenças genéticas entre as raças humanas são tão grandes que, com mais um bocadinho, até seria impossível a reprodução entre raças e se trataria portanto de espécies diferentes.
Ora esta afirmação parece-me completamente abusiva. As diferenças fenotípicas entre raças de cães são muitíssimo maiores do que entre raças humanas e, no entanto, a maior parte dos cães reproduzem-se entre si. O mesmo se diga das diferenças entre espécies de batatas, por exemplo. A espécie humana até será, de todas as espécies, uma das que apresenta menor variabilidade entre raças.
Veja por exemplo as diferenças de estatura. Excetuando casos marginais (pigmeus), os homens adultos de diferentes raças têm variabilidades da ordem dos 30% na estatura. Compare isso com a variabilidade na altura de diferentes espécies de milho, por exemplo.


De chat a 14 de Julho de 2014 às 16:47

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