Morreu um historiador fascista que teve o mérito de conseguir gerar em muita gente o interesse pela história do país e o demérito de o fazer efabulando. Que é melhor não saber do que saber falsidades, como alguém disse, concordo; mas que seja melhor não saber do que saber meias verdades discordo. Hermano Saraiva contou historinhas e pode ter ajudado a fazer muitos nacionalistas de livro fechado, mas também cozinhou em muitos o interesse por procurar saber mais. Isto não é serviço público, mas é qualquer coisa. O que não é nada é lembrá-lo só pelo que foi depois ou antes dos cravos. Fora isto, eu e as minhas amêndoas de caju estamos à espera dos textos de Rui Ramos e Fernando Rosas sobre o senhor. Só para ver se este continua a ser o melhor dos mundos.
historiador fascista?!
Eu a mim parece-me que J.H.S. não era propriamente um historiador (era mais um divulgador da História), muito menos era fascista.
O facto de uma pessoa ter servido como ministro no tempo da Outra Senhora não faz dela fascista.
De
RPR a 23 de Julho de 2012 às 16:53
Quanto ao historiador discordo: Hermano Saraiva publicou livros de divulgação da História de Portugal, um deles livro de bolso, o outro enciclopédico. Se isto não é ser historiador, o que é?
Quanto ao fascista, usei o termo no sentido simplificador com que muitos agregam o nazismo, o fascismo italiano e os regimes militares grego e espanhol. Dizer, nesse sentido, que Hermano Saraiva não era fascista - pelo menos quando governou - será o mesmo que dizer que um ministro de um regime comunista não é comunista. A probabilidade é bem pequena, por se tratar de regimes extremistas. O episódio de Coimbra em 1969 é significativo. Claro que seria mais significativo se ele tivesse dito "eu sou fascista", ou "eu sou salazarista", mas não me parece que isso aconteça muito.
Precisamente, eu queria fazer a distinção entre um historiador - uma pessoa que faz pesquisa em História e obtem resultados novos nessa disciplina - e um divulgador da História - uma pessoa que, não produzindo quaisquer resultados originais bem fundamentados, divulga no entanto a disciplina. Parece-me que J.H.S. foi mais deste último tipo. Por exemplo, ele não se licenciou nem se doutorou em História.
Eu creio que no Estado Novo houve muitos ministros apolíticos. Ainda ontem ouvi na rádio Jaime Nogueira Pinto a dizê-lo - que a maior parte dos ministros eram pessoas de grande competência técnica mas que não se imiscuíam na política, deixavam essa ao cuidado de Salazar. Por exemplo, o célebre ministro Duarte Pacheco, não creio que alguém o fosse descrever como "engenheiro fascista". Neste sentido, não acho adequado apodar J.H.S. de "fascista" assim sem mais, só por ele ter sido ministro de Caetano. Mas confesso que não conheço "o episódio de Coimbra em 1969", talvez o Rui me possa esclarecer do que se tratou.
De
RPR a 23 de Julho de 2012 às 17:14
Confesso que não entendo o porquê de ele não ser considerado historiador: licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela UL e os tais livros de que falo foram escritos por ele (num caso) ou por ele como editor e co-autor (no outro). O que distingue um historiador, se também Hermano Saraiva - como se imagina - teve de consultar fontes e basear-se nelas para fazer os seus textos?
Quanto ao resto eu falava disto: https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Wz1PzZp2gUE. Fascista ou não, sendo simplificador é no entanto simbólico.
Por acaso, numa (a ultima?) entrevista que deu ao Expresso, e que voltou a surgir na altura da sua morte, ele afirmou-se abertamente como salazarista. Alem de achar que nao havia propriamente falta de liberdade no Estado Novo.
De
RPR a 23 de Julho de 2012 às 17:45
Obrigado Sérgio, não sabia. Agora lembrei-me também que ele disse há uns anos a um jornal que a crise estudantil de 1969 foi coisa com pouca importância.
Bem, em abono da verdade, ele tambem diz que o Salazar era antifascista. Mas tambem diz isso precisamente antes de avancar com a 'tese' de que nao havia falta de liberdade.
Entrevista completa aqui: http://downloads.expresso.pt/expressoonline/PDF/JoseHermanoSaraivaentrevista200712.pdf (nas paginas 11-12 para as referencias ao salazarismo de JHS, ao antifascismo de Salazar, e para a tal 'liberdade').
De
RPR a 23 de Julho de 2012 às 17:57
Curioso, tendo Salazar uma fotografia de Mussolini bem visível na sua secretária de trabalho. Vou ler. Obrigado.
De Jorge Guedes a 24 de Julho de 2012 às 02:17
"Quanto ao historiador discordo: Hermano Saraiva publicou livros de divulgação da História de Portugal, um deles livro de bolso, o outro enciclopédico. Se isto não é ser historiador, o que é?"
o que é?... é ser um divulgador da História, o facto de escrevermos uma História de Portugal não faz de nós Historiadores... Historiador é aquele que pega nas fontes e as estuda... posso fazer uma História de Portugal sem fazer interpretação de fontes!....
De Jorge Guedes a 24 de Julho de 2012 às 02:14
Sou professor de História... todos os historiadores efabulam um pouco... Desde sempre admirei o Professor José Hermano Saraiva... Ele não contava historinhas como diz... Porque a História também é feita de "histórias" e todos aqueles que ensinam História e os que fazem História efabulam um pouco... Tenho uma visão muito própria da História e da forma como a devo ensinar... Foi uma grande perda para a História de Portugal a morte do Professor Hermano Saraiva!....
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