Quarta-feira, 7 de Julho de 2010
Priscila Rêgo

O teólogo Santo Anselmo defendeu um dia que era possível provar a existência de Deus sem tirar o rabo do sofá. O argumento ontológico era simples. Imaginemos, para começar, um Deus perfeito: alguém que é a entidade máxima que o nosso pensament é capaz de conceber. Este ser, mesmo que não tenha existência física, terá pelo menos existência mental (afinal de contas, estamos a pensá-lo). Porém, é possível imaginar um Deus ainda mais perfeito: um Deus exactamente semelhante ao anterior mas que tenha existência concreta e não apenas mental. Esta proposição entra em contradição com a primeira premissa, o que nos obriga a rejeitar esta última. Ou seja, existe necessariamente esse ser perfeito com existência concreta.

 

Na homilia desta terça-feira, João Rodrigues faz um exercício semelhante, pedindo um “Estado estratega”. Não lhe interessa que o Estado, tal como o conhecemos, seja um paquiderme balofo a quem poucos confiariam o seu património. Ele começa por definir o Estado como uma entidade bondosa e daí se extrai que, por definição, é isso que ele será. Nestas coisas, há que manter a mente aberta: o Estado pode não conseguir responder com letra legível a um requerimento da UTAO, mas talvez tenha alguma vantagem comparativa na gestão da economia e na identificação dos interesses nacionais, particularmente daqueles que mais ninguém identifica.

 

Não me interpretem mal. Eu também quero um “Estado estratega”. E um Estado inteligente, sensato, cuidadoso, limpo, asseado, bondoso e clarividente. E se além disto também cozer batatas, porreiro. Mas é exactamente por ele não ser nada disto que defendo que ele deva ser confinado a uma posição em que tenha o mínimo de oportunidades de revelar as qualidades pelas quais de facto se notabiliza: nepotismo, laxismo e incompetência. Ao contrário do que pensava Anselmo, às vezes vale a pena abrir os olhos antes de continuar com a fantasia.


1 comentário:
De Tiago Moreira Ramalho a 7 de Julho de 2010 às 23:58
Ó Priscila, acautela-te, que o argumento ontológico, apesar de pouco sólido, dado que há por ali premissas duvidosas, tem uma estrutura muito mais resistente que o argumento, digamos, rodriguiano. Claro que do ponto de vista da forma, isto ficou bem bonitinho.


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