Quarta-feira, 16 de Junho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Num ensaio de 2006, presente nesta recolha de ensaios, que, pelo preço, dez euros, deveria ser comprada por todas as pessoas de bem, o Professor Campos e Cunha propõe uma diferente abordagem ao problema do endividamento nacional. A tese central é a de que o nosso défice comercial não se deve a problemas de competitividade, salários elevados ou o que quer que seja, mas precisamente o contrário. O nosso défice comercial é causado, essencialmente, pelo aumento de transferências da União Europeia e pelo aumento de riqueza devido à baixa das taxas de juro, que levaram a distorções nos preços relativos entre bens transaccionáveis e bens não transaccionáveis e a aumentos de consumo que colocaram a economia a produzir mais destes últimos e, por consequência, menos dos primeiros. Ao consumirmos mais, produzindo, no entanto, menos bens transaccionáveis, criámos um défice comercial considerável. A pressão sobre bens não transaccionáveis, cujos preços são definidos internamente, levou a aumentos de inflação e de salários, como simples ajustamento. O que, na realidade, funcionou como uma apreciação da moeda funcionaria, caso tivéssemos uma.

A tese é interessante. Por um lado, vai completamente contra tudo aquilo que é dito pelos consensuais colunistas e opinadeiros. Por outro, é sustentada com argumentos económicos dificilmente atacáveis. Se o Professor Campos e Cunha estiver correcto, a consequência básica é que todo o discurso repetido sobre competitividade, apoio a empresas, a sectores, etc., resulta em pouco mais que nada para reduzir o défice comercial.


11 comentários:
De pr a 16 de Junho de 2010 às 20:32
O problema que a maioria dos economistas identifica não é exactamente o "défice comercial" (bens transaccionáveis). Penso que esse se tem mantido mais ou menos estável na última década.

O problema é o saldo externo no seu conjunto. Ou seja, balança comercial + balança de serviços + balança de rendimentos + balança de transferências + balança de capital. O valor consolidado deste agregado é que tem vindo a subir imenso na última década, compondo uma dívida que já atinge mais de 100% do PIB.


De PR a 16 de Junho de 2010 às 20:38
A tese do Campos e Cunha parece-me semelhante à do Vítor Bento.

O que me parece mais problemático nessa ideia é que deixa por explicar a razão pela qual houve aumento de preços ("rendas económicas") no sector não transaccionável. Teoricamente, um mercado aberto faria com que as taxas de lucro, salários e por aí fora convergissem para o valor normal ("lucro económico zero" e "lucro financeiro" igual ao do sector transaccionável).






De Tiago Moreira Ramalho a 16 de Junho de 2010 às 20:44
Priscila,

Em primeiro lugar, o que está aqui subentendido como défice comercial inclui, obviamente, Bens e Serviços. A de Rendimentos não me parece preocupante e a balança de Capital só tem relevância no contexto europeu, porque não é indicador de nada.

A questão dos preços dos bens não-transaccionáveis está, precisamente, na pressão sobre eles exercida. Enquanto os preços dos transaccionávies, por sermos uma economia pequena, é «fixado» pelo mercado, os dos não transaccionáveis são endógenos. Ora, com o aumento de riqueza, houve pressão. Uma pressão cada vez maior. A estrutura da economia mudou drasticamente em poucos anos. A terciarização portuguesa é recentíssima.


De Priscila Rêgo a 16 de Junho de 2010 às 21:04
Tiago,

É discutível que a balança de rendimentos tenha um impacto tão marginal. Grosso modo, representa um terço do défice externo. Ou seja, um terço da dívida que contraímos todos os anos é para pagar juros da dívida já contraída.

Quanto à balança de capital, a sua relevância advém do facto de ter influência nas necessidades de financiamento. Se o saldo positivo fosse cinco ou seis vezes maior do que é actualmente, não havia nem défice nem dívida externa, porque seria tudo financiado com essas "transferências" (ou com a sua posterior venda).

Em relação aos transaccionáveis/não transaccionáveis... Bom, é uma questão complicada com muitas pontas soltas (inclusive no modelo mental que faço da situação). Mas nota que o processo descrito pelo Campos e Cunha tem, de facto, o efeito de diminuir a competitividade da economia pelo efeito "inflação". Segundo este processo:

1) Sector não transaccionável tem aumento de rentabilidade.
2) Aumenta salários para atrair mão-de-obra. Os custos acrescidos são compensados pelo aumento das vendas.
3) Sector não transaccionável tem de acompanhar subida salarial para contratar pessoal. Mas, como não tem a mesma subida das vendas (é um "price taker" de uma economia integrada), os lucros caem e as empresas vão encerrando.
4) O sector não transaccionável fica cada vez mais deprimido, mas o crédito externo permite financiar a actividade interna.
5) O défice externo aumenta.

De notar que nada disto teria acontecido com moeda própria. Sem o euro, o escudo desvalorizaria para restaurar a competitividade. O que me leva à conclusão de que a ideia do Campos e Cunha apenas está a introduzir o euro como explicação sem que ninguém dê por isso...


De Tiago Moreira Ramalho a 16 de Junho de 2010 às 21:48
Mas é precisamente isso que o Campos e Cunha faz. Eu disse isso indirectamente quando falei da taxa de juro. A nova moeda deveria ter-nos feito adaptar. Reduzir défices orçamentais, que é a única coisa ao alcance do Estado.

Independentemente da relevância ou irrelevância das componentes para a análise, a questão é que o Campos e Cunha não diz que é mau ter endividamento. E, efectivamente, isso não é de per se uma coisa má. O ponto é a explicação do fenómeno.

Não percebo por que dizes que o sector dos não transaccionáveis é price-taker. Parece-me que é precisamente o oposto. Price-taker é o sector dos transaccionáveis, numa economia pequena como a nossa.


De PR a 16 de Junho de 2010 às 23:23
Sim, é gralha. Claro que queria dizer sector transaccionável.

Quanto à ideia de que ter endividamento não é mau 'per se', concordo. Mas penso que essa ideia é um pouco trivial e também se aplica aos défices orçamentais: se o défice for utilizado para fazer um bom investimento, também não é uma coisa má.

Claro que podemos dizer que os défices orçamentais raramente são utilizados para investimentos produtivos. Mas aí a simetria mantém-se, já que será igualmente difícil sustentar que os investimentos privados da última década tiveram grande retorno... (basta olhar para a eficiência marginal do capital).

Vou ver se escrevo algo acerca disto.


De TMR a 17 de Junho de 2010 às 09:21
Mas aqui regressamos à questão. É que os défices orçamentais (pode haver investimento sem défice, como é óbvio, mas não costuma acontecer) agravam o efeito do aumento de riqueza criado pela baixa das taxas de juro e pelas transferências. Quanto mais défice houver, maior será o défice comercial.


De PR a 17 de Junho de 2010 às 11:34
Mas a relevância disso depende de muitos parâmetros.

Supõe um modelo simples em que o Estado gera défice para investir no sistema educativo. Podem acontecer duas coisas no curto prazo:

a) Se houver capacidade sub-utilizada, toda a procura adicional aumenta a produção, e não os preços. O PIB aumenta.

b) Se não houver capacidade sub-utilizada, a procura aumenta apenas os preços do sector. O PIB não aumenta e o sector não transaccionável fica "inflacionado".

E no longo prazo?

i) Se o investimento não for reprodutivo, Portugal fica com mais défice orçamental mas um PIB maior no primeiro caso, ou um défice orçamental maior e uma economia mais esclerosada no segundo.

ii) Se o investimento for reprodutivo, Portugal fica, no primeiro caso, com um PIB maior em "n" e um PIB muito maior em n+1, n+2, n+... Sem aumentar o défice externo. No segundo caso, pode ficar com um défice externo nominal maior, mas que é por sua vez "diluido" num PIB que será muito maior nos próximos anos.

Claro que este modelo é simples, há efeitos "não keynesianos", etc., etc. Mas só este exemplo já mostra como um défice orçamental não implica necessariamente aumento do défice externo. Numa tabela de dupla entrada, em quatro resultados possíveis apenas um o aumenta.





De TMR a 17 de Junho de 2010 às 11:44
Aumento de procura aumenta sempre os preços. Mesmo que tenhas uma oferta que possa «acomodar» o aumento de procura. Aliás, oferta tens sempre, por um preço. Claro que há diferenças no aumento de preços, dependendo do ponto em que estás - atrás ou à frente do produto potencial - mas o aumento de preços é inevitável.

Quanto ao resto, um défice orçamental implica sempre aumento do défice externo. É simples condição de equilíbrio. As injecções têm de igualar as fugas. No caso presente, por exemplo, as nossas exportações estão a aumentar muito porque, na realidade, há uma muito maior poupança privada, apesar do aumento do défice orçamental.



De PR a 17 de Junho de 2010 às 11:56
Tiago, estás a fazer confusão. Um défice orçamental não implica um défice externo, porque pode ser financiado internamente.

Por exemplo:

Alemanha tem um elevado défice orçamental e uma elevada dívida pública. Mas tem um saldo excedentário com o exterior.

Irlanda tinha, até 2007, um orçamento equilibrado e por vezes até excedentário. Mas acumulava défices externos.

Os únicos "equilíbrios" que tem de haver são os seguintes:

-> Balança de Pagamentos equilibrada: Capital + Corrente = Financeira

-> Défice público = poupança de outro sector qualquer (interno ou externo).

Talvez entendas melhor isto pensando da seguinte forma: os défices públicos do mundo (como um todo) aumentaram imenso em 2009. Mas o défice externo manteve-se exactamente igual: rigorosamente zero (o mundo é uma economia fechada, não transacciona com ninguém).


De TMR a 17 de Junho de 2010 às 12:07
Não estou, não, lol. O défice público pode ser financiado interna ou externamente. Portugal, por exemplo, financia-o externamente, pois a sua poupança privada é muito baixa comparativamente ao investimento. Numa economia, qualquer uma,

(Poupança - Investimento) + (Impostos - Consumo Público) = (Exportações - Importações)

Os dois primeiros resolvem-se cá dentro e o terceiro é resíduo. O nosso problema é que, enquanto o consumo público é maior que os impostos, o investimento também tem sido, até à crise, maior que a poupança. Isso gerou um défice externo.

E com isto, já perdi o sentido da discussão :)


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