Terça-feira, 17 de Julho de 2012
Priscila Rêgo

O Filipe Faria (d'O Insurgente, como de costume) iniciou um debate (I e II) acerca da "falácia naturalista" e das implicações políticas das descobertas recentes da sociobiologia. O que gostava de comentar não é tanto as suas afirmações acerca da importância que a genética tem para explicar o comportamento humano, mas mais as conclusões que ele extrai destas afirmações. Em particular, o seguinte:.

 

(...) o cancelar de algumas limitações do homem passarão certamente pela evolução da tecnologia genética; o que não implica que neste campo o igualitarismo ético tenha de ser necessariamente aplicado. Porém, no mundo onde habitamos, sem essas tecnologias futuristas e independentemente da moral igualitária, a desigualdade natural é o destino.

 

 

Que o nosso comportamento tem raízes genéticas é mais ou menos indisputável. E penso que o Filipe tem razão quando afirma que este é um facto demasiadas vezes ignorado no debate, seja por desconhecimento ou conveniência. Os estudos empíricos confirmam aquilo que os modelos da selecção natural sugeriam e que a introspecção pessoal (e centenas de anos de boa literatura) já nos levava a desconfiar: o homem tem pulsões naturais para ajudar preferencialmente os familiares, para estabelecer relações de amizade "oportunistas", para procurar poder e riqueza e ganhar 'status' relativamente ao vizinho. O "bom selvagem" corrompido pela cultura é um mito.

 

O Filipe tem razão ao defender que este conhecimento acumulado deve fazer parte de qualquer previsão social consistente, e que não pode ser ignorada pelos policy-makers. Mas não me parece que daquilo que sabemos da "natureza humana" se possa extrair que a "desigualdade natural" é o destino.

 

Se o Filipe quer dizer que a "igualdade absoluta", em que todos têm o mesmo, é impossível, ele está apenas a afirmar uma trivialidade, tão banal como dizer que a "desigualdade absoluta" (em que um tem tudo e os outros não têm nada) também é impossível. Mas aqui nem é preciso usar o seu argumento: a probabilidade de que todos tenham exactamente o mesmo e que não haja flutuações de riqueza ao longo do tempo é tão baixa que até a estatística é melhor argumento do que a biologia.

 

Porém, se ele está a dizer que as sociedades humanas têm de tolerar, por imperativo genético, níveis de desigualdade que muitos à Esquerda consideram inaceitáveis, ele está obviamente errado. A desigualdade varia imenso de país para país, e variou ainda mais ao longo do tempo. Os americanos de hoje não são geneticamente diferentes dos americanos dos anos 70, mas os níveis de desigualdade são consideravelmente mais elevados. A nossa natureza genética é claramente compatível com níveis de desigualdade altos, níveis de desigualdade baixos e níveis de desigualdade assim-assim.

 

Significa isto que o retrato do homem egoísta feito pela sociobiologia (e, já agora, por grande parte da economia) está enganado? Não necessariamente. O homo economicus maximizador da utilidade de Stuart Mill pode ser, ainda assim, um homem que apoia a redistribuição de rendimentos ou políticas do género. O modelo está correcto, mas as suas implicações são menos óbvias do que parecem à primeira vista. Alguns exemplos, tirados da cartola às duas da manhã:

 

a) A desigualdade aumenta a criminalidade. São os próprios ricos que, temendo a insurreição popular, aceitam pacificamente a redistribuição para atenuar tensões latentes. A redistribuição é a arma dos ricos.

 

b) Se a desigualdade é muito grave, e a população pobre muito numerosa, geram-se políticas no sentido da redistribuição "forçada". A redistribuição é a ameaça dos pobres, antes de passarem à acção armada.

 

O "equilíbrio" específico a que cada sociedade vai chegar depende muito de circunstâncias concretas de cada caso. Por exemplo, se os ricos dominam o aparelho militar, a hipótese a) parece improvável. Se os pobres estão fragmentados em castas ou etnias e não têm forma de o organização, a hipótese b) também não é viável. Em todo o caso, há um largo espectro de possibilidades e níveis de desigualdade alcançáveis. E os resultados atingidos têm muito pouco a ver com características genéticas da população em causa.

 

Agora, há dois pontos importantes a referir. O primeiro é que as crenças são um elemento constitutivo da própria sociedade, e que influenciam aquilo que é tolerável ou não. Uma sociedade que sabe que a desigualdade é um dos factores com mais impacto na taxa de criminalidade, por exemplo, tenderá a ser mais tolerante com políticas que, apesar de intrusivas, reduzem a desigualdade.

 

Assim, basta mudar uma crença (curiosidade de geek: as crenças também passam por processos de selecção) para que o "equilíbrio" passe de uma situação de "alta criminalidade/alta desigualdade" para uma situação de "baixa desigualdade/baixa criminalidade". E nem é preciso mexer nos cromossomas (ponto a reter: este exemplo é hipotético; não sugiro que a relação entre as duas variáveis seja fácil de explicar nem que seja fácil manipular uma variável para regular a outra). Outra implicação, esta auto referente: ao escrever o que escreve, o Filipe Faria está, objectivamente, a alterar a estrutura de crenças da sociedade e a encaminhar o seu "equilíbrio" para um ponto diferente. Isto não é uma crítica - este post tem, obviamente, o mesmo efeito.

 

Finalmente, e isto é mais importante: nenhuma política pode ignorar os constrangimentos biológicos do nosso comportamento. Mas este conhecimento deve ser utilizado para percebermos melhor o caminho que temos de percorrer para atingir os fins a que nos propomos e iluminar melhor o campo de escolhas que temos, como sociedade, de fazer. Uma sociedade de "de todos consoante as suas possibilidades e a todos consoante as suas necessidades" (cito de cabeça, poupem-me os preciosismos) não é impossível, mesmo sendo o homem o que é - o que a sociobiologia sugere é que ela só pode ser atingida através de meios que consideramos moralmente repugnantes. E se soubéssemos isto há 80 anos, talvez não tivéssemos de fazer o teste empírico.

 

A nossa herança genética é um fardo que temos de carregar, mas o outcome que ela produz é algo bem mais plástico e maleável, porque depende da interacção que aquela faz com as instituições e crenças do mundo que nos rodeia. E estas já podemos alterar, mesmo sem entrar nos domínios da engenharia genética. Arranjos e acordos diferentes produzem soluções diferentes, uma coisa que sabemos cada vez melhor (e que até já deu um Nobel). Mesmo que a cultura não altere os nossos genes, ela permite que eles expressem o seu potencial de forma diferente, e é isto que faz com que os homens sejam capazes do melhor e do pior.

 

Alguns, quem sabe, talvez até sejam capazes de ler este post até ao fim. 

 


231 comentários:
De PR a 24 de Julho de 2012 às 00:14
Acho que não. Provavelmente, é altamente cultural. (O que não significa que não assente sobre um substrato genético: um escaravelho, por exemplo, dificilmente poderá ter uma crença deste género).


De Mats a 24 de Julho de 2012 às 09:39
Priscila,

Então há comportamentos (cultura) que não têm bases genéticas?


De Ludwig a 24 de Julho de 2012 às 10:09
Mats,

«Então há comportamentos (cultura) que não têm bases genéticas?»

Não. Sem genes não há comportamento nem cultura, por isso todos têm necessariamente de ter bases genéticas.

Mas isso é trivial e pouco informativo. Mais interessante é perguntar se uma diferença de comportamento -- por exemplo, eu aceitar a teoria da evolução e tu assumires que surgiu tudo por milagre -- se deve mais a uma diferença genética do que a uma diferença ambiental entre nós. Penso que é isso que a Priscila quer dizer com "altamente cultural": uma diferença que depende muito mais das diferenças culturais do que das diferenças genéticas.

É claro que mesmo isto depende do conjunto que consideramos. Entre nós os dois uma diferença de crenças pode ser principalmente pela diferença cultural e muito pouco pela diferença genética porque somos geneticamente muito parecidos. Mas entre nós e um golfinho ou avestruz, o efeito das diferenças genéticas será uma fracção maior das diferenças totais nesse atributo.


De Mats a 24 de Julho de 2012 às 11:21
Ludwig,
Sem genes não há comportamento nem cultura, por isso todos têm necessariamente de ter bases genéticas.

Claro, sem genes não existiríamos. Mas a questão não é essa.

Se se vai assumir que todo o nosso comportamento (escolhas, gostos, etc) tem causas genéticas, então temos que incluir mesmo todas as escolhas, gostos, crenças e preferências.

Então a crença de "que o nosso comportamento tem raízes genéticas é mais ou menos indisputável" tem ela mesma raízes genéticas. São os genes da afirmante que a levam a postular essa crença.

Ou essa crença está isenta de condicionalismos e predisposições genéticas?


De Ludwig a 25 de Julho de 2012 às 00:34
Mats,

Todo o nosso comportamento tem causas genéticas no sentido de que todo o nosso comportamento precisa dos nossos genes. Todo o nosso comportamento tem também o Sol como causa porque se o Sol não existisse não estávamos cá para ter comportamento nenhum.

Mas nem todas as diferenças de comportamento entre pessoas se devem a diferenças de genes entre essas pessoas, e nem todos os casos em que fazemos X em vez de Y se devem a termos estes genes em vez dos genes do vizinho do lado.

A herdabilidade não mede a relação causal entre genes e atributos mas sim a correlação estatística entre a variação dos genes e a variação dos atributos numa dada população.

E se não percebes a diferença, azar, a Priscila que te ature :)


De Mats a 25 de Julho de 2012 às 00:48
Ludwig,
Todo o nosso comportamento tem causas genéticas no sentido de que todo o nosso comportamento precisa dos nossos genes.

Já se sabe que sem genes não existiríamos, mas não é esse o ponto da frase da Priscila. Ela fala do comportamento e não das condições biológicas que permitem que o ser humano possa fazer escolhas comportamentais.

Por exemplo, eu preciso de água para nadar mas o facto de eu nadar não provém da água.

A Priscila diz "Que o nosso comportamento tem raízes genéticas é mais ou menos indisputável." Repara que ela diz comportamento e não as condições que permitem que haja possibilidade de fazer escolhas.


De PR a 25 de Julho de 2012 às 01:14
"A Priscila diz "Que o nosso comportamento tem raízes genéticas é mais ou menos indisputável." Repara que ela diz comportamento e não as condições que permitem que haja possibilidade de fazer escolhas."

Hum... Pois é. Mas acho que a formulação do Ludwig retrata convenientemente a minha ideia e clarifica bem essa passagem, que de facto não está muito feliz.


De PR a 25 de Julho de 2012 às 01:22
Ou seja, e sem entrar com "herdabilidades", com "o nosso comportamento tem raízes genéticas" quero dizer que uma parte do nosso comportamento varia muito pouco consoante a cultura, da mesma forma que a nossa reacção à dor é transversal a todas as culturas e (praticamente) não é afectada por estas.

Portanto, e respondendo directamente à tua pergunta, a crença de que o comportamento é largamente explicável (mais ou menos, consoante os casos) não é, em si, uma crença com "raízes genéticas". É menos parecida com uma reacção à dor e mais parecida com a crença de que F=m.a, por exemplo.


De Mats a 25 de Julho de 2012 às 09:50
Priscila,

Então não aceitas a noção de que todo o nosso comportamento tem origens e causas genéticas, incluíndo a crença de que todo o nosso comportamento de origens e causas genéticas?


De PR a 25 de Julho de 2012 às 13:31
Colocado dessa forma, não. Se as crenças fossem "fixadas" pela genética, isso significava que só mudaríamos de crenças quando mudássemos de genes. Colocado desta forma, parece-me óbvio que é uma ideia ridícula.


De Miguel Madeira a 26 de Julho de 2012 às 12:39
Poderiamos era discutir outra coisa - será que certas pessoas são geneticamente mais propensas a acharem que o (ou um dado) comportamente é genético?


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