Hoje acordei para ir ao dentista e enfiei-me a seguir num carro durante horas a fio, com um termometrozinho a roçar-se constantemente no número trinta e cinco, para chegar àquilo a que muitos, com alguma propriedade, chamam de parvónia. Não estarei seguramente saudável, fresco, airoso e fundamentalmente lúcido. E apenas porque a loucura não raras vezes traz fortuna escolhi este momento (que se segue à entoação do «Hino à Alegria» de Beethoven ali no sino da igreja da aldeia, numa clara demonstração que o nobre povo das Beiras não precisa de guardar moscas num S. Carlos) para me debruçar – ó p’ra mim – sobre o que Seabra, Zita Seabra, veio dizer (ou não) à televisão e ao eterno Crespo, de quem, a propósito (ou não), é editora.
Debrucemo-nos, ora pois. Um elementar facto é que Zita Seabra insinuou que o PCP espiava órgãos públicos portugueses a mando da (ou em colaboração com, como o Politburo luso gostaria de pensar, caso tudo isto não passe de um deliriozinho seabrino) República Democrática Alemã. Não foi em momento algum dito que equipamento era usado ou onde era incorporado. Por isto, e ao contrário do que se possa pensar, as declarações não se desmentem a si próprias. Muito pelo contrário. São particularmente carentes de desenvolvimento por (i) serem proferidas por uma destacada funcionária do partido à época e por (ii) nos levarem a pensar que uma organização política, com representação parlamentar e que chegou a integrar governos durante essa década, estava ao serviço de um outro Estado e pronta a lesar Portugal. Às declarações não faltam, portanto, credibilidade, vinda de quem as profere, e importância, dado o conteúdo.
Seria, por isto, de esperar que o PCP não fizesse pose de diva respondendo que as afirmações da «pessoa» não têm «crédito» nem «merecem comentário». O PCP foi acusado de uma prática gravíssima que coloca em causa a sua imagem pública (afinal, Zita Seabra é conhecida essencialmente por expor, com mais ou menos rigor, historietas internas do partido) e a reacção natural deveria ser um processo judicial. E porque isto não diz apenas respeito ao PCP, mas sim ao país, deveria ser a própria PGR a avançar, caso não haja processos movidos pelas partes. Haja provas de tudo isto e ainda há muita gente viva para mandar para a cadeia. Inclusivamente, quem sabe, a própria Zita, que, a acreditar nas suas declarações, foi cúmplice de traição.
De silly as hell a 10 de Agosto de 2012 às 22:35
espuma, filho, espuma
De manolo a 11 de Agosto de 2012 às 11:19
"chegou a integrar governos durante essa década"
Ena, as coisas que se aprendem por aqui.
Zita Seabra referiu-se aos anos 70. E o PCP integrou governos nos anos 70, Manolo.
De
jpm a 11 de Agosto de 2012 às 14:53
Tiago, eu amanhã vou à TV e digo que o PCP no meu tempo usava o soro da verdade. Espero, por todos os santinhos, que a PGR não decida abrir um inquérito.
Mais a sério, acho um bocado difícil levar esta história a sério. "afinal, Zita Seabra é conhecida essencialmente por expor, com mais ou menos rigor, historietas internas do partido". A ZIta Seabra já deu provas de uma imaginação prodigiosa, ver episódio com Raimundo Narciso. Além do mais, porque é que ela só se lembra destas histórias a conta-gotas? Acrescento ainda, em defesa da Zita Seabra, o que escreveu o Rui Bebiano sobre o que se retirou da entrevista, valia a pena ler (não tenho aqui o link).
Sinceramente, acho que o PCP respondeu bem. O mesmo não digo de muitos dos seus apoiantes em blogs que deram largas ao ódio e por aí fora.
Mas a diferença está no facto de tu, na altura, não seres dirigente do PCP. Eu no outro dia vi um tipo no Metro, com um papelinho, a dizer que o Marcelo Rebelo de Sousa fazia tráfico de crianças, ou lá o que era. Ri-me. Mas se fosse um filho, ou um familiar próximo do MRS a fazer a denúncia, eu já pensaria duas vezes. Por muita alma de romancista que ela possa ter, ela não é uma tipa qualquer que andava lá nas banquinhas da Festa do Avante.
Eu li o artigo do Rui Bebiano. E o Rui Bebiano faz muito bem em desmontar o que os media têm publicado. Ainda assim, é evidente que houve uma insinuação.
De
jpm a 11 de Agosto de 2012 às 15:17
Repara no poder que dás à Zita Seabra com isso. Especialmente se tivermos em conta que ela vive das declarações que faz sobre o PCP. É regular: de cada vez que fala sai uma história nova. E ela já escreveu dois livros de memórias. Não sei, parece-me sempre estranho.
Atenção, eu não dou poder à Zita Seabra. Ela não tem poder nenhum. Ela tem credibilidade no assunto em questão. E devido a essa credibilidade, o que ela diz não devia ser assumido como um delírio televisivo.
De
jpm a 12 de Agosto de 2012 às 18:34
Não consigo encontrar online a notícia do expresso onde o Raimundo Narciso, o José Luís Judas e o Mário Lino (tudo ex-comunistas) dizem que as declarações são disparatadas.
De kropotskaya a 13 de Agosto de 2012 às 13:03
Ela tem credibilidade? A credibilidade não é uma coisa que se tenha, como o sarampo. O que é correto é dizer-se “eu reconheço credibilidade à Zita Seabra”, ou “eu não reconheço credibilidade ao Raimundo Narciso”.
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