Terça-feira, 13 de Julho de 2010
Bruno Vieira Amaral

Era tudo complexo e azul, árvore marítima, crustáceo, celofane e orgulho. A concha afirmava, em leque, que aquele era um dia de praia. Começou mal, angústia e motor, o carro não pegava, a família, mulher, dois filhos e impaciência. Orlando prometera. No último Verão quebrara a promessa, usou uma desculpa melancólica, um súbito horror a multidões, o que entristeceu os filhos, a pele transparente. E agora, no dia em que ele capitulara, o carro não pegava. Orlando ignorava mecânica, só lhe restava esperar, absorto. Podia sair do carro, abri-lo, espreitar as peças, as ligações todas que não entendia, mas ele não queria dar esperanças. Dependia tudo da vontade do carro. Ele, pai, inocente, isento de culpas. Vamos tentar mais uma vez. E o carro pegou. Gritos, alegria, exasperação feminina. Orlando retrovisou os filhos, os gritos, a alegria. Não tinha o direito de lhes negar a exibição franca de estupidez. Foi então que, pela primeira vez, avistou o leopardo. Estava mesmo atrás do carro. Orlando esperou. O leopardo saltou para cima da árvore e a família seguiu, felina, para a praia. Cheia, cheia. As crianças saíram do carro e correram para a areia. Irene olhou para o marido. Ele procurava o leopardo. Rodeou o carro. Nada. Até que o viu, a caminhar na areia, perto dos filhos. Olhou para a mulher, imperturbável, sangue frio. Chamou os filhos, cuidado, mas eles já tiravam a roupa, sem medo, o leopardo tão perto. Quero lá saber. Tirou os sacos da mala do carro, chapéu-de-sol, olhou outra vez, os miúdos a correr para a água, o grande felino deitado, a bocejar sol, a vontade de chamar os filhos, arrumar as coisas, voltar para casa. A mulher desceu. A submissão pôde mais do que o medo e Orlando avançou, deu tempo para que o leopardo desaparecesse, fantasma, mas o leopardo permanecia, estátua, e Orlando, líquido, suava. Irene. Leva as coisas. Preciso de um café. Irene já nem estranhava. Foi ter com os filhos e, Orlando bem a viu, sentou-se ao lado do leopardo, acariciou-o, fêmea, lânguida. Era tudo complexo e azul. Havia um café ali perto, mas Orlando continuou. Centenas de pessoas. Toalhas, o odor enjoativo a creme, sal. Sempre em frente. Orlando podia caminhar o dia todo que não chegaria ao fim. Uma extensão interminável de areia semeada de crianças, uma avioneta a rasar a água, tão azul, tudo tão azul e outra vez o leopardo, à beira-mar, Orlando à distância. Um belo animal, pensou, sem dúvida, real, soberano, desviava-se das pessoas com uma elegância racional, milimétrica, infalível. Orlando tirou os sapatos, depois a camisola, as calças, finalmente. Pousou tudo e continuou a andar, mas já não via o leopardo. Olhou para trás, a mulher e os filhos, nevoeiro, nada. Prosseguiu. Pessoas a rarear, mais mar, mais céu e o leopardo, agora à frente, uns vinte passos, a indicar-lhe o caminho, as pegadas desapareciam. Estava longe, longe. Correu atrás do leopardo. Sabia, porém, que nunca o iria alcançar, por muito que corresse. Exausto. Caiu de costas, o céu. Fechou os olhos, o leopardo. As mãos enterraram-se na areia, uma concha, em leque, aquele era um dia de praia. Azul.


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