Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Priscila Rêgo

O LA-C pergunta aqui por que é que os economistas são pessoas egoístas que desejam o mal aos outros. Excelente pergunta. A resposta é que é tramada. Deixem-me dar a minha, assumidamente especulativa. 
As atitudes que temos em relação a terceiros - o tipo de coisa que podemos habitualmente enquadrar algures no espectro de atitudes altruístas/egoístas - raramente são determinadas por questões de princípio. Ninguém empresta dinheiro ao irmão ou ajuda o amigo a estudar para o exame porque está a fazer um bem "abstracto", subproduto de algum sistema ético. A nossa moral é uma coisa muito mais telúrica: ajudamos os familiares, os amigos, quem está próximo, ou quem nos ajudou num passado recente. Não se lê "Utilitarismo", do Stuart Mill, antes de decidir como proceder perante um dilema moral. 
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Talvez esta "moral intuitiva" - uma espécie de heurística que guia o nosso altruísmo - tenha sido "fixada" no nosso hardware cerebral após milhões de anos de pressões selectivas. A longo prazo, esta heurística é mais útil do que a aplicação do princípio de custo/benefício a todos os casos em que temos de decidir se cooperamos ou não. Não só porque permite poupar tempo em circunstâncias em que é óbvio que a cooperação é vantajosa (um amigo de longa data é o caso óbvio) mas, mais importante, porque reduz a incerteza que os outros possam ter em torno do nosso comportamento, funcionando como um lubrificante da cooperação: a melhor forma de parecer-se honesto (e com isso colher os frutos dessa honestidade) é ser-se honesto
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Esta hipótese tem alguma confirmação. Não me passa pela cabeça agradecer um jantar em casa de amigos perguntando quanto lhes custou e predispondo-se a fornecer-lhes uma iguaria do mesmo preço em troca, embora seja óbvio que a relação de amizade sairá prejudicada se eu não retribuir os gestos que eles me dispensam. Então qual é o problema em tornar explícito um acordo que já existe em termos tácitos? Provavelmente, o constrangimento gera-se pelo facto de revelar um calculismo que deveria estar ausente de relações de pura amizade. Quem encara a amizade como um jogo de toma-lá-dá-cá não pode ser confiável. Talvez seja por isso que tenhamos desenvolvido dois registos aparentemente antagónicos de fazer escolhas: as normas de mercado e as normas sociais (ver aqui, por exemplo).
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Ora, a mensagem central - ou pelo menos, a principal mensagem dos cursos introdutórios de economia - é que o egoísmo não só não é incompatível com o bem estar geral, como na verdade o fomenta. Esta descoberta, para além do poderoso efeito soporífero que tem na mente dos jovens estudantes (é sempre o máximo saber algo contra-intuitivo que mais ninguém sabe, como os rapazes do Insurgente mostram diariamente), expõe com clareza os problemas do "altruísmo ingénuo" que adoptamos diariamente, e que a selecção natural nos ensinou a associar a traços de carácter apreciáveis. O economista transcende este altruísmo ingénuo e passa a olhar de forma desconfiada para acções que, se examinadas à lupa, têm resultados oposto ao pretendido. 
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Há vários exemplos. Um clássico é o das prendas de Natal: valorizamos muito oferendas nesta altura do ano, mas a análise económica mostra que há claramente uma perda de utilidade associada a isto, porque quem recebe sabe sempre mais acerca dos seus próprios gostos do que quem dá. A melhor opção é, pura e simplesmente, dar o dinheiro empenhado na prenda. Porém, e como as prendas não se dão - trocam-se -, o melhor mesmo é não dar prendas nunca (pelo menos no caso de pessoas que tenham rendimentos semelhantes) e deixar que seja cada um a gerir a sua própria utilidade, sem custos de transacção. Quem pensa desta forma é um tipo racional, dizem os economistas. E um ser humano miserável, acrescenta o resto da humanidade. 
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O egoísmo é, neste "modelo", um subproduto do ensino (provavelmente correcto) do princípio económico de que, sob determinadas circunstâncias, conduz à maximização do bem estar, e que nesse sentido legitima comportamentos mais egoístas - ou, pelo menos, um cepticismo justificado acerca de algumas formas de altruísmo. Mas a "chave" para perceber o porquê de uma coisa tão banal como esta obter uma reacção tão negativa por parte do resto da população está nas pressões selectivas que fizeram com que o "altruísmo ingénuo" - ajudar por ajudar, independentemente dos resultados - se tornasse uma emoção tão arreigada na nossa psique. O próprio acto de levar ao exame da razão algumas acções altruístas é alvo de censura social, porque historicamente esta foi uma disposição mental que foi penalizada pela selecção natural.   
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Este tipo de raciocínio levanta questões interessantes relacionadas com o proveito de "viver na ignorância". Por exemplo, há quem argumente que a redução da participação em actos eleitorais é resultado directo do facto de nos tornarmos mais racionais - e é difícil pensar, pelo menos, que esta ideia não tem alguma plausibilidade: qualquer pessoa que perca algum tempo a pensar acerca dos números envolvidos conclui que a probabilidade do seu voto resultar nalguma coisa concreta é diminuta (ok, há sempre o "voto por convicção"; mas isso é semelhante ao "altruísmo" por convicção, que é independente dos seus resultados concretos). Outra questão: será que os sociobiólogos que estudam as condições que determinam a escolha de parceiros sexuais têm especiais dificuldades em estabelecer relacionamentos estáveis? À partida, um "querida, só estamos juntos porque estamos no mesmo nível de rendimento, beleza e estatuto social" parece má conversa de circunstância para firmar um casamento.

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44 comentários:
De Anónimo a 3 de Maio de 2012 às 06:50
Uau! Acho que nem o Gary Becker foi tão longe na análise económica da troca de prendas. Bem sei que é má ciência explicar resultados com base em preferências, mas já pensou que o vector de consumo valorizado pelos agentes económicos inclui não apenas bens físicos de consumo e lazer, mas também valores emocionais?

Acho que qualquer economista parte do princípio que a oferta de prendas resulta de uma decisão livre e racional, logo óptima do ponto de vista do decisor. Depois tenta explicar positivamente o fenómeno com base na teoría existente. O modelo simples que explanou no seu texto - microeconómico de livro de texto - não encaixa na realidade. Então o economista chegaria à conclusão que esse modelo deve ser descartado. Outras explicações terão de ser enunciadas. No primeiro parágrafo refiro preferências como explicação, a Priscila também (através de uma racionalização da biologia). Mas haverá certamente muito mais explicações que serão de certo mais do agrado dos economistas - em particular teoristas de jogos. Sem ter qualquer conhecimento do field de game theory, talvez algumas explicações incluam inexistência de certos mercados, benefícios de network, ou signaling effects. Já agora, o Carlo Cippola tinha um modelo económico interessante para explicar a existência de ofertas de materias de construção entre abadias na idade média (um pouco na linha do que refere no início do seu texto).

Por fim parece-me que a sua explicação ficou um pouco ortogonal em relação à questão do Luís.


De Anónimo a 3 de Maio de 2012 às 06:57
E esqueci-me de dizer o seguinte,

Mesmo partindo da premissa do Luís, acho que nem mesmo o mais egoísta e malvado economista chamaria porcos aos economistas.


De PR a 3 de Maio de 2012 às 11:32
"Mesmo partindo da premissa do Luís, acho que nem mesmo o mais egoísta e malvado economista chamaria porcos aos economistas"

Eu usei porco num sentido lato e abrangente :)

"O modelo simples que explanou no seu texto - microeconómico de livro de texto - não encaixa na realidade. "

Acho que a questão não é tão simples quanto isso. Imagine o caso da pessoa que joga na lotaria na esperança de ganhar alguma coisa, algo que é manifestamente improvável.

Podemos rejeitar o paradigma básico do textbook, e assumir que a) há outros factores em jogo (por exemplo, que a incerteza, ou preencher da cruzinha, trazem utilidade intrínseca); b) ou então simplesmente assumir que o agente está a cometer erros de cálculo.

A economia ajuda a clarificar a), mas tem muito pouco a dizer acerca de b). As razões pelas quais cometemos erros sistemáticos, temos percepção enviesada ou abdicamos de recolher informações relevantes para a tomada de decisões são, como as preferências, assumidas como um dado pelo economista. Para perceber por que é que elas existem teremos eventualmente de recorrer a outras ciências (biologia, sociologia, etc.).

Ou seja: as prendas podem ser explicadas por um vector de utilidade mais alargado, que inclua elementos emocionais; mas também podem ser explicadas por erros de avaliação ou de julgamento (e talvez esta hipótese até tenha mais validade noutros âmbitos do altruísmo - como a ideia intuitiva, desmistificada pelo economista, de que a economia é um jogo de soma e portanto o lucro deve ser visto com reservas).

"Por fim parece-me que a sua explicação ficou um pouco ortogonal em relação à questão do Luís."

Sim, talvez um poucochinho (mas não muito, acho). Se tiver tempo, escrevo uma clarificação logo à noite.


De شات صوتي a 17 de Novembro de 2014 às 23:25
ss


De Luís Lavoura a 3 de Maio de 2012 às 15:00
os economistas são pessoas egoístas que desejam o mal aos outros

Isto é um facto comprovado?


De LA-C a 3 de Maio de 2012 às 20:48
Para a semana terei tempo de responder a estas minhas perguntas sobre a malvadez dos economistas e também escrever um post sobre a Segurança Social a explicar por que motivo acho que a Priscila se enganou no que escreveu sobre demografia e Seg Soc.
Há uns tempos valentes, escrevi algo sobre as prendas de Natal, também. Se estiverem interessados, está aqui:
http://aguiarconraria.blogsome.com/2007/12/08/o-natal-pela-lupa-dos-economistas/


De via a 7 de Maio de 2012 às 21:23
ultimamente tenho perguntado o que raio faz da economia uma ciência, sem resposta, claro!


De Miguel Madeira a 7 de Maio de 2012 às 22:14
Em primeiro lugar, temos que definir o que é uma ciência, o que também não é lá muito fácil


De NG a 7 de Maio de 2012 às 23:20
Se na definição de ciência incluirmos algo que tenha a ver com capacidade de predição, deslocamos certamente a economia desse conceito na direcção da literatura.


De PR a 7 de Maio de 2012 às 23:55
O facto de o NG não conhecer as previsões, não quer dizer que elas não existam...


De NG a 8 de Maio de 2012 às 00:08
Não me refiro à existência de previsões (também as faço) mas sim à quantidade de vezes que acertam.


De PR a 8 de Maio de 2012 às 00:32
Tem alguma previsão em concreto em mente? :)


De Sérgio Pinto a 8 de Maio de 2012 às 01:02
Priscila, não resisto a intrometer-me na conversa. :)
Ao que parece, em macro, a maior parte das previsões saídas de modelos DSGE não é grande coisa (http://www.voxeu.org/index.php?q=node/6158).

Um dos blogues que mais gosto de ler (http://noahpinionblog.blogspot.com/), de um recém-PhD em economia, tem vários posts em que aborda a questão das previsões: por exemplo, aqui (http://noahpinionblog.blogspot.com/2011/05/what-i-learned-in-econ-grad-school-part.html), aqui (http://noahpinionblog.blogspot.com/2012/04/weak-defenses-of-lucasprescott-program.html), aqui (http://noahpinionblog.blogspot.com/2012/04/neither-real-nor-business-nor-cycles.html) ou, de forma mais genérica, aqui (http://noahpinionblog.blogspot.com/search?q=forecast).


De PR a 8 de Maio de 2012 às 01:44
Bom, a macro é bastante mais do que DSGE. Mas acho que as críticas da coluna do Vox são mais à capacidade dos modelos de quantificarem os efeitos económico do propriamente de determinarem o seu sentido, e esta é uma diferença crucial entre a crítica académica e a crítica "leiga" (para quem os economistas são quase uma espécie de astrólogos da moeda).

O Noah Smith faz uma afirmação interessante acerca do estádio de desenvolvimento da economia, que supostamente está a milhas de distância da biologia, química e por aí fora. Apesar da afirmação ter um fundo de verdade (a economia É MESMO uma ciência recente), acho que a comparação com a biologia acaba por ser um pouco infeliz, dadas as semelhanças entre as duas disciplinas:

a) a frequente utilização de modelos para explicar fenómenos a posteriori;
b) previsão qualitativa do sentido de determinados efeitos, sem contudo os quantificar com precisão;
c) utilização de modelos para clarificar ideias e apontar caminhos ("avenidas de exploração")
d) alguma dificuldade em levar demasiado a sério os modelos para efeitos de "engenharia prática" (veja o post do Noah Smith acerca do Ben Bernanek, por exemplo)

Mas penso que apesar de todos os excelentes apontamentos do Noah Smith, ele não defende que a economia não seja uma ciência.


De NG a 8 de Maio de 2012 às 01:05
Tenho. Prevejo, por exemplo, que se vamos dar ouvidos à arrogância epistémica de muitos economistas estaremos lixados. E você? Quer explicar, por exemplo, como é que entramos para o Euro deixando o Prof João Ferreira do Amaral a falar sozinho na desgraça que estava à nossa espera?


De PR a 8 de Maio de 2012 às 01:17
"Prevejo, por exemplo, que se vamos dar ouvidos à arrogância epistémica de muitos economistas estaremos lixados."

Claro. Podemos sempre dar ouvidos à humildade epistémica de que o Nuno Gaspar dá provas neste e no anterior comentários :)


De NG a 8 de Maio de 2012 às 01:21
Pois pode. Porque a intuição é uma categoria de conhecimento a que já damos o devido desconto.


De LA-C a 8 de Maio de 2012 às 17:25
A Economia, seja ciência ou não, está cheia de previsões que estão certas. O facto de toda a discussão se centrar, e muito bem, diga-se de passagem, nas previsões que estão erradas pode levar alguém a ficar com a ideia de que se erra em demasia.
Mas, aplicando esse critério, a Sismologia e a Vulcanologia são ciências? Os sismólogos e os vulcanólogos costumam prever os sismos e alertar as populações com quanta antecedência?
Não me parece que seja esse o critério do que é ciência ou não. Pegue no sistema solar de Copérnico. Os navegadores usavam o sistema Ptolomaico para se orientarem porque as previsões eram mais correctas do que as de Copérnico. Quer isso dizer que Copérnico não estava a fazer ciência? Sinceramente, não me parece que possa ser esse o critério.


De NG a 8 de Maio de 2012 às 20:26
Ora bem, ninguém está à espera que os sismólogos prevejam os próximos terramotos. Por isso, os edifícios são construídos a pensar que eles podem ocorrer a qualquer momento. O problema é precisamente o nível de confiança e credibilidade que atribuímos a uns e a outros. Uma sugestão para a primeira aula das vossas disciplinas: http://www.youtube.com/watch?v=a1O6E3JxLuM
São só 3 minutos.


De Anónimo a 8 de Maio de 2012 às 21:08
"Ora bem, ninguém está à espera que os sismólogos prevejam os próximos terramotos"

De onde se extrai, de acordo com o seu critério, que isso não é ciência?

Um pormenor engraçado: o Nuno começou por acusar a economia de não ser ciência por não fazer previsões testáveis, argumentou com o caso de um economista que fez uma previsão acertada (Ferreira do Amaral), entretanto passa para o problema da prevenção e acaba a dar dicas sobre como ensinar uma economia (essa não ciência), citando um professor de economia (!).

Descanse, sente-se, reze um bocadinho, pare para pensar e quando tiver as ideias em ordem volte para comentar. Até lá, é um bocado enfastiante manter um diálogo consigo.




De NG a 9 de Maio de 2012 às 00:42
Ó Anónimo (Luis?),
Reconhecerá que encontrar uma previsão acertada em dezenas (centenas?) de erradas não favorece a metodologia.
É mais razoável dar sugestões para uma aula de economia citando um economista do que um sapateiro ou uma quiromante.
Se a economia, tal como a história, a teologia, ou mesmo a biologia evolutiva puxam mais ao romance de autor ou à lógica analítica apodítica isso não lhes acrescenta ou retira interesse nem razão para não ser estudadas e ensinadas nas escolas. Agora, é prudente reconhecer que a sua autoridade preditiva é escassa e ter muito cuidado com a intenção de quem a invoca.


De LA-C a 9 de Maio de 2012 às 01:08
Se está a sugerir que o anónimo sou eu, não, não sou.


De PR a 9 de Maio de 2012 às 01:26
O comentário foi meu.

E o que eu reconheço é que o Nuno passa manifestamente ao lado das previsões feitas pela economia (apesar de aparentemente até se orgulhar disso, como pomposamente demonstrou quando lhe pedi que enunciasse uma previsão concreta) - demasiado ao lado para se arrogar a sentenças tão retumbantes como "a sua autoridade preditiva é escassa" ou "deslocamos certamente a economia desse conceito na direcção da literatura".

Isto trata-se. Com chá, alguma humildade, boa vontade e dois dedos de conversa. Mas pressupõe uma atitude que não consigo detectar no tom que imprime aos seus comentários. É nesse sentido que se torna aborrecido debater consigo e rebater-lhe os erros um a um. Mesmo que para os leitores seja útil, para mim é enfastiante.


De NG a 9 de Maio de 2012 às 01:39
Obrigado por se ter identificado, Priscila. Não veja hostilidade ou presunção no tom. É só para provocar reacção. Leio os seus posts com fidelidade e atenção e tenho aprendido consigo.


De LA-C a 9 de Maio de 2012 às 01:07
Posso então concluir que de acordo com o seu critério a sismologia não é uma ciência? Ou, pelo contrário, dado que a sismologia é uma ciência, sou obrigado a concluir que a capacidade preditiva não é critério para definir o que é ciência ou não?


De NG a 9 de Maio de 2012 às 01:29
Obrigado.
Parece-me que a sismologia pretende prever certos fenómenos, assume que ainda não o consegue fazer e é razoavelmente objectiva. Parece-me que a economia pretende prever certos fenómenos, muita gente ganha e outra tanta perde dinheiro por julgar que o consegue fazer, e não existe sem a referência aos seus autores. Se é ciência ou não? Chame-lhe o que quiser.


De LA-C a 9 de Maio de 2012 às 01:35
Engano meu, pensava que esta série de comentários pretendia precisamente discutir se Economia é uma ciência ou não. Repare que eu nem defendi que a Economia é uma ciência, já tive mais certezas a esse respeito. Apenas estava mesmo, com o Miguel Madeira, a perguntar qual seria a definição de ciência. Mas se não está interessado nessa discussão, não há problema.
Já cá não estou. Forte abraço.


De trufas a 8 de Maio de 2012 às 18:37
ótimo blog, parabéns...


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