Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
Priscila Rêgo

O Carlos Guimarães Pinto diz que houve um excesso de investimento na educação em Portugal. Esta era uma ideia de que eu partilhava há algum tempo, precisamente com base no mesmo tipo de elementos que ele refere: desemprego entre licenciados, “brain drain” e um desconforto profundo em relação ao “critério do guiness” que parecia ser a única métrica de avaliação da qualidade da política educativa e científica em Portugal (mais doutorados, mais investigadores, mais licenciados, etc.). 

 

Agora, parece-me que as coisas não são bem assim. Há dois elementos que convém relembrar, e algumas justificações auxiliares a dar.

 

 

Dado número um: Portugal tem poucos licenciados. Quer dizer, Portugal tem muitos licenciados relativamente ao que tinha há 15 ou 20 anos, o que causa um efeito de contraste muito forte e permite à classe política encharcar as manchetes dos jornais de números berrantes. Mas tem poucos licenciados relativamente ao que é comum na Europa desenvolvida, que devia ser o nosso benchmark (fonte). Este dado, por si só, não significa necessariamente muita coisa. Mas é um sinal de alerta. 

 

Outro dado interessante, e este mais conclusivo, é o “prémio” salarial que é pago em Portugal aos licenciados. Os estudos disponíveis (referidos aqui, por exemplo- ver página 79) mostram que Portugal é dos países da União Europeia onde a diferença entre os salários de licenciados e não licenciados é mais alta. Os números dizem respeito a 2000, mas o desnível era tão grande na altura que dificilmente terá atingido os níveis europeus entretanto.  

 

Estes estudos são limitados, e podem ser até enganadores se não controlarem devidamente outras variáveis. Pessoalmente, tenho muitas dúvidas de que uma parte deste desnível não seja um mero reflexo de desigualdade de oportunidades e fraca mobilidade social (se os filhos dos ricos têm, por “inércia social”, mais possibilidades de ganhar bons salários e são também os que estudam até mais tarde, os dois elementos estão apenas correlacionados). Mas, como evidência empírica, são mais sólidos e sistemáticos do que algumas notícias da imprensa acerca de salários pagos a engenheiros. 

 

Então e a emigração? E a "Geração à Rasca"?

 

Primeiro, a questão da emigração. Apesar de todo o burburinho em torno da fuga de cérebros, não sei até que ponto é fácil extrair esta conclusão dos dados disponíveis. Os números que eu conheço, que são os que vi na imprensa, parecem ser recolhidos através das embaixadas de cada país, e não identificam concretamente o grau de escolaridade dos emigrantes. Parece-me que estamos a falar de uma realidade ainda bastante mal diagnosticada. 

 

Mas mesmo que a subida do desemprego tenha atingido todas as faixas educativas por igual, também é possível que as alternativas no estrangeiro estejam sobretudo concentradas em áreas de qualificações elevadas (enfermeiros na Alemanha versus trabalhadores da construção civil Espanha, por exemplo). Isto justificaria um enviesamento claro da emigração no sentido de se concentrar mais em licenciados, sem contudo suportar a tese de que há um sobreinvestimento em educação. 

 

Em relação à "Geração à Rasca", já falei um pouco acerca do assunto. O desemprego é mais alto e os salários são mais baixos entre os jovens, mas a diferença relativamente às restantes categorias etárias da população não é hoje significativamente diferente do que era há dez ou 15 anos atrás. Apanharam todos por igual; só que uns tiveram o azar de começar num ponto de partida bastante pior.

 

Este ponto de partida é provavelmente resultado de leis laborais que prejudicam sobretudo os mais jovens (é uma longa história e um longo debate; que não me apetece ter aqui). Mas é precisamente nesta faixa que estão concentrados os licenciados. Portanto, quando olhamos para as estatísticas e vemos salários mais baixos e taxas de desemprego mais altas, o que estamos a ver é, provavelmente, apenas o resultado do factor “idade”, que está altamente correlacionado com o factor “educação”.

 

A histeria em torno da “Geração à Rasca” pode ficar a dever-se a dois efeitos curiosos. O primeiro, que também tem confirmação no paper do Pedro Portugal, é a grande dispersão do “prémio salarial” consoante as áreas científicas escolhidas. O que me parecia há um ano (e agora me parece cada vez mais) é que nos últimos tempos a “cauda” da distribuição de rendimentos dos licenciados engordou razoavelmente - o suficiente para ter massa crítica que chegue para chamar a atenção para a sua situação. Ou seja, há uma franja efectivamente muito mal paga, mas que está longe de representar a maioria dos licenciados.

 

Esta franja é composta sobretudo por licenciados em ciências sociais, artes e comunicação social: pessoas com um acesso desproporcionado aos “media” e que tendem, portanto, a enviesar consideravelmente a imagem que passa para a opinião pública (a respeito disso, vejam este e este post; o primeiro confirmaa hipótese com alguns dados e o segundo parece-me bastante revelador). Acho que era um bom tema de investigação para algum aluno de mestrado de economia. 

 

Finalmente, uma hipótese mais subtil. Na maior parte das profissões não qualificadas, a produtividade não aumenta com a idade, o que faz com que o salário à entrada não seja significativamente diferente do salário auferido por um trabalhador experiente. No caso das profissões qualificadas, por outro lado, existe o fenómeno inverso: o salário tende a subir com a idade e aprendizagem. É possível que isto cause choque os licenciados, que entram num mercado a “preço de saldo” e constatam que os pedreiros ou costureiras ganham já o salário de um trabalhador de meia idade (e, nalguns casos, mais do que os próprios licenciados). Selecção e percepção, portanto.

 

[Créditos: esta hipótese foi proposta pelo Miguel Madeira. Acabei mais tarde por reunir alguns dados que a confirmam perfeitamente – clap, clap – mas não tive tempo para escrever sobre o assunto. Em todo o caso, fica feita a referência]

 


40 comentários:
De jj.amarante a 31 de Maio de 2012 às 10:57
Gostei mais uma vez do seu texto. A grande diferença de remunerações que refere como existente em Portugal pode criar um excesso de procura de licenciaturas para pessoas que não estão verdadeiramente preparadas para a Universidade. Então recorrem a Universidades privadas que fornecem licenciaturas de pouca empregabilidade contra o pagamento de propinas elevadas.

Agradeço a sua paciência para contra-argumentar com os da equipa que acham que nos faltam braços para trabalhar no campo, criadas para servir, costureiras para remendar a roupa que os bons dos ricos deram aos pobrezinhos. É a parte negra de Portugal, que conseguiu a proeza de nos colocacr na posição ímpar na Europa de termos 33% de analfabetos em 1960, conforme refiro aqui: http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2008/07/evoluo-do-analfabetismo-em-portugal.html (curiosamente um dos meus posts mais visitados).



De Carlos G. Pinto a 31 de Maio de 2012 às 15:14
Obrigado pelo comentário, Priscila.

Começo pelo dado de que Portugal tem poucos licenciados em relação ao resto dos países desenvolvidos. Quando escrevi o post já estava na expectativa que alguém viesse com esse dado. Como dizes, e bem, esse dado por si só vale pouco. Mas vale ainda menos para mim na medida em que acredito que muitos países desenvolvidos têm o mesmo problema que Portugal de sobreinvestimento em educação, principalmente os países de Sul da Europa em que há tanta escassez de capital. Isto porque só se pode falar em sobreinvestimento em termos relativos, ou seja, sobreinvestimento em relação ao stock de capital. Países com menor stock de capital, “precisam” de menos licenciados (sendo que a relação não é linear porque a própria existência de licenciados ajuda a atrair investimentos).

O segundo dado, mais importante porque reflecte relações de escassez no mercado, é a diferença salarial. O estudo referido mostra a diferença entre salários ao longo da vida para pessoas com curso universitário e apenas com o ensino secundário. Apesar de concordar com o argumento de que nas profissões qualificadas a produtividade cresce com a experiência, acho que há um factor ainda mais importante: diferenças na escassez relativa intergeracional. O facto de pessoas com 50 anos altamente qualificadas ganharem mais do que pessoas de 50 anos com poucas qualificações terá mais a ver com o facto de nessa geração o rácio pessoas ensino superior/Total ser muito inferior ao actual. Mais, eu acredito que as diferenças salariais dessas pessoas eram semelhantes há 30 anos quando começaram a sua carreira. Hoje um arquitecto em princípio de carreira ganha menos do que um funcionário de limpeza mas há 30 anos não era assim. Ou seja, este gap de salários entre pessoas de 50 anos provavelmente já existia quando tinham 20 anos.


De Miguel Madeira a 1 de Junho de 2012 às 14:18
Já agora, algo que pode ser interessante para esta discussão - uma teoria integrando dois fénomenos aparentemente opostos: muito desemprego/subemprego de licenciados e grandes diferenças salariais entre empregos qualificados e pouco qualificados.

http://stumblingandmumbling.typepad.com/stumbling_and_mumbling/2005/03/inequality_and_.html


De Nuno Gaspar a 1 de Junho de 2012 às 15:01
Muitos licenciados de países de Leste vieram trabalhar para Portugal nos anos 90 desempenhar funções diferentes e abaixo das suas qualificações. Muitos melhoraram a sua condição de vida, o nosso país e o de origem beneficiou. Ter um milhão de desempregados num rectângulo com 500 km de comprimento e não conseguir preencher funções remuneradas ao dobro do salário mínimo é incompreensível.


De Pedro a 1 de Junho de 2012 às 18:01
Não é nada incompreensível. Muitos, como o Nuno Gaspar, simplesmente não quiseram aprender o oficio de costureiro, ou pedreiro.


De NG a 1 de Junho de 2012 às 18:40
Muitos tudo bem. Agora um milhão, num pais que tem o têxtil como um dos poucos sectores exportadores, é demais. Concerteza não precisam, ainda bem. Só que quando, de facto, precisarem mesmo pode já não existir essa oportunidade.


De Pedro a 1 de Junho de 2012 às 20:54
Reformulo, talvez o Nuno perceba melhor: um milhão de pessoas como o Nuno Gaspar não quiseram aprender o ofício de costureiro, pedreiro, etc. Não sei se percebe, mas isto não é um problema dos outros.


De NG a 1 de Junho de 2012 às 21:20
Um milhão é um problema cultural. Julgar que o dinheiro cai do céu e que outros têm obrigação de no-lo entregar em casa. Vai ficando cada vez mais longe a geração que, escaldada do convívio com o racionamento e a fome, soube reconhecer dignidade e sentido de dever ao trabalho que hoje muitos, pelos vistos, vêm apenas como direito e grelha de distinção social, sem sequer aceitar etapas provisórias à meta que determinaram.


De Pedro a 2 de Junho de 2012 às 19:13
Nuno, mas você é pedreiro? Essa conversa já cansa. Você não tem nada a ver com a geração do racionamento e da fome. Você não sabe o que isso é. Essa geração, meu caro, foi a geração que a muito custo, quis que os seus filhos não tivessem a vida dos pais. Você, de certeza, é um de muitos que quis, ou quer, tirar um curso superior e um dos que não quer que os seus filhos tirem um curso profissional de pedreiro. Se está mesmo preocupado com a falta de pedreiros, costureiros, cozedores de sapatos, ou outro trabalho desses, devia contribuir. O resto, é hipocrisia.


De NG a 2 de Junho de 2012 às 21:11
Evidentemente que quero para os meus filhos, como para mim próprio, como para toda a gente, que o seu processo de formação e aprendizagem nunca pare, seja com cursos práticos,treinamentos, especialização, licenciaturas, MBAs, novas licenciaturas, doutoramentos, Zacarias a morrer, Zacarias a aprender, como se dizia na aldeia da minha avó. Mas, sobretudo, que essa formação sirva para reconhecer dignidade em qualquer função honesta, ensine a conviver com o seu carácter cada vez mais provisório e a ajustar as expectativas pessoais às necessidade materiais.


De Pedro a 3 de Junho de 2012 às 12:15
Está bem, resumindo, quer que os seus filhos sejam doutores, não que vão cozer sapatos para felgueiras, ou debruçar-se sobre um máquina de costura no vale do ave, a ganhar o mínimo e ficar com mazelas na coluna. Pode ser que um dia alguém venha aqui meter os seus filhos no tal milhão. A melhor educação que podemos dar aos nossos filhos é não ser arrogante com os outros, não fazer juizos, não cuspir para o ar.


De NG a 3 de Junho de 2012 às 15:38
Arrogância, juízos, cuspir para o ar? Está a falar de quê? Oxalá não sintamos todos saudades do tempo de fartança em que as fábricas paravam por falta de quem estivesse interessado em preencher ofertas de trabalho a pagar o dobro do salário mínimo enquanto o país se endividadava, entre outras coisas, para pagar a centenas de milhar a frustração de não encontrarem o trabalho e a remuneração que correspondesse às suas expectativas. Fossem licenciados ou trabalhadores braçais.


De Pedro a 3 de Junho de 2012 às 17:09
Estou a falar dos juizos de valor que faz sobre aqueles que escolheram outras formações que não as de costureira ou pedreiro, por exemplo. O Nuno ainda não me conseguiu explicar porque não escolheu formar-se nessas áreas. Rodeia a questão. Ainda não entendi como é que acha incompreensível uma coisa para a qual contribuiu.


De NG a 3 de Junho de 2012 às 20:16
Não se trata de fazer juízos de valor sobre as escolhas profissionais de cada um. Trata-se de perceber se uma sociedade é capaz de proporcionar e estimular a adaptação das vocações individuais com as necessidades funcionais que a sustentam e o seu carácter provisório (precário). Nada que mais deseje do que ter um país inteiro formado em História, Sociologia ou Economia a discutir sentado no café como chegamos até aqui.


De Pedro a 3 de Junho de 2012 às 21:38
Nuno, a questão é mais prosaica e você insiste nas frases grandiloquentes. Todos nós tomamos opções na vida que não têm de coincidir com as opções que você acha certas para o pais ou que o país precisa. Parece achar que a opção certa de um milhão de portugueses seria fazer cursos profissionais para servir a indústria, apenas porque alguém se queixou que não encontra costureiras. Isso, segundo parece, não o inclui a si, nem os seus filhos. O mal deste pais é ter um milhão de comentadores a comentar as opções de outro milhão, aqueles que supostamente não contribuem porque não querem trabalho duro, nem têm uma ética do trabalho como tinham os seus avós, o tal sacrifício passado, o racionamento e a fome, que agora são glorificados. Tanto me faz que você comente isso no café, ou neste blog. Não sei o que faz, mas o tal empresário deve achar que o seu tempo teria sido melhor empregue a tirar um curso de costura para ir para lá trabalhar. Desculpe lá, mas não sou um gajo polido e a coisa vai mesmo assim, não tenho pachorra para lições de moral sobre a dignidade e o carácter dos outros, aquele milhão que você não conhece de lado nenhum. Boa sorte para a sua vida, Nuno.


De NG a 3 de Junho de 2012 às 22:52
"Parece achar que a opção certa de um milhão de portugueses seria fazer cursos profissionais para servir a indústria"

Nada disso, Pedro. Acho é que não deixar oportunidades razoáveis por preencher contribuirá para que elas aumentem para todos. O contrário fará com que elas se reduzam.

"não tenho pachorra para lições de moral sobre a dignidade e o carácter dos outros, aquele milhão que você não conhece de lado nenhum"
Ufa, ainda bem. Estava a ficar com a impressão que empurrava esta conversa para o caso pessoal.

Mas note bem: Se o empresário não consegue preencher as suas vagas de costureira (até seria interessante saber do universo das empresários de têxteis e calçado quantos deles não começaram como operários) isso só pode querer dizer uma de duas coisas:
. Ou quem está disponível para preencher a vaga, qualificado ou com interesse em qualificar-se, ainda não tomou conhecimento dela (Fácil de resolver).
. Ou aquilo que é oferecido em troca desse trabalho vale menos do que aquilo que as pessoas conseguem por outros meios (Bom sinal, se durar sempre).
Também lhe desejo boa sorte, Pedro.





De Pedro a 3 de Junho de 2012 às 23:16
Nuno, o caso é pessoal. Não sei se percebeu, mas estava a falar de pessoas, aquelas que você diz que o dinheiro lhes cai do céu e que não têm ética e espírito de dever. Ó Nuno, o "racionamento e a fome"? Homem, isso não dignifica ninguém. Nunca se sirva disso para dar lições de moral. Mas notei o esforço que fez para, fazendo juízos repetidos sobre a ética dos outros, nunca falar do contributo que você mesmo poderia dar, ou ter dado, para resolver esse problema. Suponho que seja uma espécie de reserva moral ;). Ainda vai a tempo de tirar um curso profissional desses. O país precisa é de produzir. E quando fala de pessoas, e do que acha que é a sua ética ou falta dela, esteja também sempre preparado para que o questionem a si.


De NG a 4 de Junho de 2012 às 13:35
O Pedro continua a querer fulanizar a coisa. Se estiver mesmo interessado, estou muito à vontade para partilhar, em particular, consigo, o meu currículo, do trabalho braçal ao académico, profissional e empresarial. Não rejeito nem me envergonho de nenhuma etapa. Nem que tenha de voltar ao ponto de partida. Posso até dizer-lhe que começou mesmo com um curso técnico-profissional. E também estou disponível para ouvir o seu. Mas isso é distracção. Fale de ética, juízos de valor, lições de moral, o que quiser. Dê as voltas que der, é inadmissível, na situação em que o país está, deixar de responder a encomendas por falta de pessoas disponíveis para trabalhar, pagando um salário razoável. E é meio caminho andado para, se não regressar ao tempo do racionamento e da fome, pelo menos nos afastarmos de mais prosperidade e bem-estar para todos.


De Pedro a 4 de Junho de 2012 às 13:55
Não tenho nenhum problema com isso, Nuno. Sou licenciado em história, variante de arqueologia, fiz uns trabalhitos de arqueologia, fui para o ensino onde estive anos a contrato, deixei de ser colocado, andei e ando por call centers, não vou tirar nenhum curso para ir trabalhar para uma fábrica de têxteis, é coisa que não me preocupa as necessidades de contratação do empresário, e ainda que fique desempregado, prefiro receber o subsídio. O Nuno tem muito pudor em falar de si, mas não tem qualquer pudor em falar dos outros. Espanto-me por ainda não ter percebido isso. Foi o Nuno que falou de ética, juízos de valor, lições de moral a propósito de outros, não fui eu. Vamos a isso, então: tem a certeza de que a sua formação profissional é a que melhor serve neste momento os interesses do país? Afinal, não é disto que estamos a falar?


De NG a 4 de Junho de 2012 às 14:39
Acho que não é bem disso, Pedro. O país precisa tanto de arqueólogos, como de veterinários, como é o meu caso, como de economistas ou costureiras. Terá dificuldades é se todos se lembrarem, ao mesmo tempo, de querer fazer a mesma coisa. Felizmente, nunca foi tão fácil ganhar novas competências.


De Pedro a 4 de Junho de 2012 às 16:28
Numa sociedade livre, é impossível planificar a formação profissional da sua população, nem a população se auto-regula dessa forma. A única forma são os incentivos, públicos ou privados. Onde se está bem e onde se paga bem e se dá condições de trabalho, fica-se. Não por acaso, há muita gente do norte, que emigra para Espanha onde vai fazer o mesmo que faria cá, mas melhor pago. O interesse nacional diz-nos que deveriam ficar cá, mas a racionalidade de cada um diz outra coisa. Em Paredes de Coura, há dois ou três anos, abriu uma fábrica de têxteis. Passado algum tempo fechou, porque não tinha empregados suficientes. Preferiam ir para Espanha, porque lá pagavam melhor.

Durante décadas, a maior parte da população dedicou-se à agricultura. Na falta de incentivos, investimento do estado em infra-estruturas de toda a espécie, deixaram-se os campos. Há meia dúzia de anos, o estado começou a tomar atenção ao interior. Já foi tarde e de qualquer forma, pouco se fez. Os camponeses entretanto empurraram os filhos para a cidade, para serem professores ou engenheiros. Os primeiros, encheram as faculdades de letras, os segundos, agora, não têm obras. Não é fácil, para quem é longe, reciclar-se agora e deslocar-se dezenas ou centenas de quilómetros para ir para o vale do ave para uma fábrica têxtil e muitos do que são da terra preferem emigrar. Eu andei anos largos a ensinar em locais longínquos, a ganhar só o suficiente para pagar quarto e comer com parcimónia, sem poupar nenhum e sem vida familiar, e se entretanto não me tivessem acabado com o privilégio de ter esse emprego, teria vindo embora de qualquer maneira. É assim a vida.


De NG a 4 de Junho de 2012 às 18:03
Caro Pedro,
Uma dos aspectos interessantes dos tempos que vivemos é que tudo pode mudar a qualquer momento. Para o pior e para o melhor. Do indivíduo mais desprovido de qualificações à organização mais poderosa, todas as actividades, em maior ou menor, grau, têm um carácter cada vez mais provisório. É util aprendermos a conviver com isso. Tive o privilégio de conviver com o exemplo de pessoas, até familiares, que tiveram um percurso de vida onde alternam períodos de penúria e de fortuna, sem nunca deixar de considerar dignidade no trabalho por dele auferir maior ou menor remuneração mas sempre com ambição de melhorar a sua condição e com a consciência de que ninguém é um condenado (isso até aprendi na catequese mas a dona desta casa, a Priscila, tem fobia a essas origens).
Se em Espanha pagam melhor do que em Portugal, uma maneira de fazer aumentar os salários aqui é mesmo que muita gente vá para lá trabalhar. Com isso o País até ganha. Só perdemos se não preenchermos as oportunidades, num sítio ou noutro, e contarmos com o resultado do trabalho dos outros (não estou, obviamente, a dizer que um desempregado é obrigado a aceitar todas as propostas de trabalho (por enquanto) mas que é difícil entender certas disparidades e que até pode ser gratificante poder fazer muitas coisas diferentes ao longo da nossa vida). Sinceramente, boa sorte.


De Pedro a 5 de Junho de 2012 às 09:34
Nuno, isso foi bonito. E a vida é como os interruptores, ora para cima, ora para baixo, e a prazo estamos todos mortos, etc. Você tem jeito.


De NG a 6 de Junho de 2012 às 13:51
Prefere o tradicional "vão trabalhar, malandros", Pedro?


De Pedro a 6 de Junho de 2012 às 14:49
tanto faz, a utilidade é a mesma.


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De jo a 2 de Junho de 2012 às 18:47
Não compreendo. Se os licenciados tivessem estudado para pedreiros não estavam desempregados.
Porquê se também não há empregos para pedreiros?
Esta conversa toda acerca de licenciados a mais talvez fizesse algum sentido se não houvesse desemprego entre os não licenciados.
As tais famosas empresas exportadoras não estão a contratar.
Sendo o valor acressentado do trabalho de uma pessoa com pouca especialisação necessáriamente pouco, o salário será sempre pequeno.
No fundo estamos a dizer aos futuros trabalhadores: não estudes que nasceste para ser pobre e isso não pode mudar.


De Luís Lavoura a 4 de Junho de 2012 às 11:57
[Portugal] tem poucos licenciados relativamente ao que é comum na Europa desenvolvida, que devia ser o nosso benchmark

Não vejo por que motivos deva a Europa desenvolvida ser o nosso benchmark. Eu sei que é usual cá em Portugal tomar a Europa como benchmark, mas essa não é, parece-me, uma prática correta. Portugal tem que se comparar com países com grau de desenvolvimento económico similar (talvez o México, a Grécia, a África do Sul, o Uruguai, etc), não com países que estão muito mais desenvolvidos.


De Luís Lavoura a 4 de Junho de 2012 às 12:02
Os estudos disponíveis mostram que Portugal é dos países da União Europeia onde a diferença entre os salários de licenciados e não licenciados é mais alta.

Mais uma vez, o erro de comparar Portugal com os países da União Europeia em geral, em vez de o comparar com países - dentro ou fora da União Europeia - que tenham níveis de desenvolvimento similar.

Eu não tenho tempo para ir estudar esses estudos, mas o meu palpite é que boa parte dessa grande diferença salarial se explicará pelos salários pagos na Função Pública, que distinguem enormemente consoante as habilitações académicas. Na Função Pública ganha-se automaticamente mais por se ser licenciado ou mestre, independentemente da real necessidade desse grau académico.

Se fôr esse o caso, então a diferença salarial entre licenciados e não-licenciados não resulta de uma falta de licenciados, mas apenas de um arranjo institucional, ou de uma renda (em linguagem de economistas).

Talvez a Priscila possa esclarecer melhor se isto é assim ou não.


De Luís Lavoura a 4 de Junho de 2012 às 12:12
Num livro recentemente editado em Portugal, o economista Ha-Joon Chang refere que, até há pouco tempo (uma ou duas décadas), a Suíça, apesar de ser um dos países mais industrializados do mundo, também tinha um número de licenciados muito inferior à média europeia. A diferença, ao que parece, era brutal - a Suíça tinha metade dos licenciados do Reino Unido, ou coisa parecida.
Isto mostra como as comprações com outros países podem ser enganadoras. Se, como o Carlos Guimarães Pinto muito corretamente aventou, houver excesso de educação nos outros países, então nós não deveremos procurar imitá-los. O excesso de educação mede-se em relação às efetivas necessidades económicas, não em relação aos diaparates que outros países tenham feito.
Já agora, na edição desta semana do Economist há um artigo muito interessante sobre medicina, no qual se mostra, entre outras coisas, que a Europa Ocidental parece ter um brutal excesso de licenciados em medicina quando comparada com outros países - os quais, aliás, também eles têm provavelmente médicos a mais.


De Pedro a 4 de Junho de 2012 às 13:09
E como é que se propôe combater o "excesso de educação"? Mandar licenciados para "campos de reeducação" e estabelecer quotas para os candidatos?


De Luís Lavoura a 4 de Junho de 2012 às 14:57
Eu não pretendo combatê-lo.
Mas poderia evitar-se prosseguir o desperdício, fazendo, por exemplo, como no cantão de Neuchâtel (Suíça). Nesse cantão, só entra na universidade quem, em testes psicotécnicos realizados para esse fim, demonstre ter aptidão para um curso específico. E mais: o cantão só paga os estudos universitários para esse curso específico para o qual o jovem demonstre ter aptidão - ou seja, não é o jovem quem escolhe o curso que quer tirar, é um estudo psicotécnico quem determina isso.
É devido a medidas como esta que, até há pouco tempo, a Suíça tinha pouquíssimos licenciados - que não lhe faziam falta, veja-se o altíssimo nível de industrialização desse país (entre os dois ou três mais industrializados do mundo).


De Miguel Madeira a 4 de Junho de 2012 às 16:25
No caso especifico dos médicos, tenho certeza que há poucos em Portugal face às necessidades.

Porque digo isso Porque toda a gente diz que é um grupo profissional "com muita força"; normalmente tal costuma ser sinónimo "pouco oferta para a procura"


De Luís Lavoura a 4 de Junho de 2012 às 16:35
Não. Leia o referido artigo da Economist (está online e é à borla!). A força da corporação médica reflete-se, entre outras coisas, no requisito (legal ou consuetudinário) de que muitas intervenções sejam realizadas por um médico quando, de facto, uma pessoa com uma formação de nível (muito) inferior poderia realizá-las. Isto tem como consequência que um médico poderia aumentar brutalmente a sua produtividade, uma vez que só efetuaria as intervenções de maior complexidade.
A título de exemplo, a maior parte das doenças podem ser diagnosticadas, e um tratamento para elas prescrito, por uma pessoa com um nível reduzido de especialização. Outro exemplo, a maior parte dos partos podem ser realizados por parteiras, bastando um médico obstetra para supervisionar um número elevado de partos.
Portanto, não há falta de médicos; o que há, é excesso de utilização de médicos para intervenções que poderiam ser realizadas por pessoal com um menor nível de qualificações.


De تاريخ اليوم a 15 de Fevereiro de 2014 às 06:18
A título de exemplo, a maior parte das doenças podem ser diagnosticadas, e um tratamento para elas prescrito, por uma pessoa com um nível reduzido de especialização. Outro exemplo, a maior parte dos partos podem ser realizados por parteiras, bastando um médico obstetra para supervisionar um número elevado de partos.


De hguhf a 21 de Fevereiro de 2014 às 17:22


Mas mesmo que a subida do desemprego tenha atingido todas as faixas educativas por igual, também é possível que as alternativas no estrangeiro estejam sobretudo concentradas em áreas de qualificações elevadas (enfermeiros na Alemanha versus trabalhadores da construção civil Espanha, por exemplo). Isto justificaria um enviesamento claro da emigração no sentido de se concentrar mais em licenciados, sem contudo suportar a tese de que há um sobreinvestimento em educação.



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