Quinta-feira, 8 de Julho de 2010
Rui Passos Rocha

Ontem esgadanhei qualquer coisa sobre os modelos políticos predominantes na Europa privilegiarem a social-democracia, uma síntese do essencial das identidades socialista e neoliberal: os meios de produção e de distribuição ficam na mão dos privados, que são regulados até ao tutano pelo Estado. Porquê? Porque os engravatadinhos da direita eram gente de uma raça que equiparava prosperidade ao volume de notas amontoadas no bolso; e porque os pés-rapados da esquerda – frustrados por não conseguirem que o povo percebesse a superioridade moral da sua ideologia e, consequentemente, trabalhasse 10 vezes mais por vontade própria – se refugiaram na defesa da igualdade redistributiva e dos direitos individuais conquistados com tanto sangue vertido, como hoje se pode ler na Visão pela magnânima pena de Boaventura Sousa Santos.

 

Fez-se a síntese e daí resultou – dizem, e eu, que sou fundamentalmente pouco dado a pensar, não contradigo – o melhor de dois mundos: uma direita e uma esquerda preocupadas moderadamente com os pobrezinhos – e tanto mais preocupadas quanto mais longe eles estiverem da vistinha. Mas não tenhamos dúvidas: no dia em que a esquerda conseguir imaginar um modo de produção eficaz de riqueza (assim a modos que algo mais realista do que o plano soviético de um maior crescimento económico do que o americano) o futuro da direita, essa cambada de proto-judeus-avarentos, será pouco risonho, porque nem a direita, concentrada na igualdade de oportunidades, rejeita a superioridade moral do valor esquerdista da igualdade de resultados – porque, no limite, se a mera igualdade de oportunidades gerar alguma pobreza extrema a própria direita quererá temperá-la com alguma igualdade de resultados.

 

Tudo isto tem ancoragem empírica, minha gente: quanto mais instruídos, mais à esquerda os eleitores se posicionam em relação ao que as suas posições em relação a temas concretos fariam supor. E (já agora, ó Tiago) as mulheres – ou, na bela versão de Paco Underhill, a fêmea das espécies –, essas bestas, não só são mais esquerdistas (isso de ter valores é pra meninas) como têm mais a ganhar com Estados mais gordos.


8 comentários:
De Tiago Moreira Ramalho a 8 de Julho de 2010 às 14:34
«It finds, for example, the more educated on average believe themselves to be more left wing than their
actual beliefs on a substantive issue might suggest.»

Fashion, my dear. Ser de esquerda, neste tempo que é o nosso, é giro e as elites intelectuais querem ser giras, mesmo que não sejam realmente de esquerda. E só li o abstract.


De Tiago Moreira Ramalho a 8 de Julho de 2010 às 14:39
E não concordo contigo quando dizes que os pilares morais da esquerda são mais fortes que os da direita. A ideia de que a igualdade é um valor em si deixa muito a desejar. Por uma série de motivos, sendo o primeiro, o primeiro que agora me lembrei, o simples facto de nem todos darem o mesmo valor às mesmas coisas, pelo que uma República pautada pela igualdade na dimensão da casa, na dimensão do carro, na dimensão da conta bancária e nas outras dimensões todas, ao contrário do que se possa pensar, é uma sociedade profundamente desigual. Claro que nós assumimos sempre que os outros são como nós, pelo que este tipo de coisas nem nos passa pela mioleirinha.


De Rui Passos Rocha a 8 de Julho de 2010 às 14:43
O que quero dizer quando falo da superioridade dos valores da esquerda está espelhado aqui: «no limite, se a mera igualdade de oportunidades gerar alguma pobreza extrema a própria direita quererá temperá-la com alguma igualdade de resultados. Nenhum governo, de esquerda ou direita, consegue ser completamente insensível à pobreza extrema, tenta sempre diminuí-la, nem que seja com incentivos ao trabalho. A igualdade material é mais poderosa do que a igualdade de oportunidades, enquanto valor.


De Tiago Moreira Ramalho a 8 de Julho de 2010 às 14:47
Tenho de pensar no assunto. Acho que o problema na nossa discussão é que tu tens Rawls a mais e eu tenho Rawls a menos lol


De Rui Passos Rocha a 8 de Julho de 2010 às 14:52
Isto não é Rawls. O Rawls fala de uma espécie de posição de equilíbrio entre as duas igualdades, que seria encontrada através de um "véu de ignorância". Eu aqui falo apenas de mínimos: a direita não pode passar sem aceitar um mínimo de assistência social, i.e., de igualdade material; já a esquerda, enquanto não encontra um mecanismo de produção eficaz, não pode passar sem a árvore das patacas da direita, que produz sempre desigualdade material.


De Miguel Madeira a 9 de Julho de 2010 às 23:22
"Tudo isto tem ancoragem empírica, minha gente: quanto mais instruídos, mais à esquerda os eleitores se posicionam em relação ao que as suas posições em relação a temas concretos fariam supor. "

Há uns dias atrás dei uma olhada nesse paper e fiquei com a ideia que o único tema concreto analisado tinha sido se a distribuição do rendimento deveria ser igualitária ou desigualitária, e que tinham ficado de fora todas os temas como imigração, casamento gay, politica externa, pena de morte, aborto, etc. etc.

Não poderão ser esses temas (que me parece terem sido ignorados no estudo, se o li bem) que estão a puxar os eleitores instruidos para a esquerda na sua auto-classificação final?

Já agora, sou só eu que acha que o paper poderia se chamar "Who is right-wing, and who just thinks they are?", e concluir de que os eleitores pouco instruídos tendem a autoposicionar-se mais à direita do que realmente defendem em temas concretos? Afinal, acho que é exactamente o que eles concluíram, apenas visto de outra perspectiva.

Mas provavelmente abordar as contradições da "esquerda caviar"/"limousine liberals" soa mais moderno do que abordar a "falsa consciência das camadas do proletariado levado pelo obscurantismo a defender posições politicas contraditórias com os seus desejos concretos".


De Miguel Madeira a 9 de Julho de 2010 às 23:25
"E (já agora, ó Tiago) as mulheres – ou, na bela versão de Paco Underhill, a fêmea das espécies –, essas bestas, não só são mais esquerdistas (isso de ter valores é pra meninas)"

Creio que a maior parte dos estudos feitos na Europa indicam exactamente o contrário - que as mulheres tendem para a direita (embora nalguns desses estudos esse efeito desapareça quando controlado pela idade - i.e., o direitismo feminino será apenas um subproduto da maior longevidade feminina)


De Miguel Madeira a 9 de Julho de 2010 às 23:39
Um estudo britânico sobre o assunto:

http://www.ipsos-mori.com/researchpublications/publications/publication.aspx?oItemId=43


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

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Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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