Quinta-feira, 15 de Julho de 2010
Rui Passos Rocha

Em 1975 (lembro-me como se fosse ontem), no auge do verão quente, depois de Kissinger o apelidar de Kerensky português, Soares disse-lhe que não queria ser tal coisa, ao que Kissinger respondeu que nem Kerensky quis ser Kerensky. No ano seguinte, o original Freitas do Amaral e o saudoso Adelino Amaro da Costa, parceiros numa futura Aliança Democrática, disseram-lhe que, não tendo sido Kerensky em 1975, convinha que não fosse Allende em 1976. Soares foi Soares: um misto de Palme no ideário e a Europa connosco no discurso, mantendo o socialismo na gaveta: rejeitou a reforma agrária, aproximou-se da direita, coligou-se com Mota Pinto e foi o amigo especial de Freitas durante meia dúzia de meses. Não funcionou, para gáudio de Eanes. Agora, tantos anos depois e com o regime consolidado e centrado no PS e no PSD, Freitas vê a necessidade de um novo Bloco Central – ou, caso isso não resulte, uma AD com Portas – para superar a crise económica. Soares, como sempre mais pragmático, diz que não é necessário nem sequer possível um acordo e que uma minoria responsável pode governar. Em 1978, a AD* que para Soares foi um acordo de conveniência foi para o inebriado Freitas o resultado de uma amizade especial. Em 2010, a AD que para Soares seria inconveniente é para Freitas uma solução perfeitamente alcançável num contexto quase catastrófico. O primeiro foi três vezes primeiro-ministro e uma vez Presidente da República; o segundo nem uma coisa nem a outra. Por vezes o mundo é justo.

 

* O Miguel Madeira, que me enviou um e-mail sobre isto, tem razão: a coligação de 1978 entre PS e CDS não foi chamada AD.


5 comentários:
De alexandre carvalho da silveira a 17 de Julho de 2010 às 13:48
Para quem se lembra de 1975 como se fosse ontem, chamar AD à efemera coligação PS/CDS, não está mal.
Realmente o mundo é injusto, porque se Freitas do Amaral tivesse sido eleito Presidente da Republica no lugar de Soares em 1986, talvez Portugal fosse hoje um país melhor.
Soares pôs sempre os interesses dele à frente dos interesses do país, e no segundo mandato portou-se como o chefe da oposição, como se um governo eleito por mais de 50% dos votos, fosse um bando de malfeitores.
Apesar dos encomios de que é alvo, como chamarem-lhe o pai da democracia, o que não é verdade, porque em 74, 75, e 76, e até aos anos 80 na destruição da reforma agraria, quem enfrentou o PCP e a UDP nas ruas e nos campos foi a direita.
Na minha opinião Mário Soares há-de ficar no caixote do lixo da História de Portugal.


De RPR a 17 de Julho de 2010 às 14:15
Não é verdade pelo menos o que diz sobre a reforma agrária. Foi precisamente a irredutibilidade do PCP quanto
à reforma agrária que fez com que Soares sondasse, em seguida, o PPD e depois o CDS para se coligar em 1978.


De alexandre carvalho da silveira a 17 de Julho de 2010 às 15:09
Em relação à reforma agraria, não estou a falar de politica, e reconheço até o mérito de Antonio Barreto em fazer uma lei que começou a desmantelar a referida "conquista de Abril", o que não foi facil até pela oposição dos militares, mesmo alguns do Grupo dos Nove.
Estou a falar da execução dessa lei no terreno, as chamadas desocupações ou entregas. Pessoalmente participei em bastantes, e nunca lá vi ninguem do PS, e muito menos o Mario Soares. Foi a direita com a ajuda da GNR, a quem a Democracia Portuguesa muito deve, que levaram a cabo esse trabalho. Isso é indiscutivel.


De RPR a 17 de Julho de 2010 às 15:22
Agradeço-lhe este apontamento. Não tinha a noção disso. A propósito, quando escrevi que me lembro "como se fosse ontem" de 1975 era treta, porque nasci em 1986.


De Miguel Madeira a 18 de Julho de 2010 às 20:39
"Estou a falar da execução dessa lei no terreno, as chamadas desocupações ou entregas. Pessoalmente participei em bastantes, e nunca lá vi ninguem do PS, e muito menos o Mario Soares. Foi a direita com a ajuda da GNR,"

Hum, supostamente quem deveria fazer as "desocupações" era mesmo a GNR, não grupos de civis, não?

De qualquer forma, penso que o governo sob o qual a GNR matou trabalhadores rurais alentejanos nessas desocupações foi o de... Maria de Lurdes Pintassilgo (ou seja, não foi o PS nem a direita).


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