Segunda-feira, 7 de Junho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Hayek tinha toda a razão quando dizia que a Social-democracia era um regime disparatado. Precisamente por coisas como as do post anterior. O exemplo dos médicos, e da educação em geral, é quase caricatural, mas há outros mais graves, sempre com a mesma estrutura. Olhemos para o da saúde. O Estado impõe um Serviço Nacional de Saúde para o qual todos têm de, obrigatoriamente, contribuir. Depois, como os recursos não são ilimitados, queira ou não a Constituição, começa-se a impor comportamentos aos cidadãos, de modo a que consumam o menos possível dos serviços públicos de saúde. Começam leis a proibir o consumo de drogas, mesmo as leves, a desincentivar o consumo de tabaco e de bebidas alcoólicas, a proibir o sal no pão e, um dia, a proibir os bolos nas pastelarias. Começam as campanhas, pagas com dinheiros públicos, a doutrinar a populaça comedora de toucinhos e de rissóis para as maravilhas da alface e do iogurte. Tudo porque os cidadãos, defende-se, não têm o direito de ter comportamentos que os levem a gastar mais do que seria a sua «quota», independentemente de a quererem ter ou não. Entramos num círculo vicioso de restrição de liberdades do qual dificilmente se consegue sair por vias pacíficas. Ou então é exagero meu.


20 comentários:
De RPR a 8 de Junho de 2010 às 14:02
O Hayek dizia isso? Mas olha lá:

«Friedrich A. Hayek is generally known as a champion of the free market economy and an outspoken anti-socialist; indeed, Hayek's life was a noble, and mostly lonely struggle against a rising tide of statism and statist ideologies. These facts not withstanding,
however: (1) Hayek's view regarding the role of market and s t a t e cannot systematically be distinguished from that of a modern social democrat; and (2) the immediate reason for Hayek's social democratic views is his contradictory and hence nonsensical definition of "freedom" and "coercion." (Another, fundamental epistemological reason--Hayek's self-contradictory anti-rationalism--will be addressed in Thesis Two.)»

http://mises.org/journals/rae/pdf/R71_3.PDF


De TMR a 8 de Junho de 2010 às 14:37
Li directamente dum texto dele uma crítica violenta à social-democracia. Já foi há algum tempo. Vou só procurar o artigo e envio-o por mail.


De TMR a 8 de Junho de 2010 às 15:00
A crítica do Hayek à social-democracia está num artigo chamado, precisamente, The Great Utopia:

http://www.word-gems.com/wealth.hayek.utopia.html

Abraço


De RPR a 8 de Junho de 2010 às 15:09
Olha que o terreno conceptual é escorregadio. A social-democracia que ele criticava não é a social-democracia de hoje, é a social-democracia pré I e II GM, que queria substituir o capitalismo pelo socialismo.

http://en.wikipedia.org/wiki/Social_democracy

O Road to Serfdom é uma crítica do marxismo. A social-democracia de hoje pouco ou nada tem de Marx.


De TMR a 8 de Junho de 2010 às 15:28
Tenho imensa dificuldade em aceitar esse tipo de cambalhotas, Rui. Faz-me lembrar as discussões sobre livre-arbítrio e determinismo em que tentamos dar a volta redefinindo ambos. Vamos lá ver: a social-democracia é uma ideologia (ou uma derivação de uma ideologia, que se dane) muito clara, tão clara como o liberalismo ou o comunismo. Pode ser uma cagada, mas é muito clara (Jesus, que imagem). Isto levar-nos-ia algum tempo de discussão, mas não sou muito simpático a essas «redefinições».

Se os social-democratas de hoje namoriscam mais o liberalismo, welcome be they, mas isso não faz com que deixem de ter, na base, os princípios socialistas/social-democratas que Hayek atacava.

Aliás, é uma bela demonstração de totalitarismo esta de propor que, ao mesmo tempo, o Estado tenha um monopólio do ensino e obrigue os licenciados a trabalhar na FP para «compensar» os gastos. E falamos de social-democratas «modernos», atenção.


De RPR a 8 de Junho de 2010 às 15:36
Dizer que a social-democracia, como qualquer outro conceito, não evolui é pôr no mesmo saco Kautsky e Keynes, Rawls e Plekhanov, Roosevelt e Lula...


De RPR a 8 de Junho de 2010 às 15:39
A propósito, no caso português se tiveres apenas em conta o conceito e, por causa dele, atirares tudo para o mesmo saco, não poderás distinguir PS e PSD (até o Daniel Oliveira, que adora o Olof Palme, terias de lá meter).


De TMR a 8 de Junho de 2010 às 15:47
Ora, não se mete no mesmo saco Popper, Hayek, Schumpeter, Smith, Tocqueville e Locke, nessa amálgama de «liberais»? Fazer evoluir o conceito quando foram as pessoas que evoluíram é facilitar muito.

A questão é que, por muitas mudanças que haja, os fundamentos são muito próximos. O próprio Hayek parte de uma base de limitação do poder do Estado, de defesa da ordem liberal, mas, por motivos puramente utilitaristas, aceita intervenções em diversas áreas. Continuamos a chamar-lhe liberal, apesar disso. O texto do Hayek, retomo, ataca os fundamentos. Era esse o meu ponto.

E agora quase tiveste graça quando tentaste distinguir o PS e o PSD. Sabes perfeitamente que o que distingue cada partido em cada momento é o seu líder e não a sua base ideológica, que, no PSD, tem mudado de ano a ano e, no PS, se esfumou há coisa de dez anos.


De RPR a 8 de Junho de 2010 às 15:50
Quanto aos conceitos: simplificar a realidade é sempre útil, mas nem por isso a realidade desaparece ;)

«O que distingue cada partido em cada momento é o seu líder e não a sua base ideológica, que, no PSD, tem mudado de ano a ano e, no PS, se esfumou há coisa de dez anos»

Um dia destes esgalho algo sobre isto.


De TMR a 8 de Junho de 2010 às 15:56
O teu primeiro parágrafo foi muito Campos e Cunha. Estás na vida errada.

E, sim, já esgalhavas qualquer coisa sobre alguma coisa... ;D

A ver se combinamos o ajuntamento para a semana que vem.


De Miguel Madeira a 9 de Junho de 2010 às 04:02
Lendo o texto, não me parece uma critica à "social-democracia" (até porque faço um find por "social-" e não dá nada), no sentido de economia mista

Parece-me, sim, uma critica à ideia de conjugar o socialismo (no sentido de posse colectiva dos meios de produção) com a democracia (aliás, cheia de erros teóricos-factuais - como usar Saint-Simon como exemplo dos fundadores do socialismo, ignorando os anti-autoritários Fourier e Proudhon).

Ou seja, parece-me uma critica mais ao Bloco de Esquerda do que ao PS.


De Miguel Madeira a 9 de Junho de 2010 às 04:30
Desenvolvendo melhor - há (pelo menos) duas tradições de "socialismo anti-autoritário": uma que pretende à mesma colectivizar a economia, mas no quadro de um regime democrático (frequentemente com elementos de democracia directa e de autogestão); outra que pretende manter a propriedade privada da maioria dos meios de produção, mas com forte redistribuição fiscal (a linha de Stuart Mill - "socialismo na distribuição, capitalismo na produção").

E acho que não se devem por essas duas correntes no mesmo saco a chamar a tudo "social-democracia", até porque na primeira não estão só Kautsky e Plekhanov: estão tambem Pannekoek, Rosa Luxemburgo, o Trotsky a partir de 1933, George Orwell, etc., gente a que normalmente não se chama "social-democrata".

Pondo as coisas de outra maneira: imagine-se um gráfico tendo como eixo dos Xs a liberdade económica e como eixo dos Ys a liberdade politica; o que Hayek está a argumentar é que o quadrante superior esquerda é impossível, não que é impossível estar a meio no gráfico.


De TMR a 9 de Junho de 2010 às 09:42
No texto, Hayek fala em «democratic socialism», se não estou em erro. Socialismo democrático e social-democracia são uma e a mesma coisa.

A questão essencial é que Hayek atacou os princípios do socialismo democrático do seu tempo, princípios esses que são comuns ao socialismo democrático do nosso tempo. A questão é que os sociais-democratas do nosso tempo, devido principalmente aos erros do passado, adoptam ideias mais liberais no que respeita à economia. No entanto, mantêm o mesmo cepticismo em relação a esta e se houver a possibilidade de a substituir, substituem-na por um regime centralizado. O mercado, digamos, é um mal menor. É por isto que a crítica se mantém actual. Ela não se dirige apenas aos sociais-democratas «BE», mas a todos, porque todos têm os mesmos princípios orientadores.


De RPR a 9 de Junho de 2010 às 13:43
«Socialismo democrático e social-democracia são uma e a mesma coisa.»

Mais uma vez o pântano conceptual: não são necessariamente a mesma coisa. Lenine queria construir na Rússia um socialismo de tipo mais democrático (na sua concepção) - o que depois foi apelidado de comunismo. Kautsky era social-democrata, mas só divergia de Lenine essencialmente na medida em que aceitava o parlamentarismo burguês - já que a ideia de substituir a sociedade burguesa capitalista pela ordem popular era a mesma.

Democracias há muitas (e, curiosamente, os regimes tendem a ser tão mais democráticos quantas menos palavras colocam a seguir a "democracia" - democracia eleitoral, democracia popular, bla bla), sociais-democracias também são várias. Pensadores de tipos de regimes essencialmente sociais-democratas são inúmeros, uns mais e outros menos liberais.


De Tiago Moreira Ramalho a 9 de Junho de 2010 às 14:18
Ó Rui, se tu quiseres levar o argumento ao limite, desfazes as ideologias políticas, porque há sempre, em cada uma, tipos diferentes, abordagens diferentes. Tu dizes-te um libertário de direita e certamente haverá diferenças entre o que tu pensas e o que outros ditos libertários de direita pensam. Agora, alguma coisa há na base que te coloque a ti e aos outros no mesmo bolo. São os princípios orientadores.

Do mesmo modo, os princípios orientadores dos social-democratas (ou trabalhistas, ou amigos-do-socialismo-democrático) são os mesmos, mesmo que haja social-democratas que divirjam em algumas matérias.

Honestamente, nem estou a perceber a nossa discussão lol


De RPR a 9 de Junho de 2010 às 14:55
Não estou a querer desfazer conceitos. Como disse, eles são muito úteis para simplificar e agrupar a realidade. Apenas quero dizer que os conceitos evoluem (social-democracia é um exemplo), têm significados distintos em diferentes bocas (o Chávez não pensa a democracia como, vá, o Obama) e dois conceitos dificilmente significam o mesmo (o PS e o PSD podem ambos ser social-democratas, mas "socialismo" e "social-democracia" - dependendo de quem deles fala - podem ser o mesmo ou algo bem diferente).


De Miguel Madeira a 9 de Junho de 2010 às 16:07
Por exemplo, o TMR acha que os principios orientadores de Anton Pannekoek (um defensor da colectivização da propriedade em regime democrático) são os mesmos de José Sócrates ou, já agora, de Passos Coelho?

Um bocadinho de Pannekoek para quem não conheça:

http://www.marxists.org/archive/pannekoe/1947/workers-councils.htm


De Miguel Madeira a 9 de Junho de 2010 às 16:03
"Socialismo democrático e social-democracia são uma e a mesma coisa."

Não são - repare-se que o site "Leftist Parties of the World" tem uma página para "social-democracia" e outra para "socialismo democrático e comunismo renovado" (alguns partidos aparecem em ambas as páginas, mas muitos não):

http://www.broadleft.org/socdem.htm

http://www.broadleft.org/leftsoc.htm


De PR a 8 de Junho de 2010 às 18:40
Há uns tempos li umas coisas do Hayek. E o "Road to Servdom" também está lá na prateleira para ler, apesar de já conhecer o argumento subjacente.

Penso que o Hayek estava correcto quando escrevia que o controlo dos meios de produção eram uma via directa para o ataque a liberdades fundamentais. Hoje, parece trivial; mas na altura, o modelo soviético ainda era encarado como uma real alternativa. Desse ponto de vista, terá sido um visionário.

Mas a ideia tem limites na sua aplicação. Se assumirmos que o aumento do controlo sobre a economia leva inevitavelmente a mais controlo e a menos liberdade, ficamos com um modelo nas mãos que se limita a dizer que todos caminhamos para a tirania e que é impossível haver um retrocesso.

Isto pode servir para inviabilizar a teoria do Hayek ou, alternativamente, para nos levar a pensar que ele tinha em mente um tipo de social-democracia bastante específico. Da forma como entendo estas coisas, penso que o que se extrai da sua filosofia não é tanto que devemos estar contra todo o controlo sobre a economia, mas que devemos estar tanto mais atentos quanto mais efectivo e abrangente for este controlo.







De Miguel Madeira a 11 de Junho de 2010 às 15:22
Este artigo pode ter alguma importÂncia para a discussão:

http://thefilter.blogs.com/thefilter/2010/06/road-to-serfdom-is-no-1.html


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