Sábado, 12 de Junho de 2010
Bruno Vieira Amaral

E, tal como há quatro anos, o Mundial começou com um bang para provavelmente acabar com um whimper italiano, tal como há quatro anos, ou brasileiro, como há dezasseis, ou alemão, como há vinte. Nos últimos seis campeonatos do mundo, o primeiro grito orgástico (cf. Fernando Gomes) foi africano por três vezes (90, 02 e 10) mas é sempre sol de pouca dura, milho para pardais que não voam para além dos quartos-de-final (Camarões 90 e Senegal 02). Ontem, foi a vez de Tshabalala, cujo nome é tão africano como vuvuzela ou jabulani, um nome que antes de marcar qualquer golo já está em estado de festa e de celebração, inaugurar os dias alegres do Mundial ou, como se diz em renascencês, desfeitear o guardião adversário. O México apresentou-se com dois benjamins (Vela e Giovani), um matusalém vindo das pirâmides aztecas (Cuauhtemoc Blanco) e um guarda-redes que se escapuliu das filmagens de Prison Break. Rafa Márquez, agora com cabelo à homenzinho, marcou um golo à ponta-de-lança mas com um remate que levantou toda a relva que um central merece. À noite, tivemos direito ao confronto triste de dois ex-campeões mundiais:  Uruguai, cujo último triunfo só subsiste nas estatísticas e na memória colectiva brasileira, contra a França, eternamente órfã de Zidane, sempre velha mesmo quando rejuvenescida (Itália e Alemanha também são assim, há qualquer coisa de crepuscular, de fim-de-século, nestas selecções, um decadentismo futebolístico, um pressentimento aristocrático de primeira guerra mundial a caminho, olho para o campo e salvo umas excentricidades multiculturais – como um avançado alemão chamado Cacau – continuo a ver os Tiganas, os Amoros, os Breitners, os Augenthalers, os Tardellis, os Gianinnis de sempre; os grandes europeus atingiram o estatuto de clássicos, repetem-se, indiferentes à recepção crítica). O jogo foi morninho: uns espasmos epilépticos de Ribèry, umas cavalgadas heróicas de Diaby, uns movimentos cerebrais do descerebrado Forlán, uma defesa impossível de Muslera e uma expulsão sul-americana de Lodeiro com lágrimas melodramáticas à saída, como quem diz “já fodi o Mundial”. Zero-a-zero, França com arranque à italiana, Uruguai pronto para zarpar o mais tardar nos oitavos-de-final. E hoje há clássico Argentina-Nigéria.


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