Domingo, 2 de Setembro de 2012
Priscila Rêgo

No último post do Tiago, um leitor comenta que o problema (da teoria económica, presume-se) está em assumir sempre a hipótese "com tudo o resto constante. Essa coisa não existe no universo". Esta é uma crítica recorrente, velha e errada à teoria económica, que vale a pena destilar um bocadinho melhor. 

 

 

A cláusula ceteris paribus é vulgarmente apresentada como uma condição das teorias económicas. Se o preço da batata aumenta, então a procura de batata diminui. Se a quantidade de moeda em circulação aumenta, os preços sobem. O ceteris paribus é a restrição que delimita o perímetro de validade destas relações causais. Ou seja, a subida do preço da batata só leva à diminuição da quantidade procurada se tudo o resto permanecer constante.

 

Este perímetro de validade é normal, e praticamente inevitável, em todas as ciências. A mecânica de Newton estabelece relações causais fiáveis para os fenómenos normais do dia-a-dia, mas começa a ter alguns problemas quando nos aproximamos de situações-limite, como velocidades elevadas ou dimensões microscópicas.

 

E aí segmenta-se. Usamos a Relatividade Geral para analisar os fenómenos do muito grande e a Mecânica Quântica para estudar o que acontece no subatómico. São estes os seus domínios de validade, dentro dos quais produzem previsões fiáveis e conhecimento seguro. Mas, como nunca ninguém conheceu um universo em que tudo o resto permanece constante, fica a pensar que o único domínio de validade da economia é a Terra do Nunca.

 

Não é bem assim. Na verdade, o ceteris paribus não é uma hipótese subjacente à teoria. É uma chamada de atenção e um alerta importante para os investigadores. Ele afirma que a relação causal estabelecida (entre preço e procura de um bem, entre quantidade de moeda e inflação), e normalmente apresentada sob a forma de uma curva inclinada, só será constatada empiricamente caso tudo o resto permaneça constante. Em suma, não é uma condição de causalidade - é uma condição de verificação.

 

Parece trivial? Parece. É específico da economia? Nem por sombras. Apesar de a física estabelecer que há uma relação positiva entre Força e Massa (mais M aumenta F), seria estulto presumir que um objecto mais pesado tem necessariamente mais Força do que um mais pequeno. Também há aqui uma cláusula ceteris paribus oculta: mais Massa só implica mais peso se tudo o resto permanecer constante. A teoria diz-nos que aumentar a Massa de um objecto aumenta a sua Força - mas todos sabemos, sem precisar de invocar o ceteris paribus, que isto não implica que os objectos mais pesados são os que têm mais força.

 

Agora, a questão curiosa. Se este princípio está presente em todas as ciências, por que é que só causa problemas na economia?

 

Suponho que a resposta esta na génese das disciplinas. Na física, química e por aí fora, os investigadores podem fazer experiências controladas em que de facto mantêm todos os outros factores inalterados. Se ambiente for devidamente condicionado, a relação que vêem entre as variáveis expressa realmente causalidade.

 

É provável que esta possibilidade de controlar as variáveis externas, que aos poucos se enraizou como hábito, dispense os cientistas das áreas mais "duras" de se estarem constantemente a lembrar de que os seus resultados só são válidos se "tudo o resto permanecer constante". Não precisam: na prática, tudo o resto está mesmo constante. 

 

Outra resposta, que complementa esta, é que há infelizmente um vasto domínio de ciências sociais em que o ceteris paribus não causa problemas porque... pura e simplesmente nunca foi referido. E, como nunca foi referido, também não foi adoptado na prática. O produto desta situação, que não é constante mas é ainda assim demasiado frequente, são teses de doutoramento sem análise estatística e investigações sem controlo de variáveis externas. E um dos seus subprodutos é sem dúvida a coroação da economia como "rainha das ciências sociais", quando na verdade grande parte da economia entronizada (vejam o Freakonomics!) é apenas sociologia feita com ferramentas de economista.

 

E isto acaba por ser deliciosamente irónico. Ao fim e ao cabo, são exactamente aqueles que dizem que no mundo "nada é constante" que acabam por pensar como se de facto tudo fosse constante.

  

 

 

 


Arquivado em:
18 comentários:
De PR a 3 de Setembro de 2012 às 11:31
" O que me parece é que ela reforça a necessidade de se raciocinar em "ceteris paribus" e não o contrário."

Exactamente. Daí o meu "[o ceteris paribus] é uma chamada de atenção e um alerta importante para os investigadores."

(E é óbvio que o "contexto", no sentido lato de "variáveis fora do modelo", afecta qualquer outra ciência. Até a órbita da Terra é afectada pela presença de outros objectos)


De Miguel Martins a 3 de Setembro de 2012 às 13:20
Penso que este texto pode ajudar a esclarecer o ponto, num modo atento à exigência de uma epistemologia inspirada em Karl Popper:
http://www.iask.de/micro/paper/platonism1.pdf


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