Segunda-feira, 26 de Julho de 2010
Rui Passos Rocha

Sintonizado com a máxima de Maquiavel, Salazar preferiu ser temido a ser amado. Não só a militarização da mocidade, herdada do Duce, mas também a retórica da situação não foram personalistas; foram nacionalistas. O mais foi provincianismo e repressão preemptiva. O Estado Novo foi, por isso, "um mal menor que se suporta, mas a que não se adere", como lhe disse Marcello Caetano em 1948. Consequentemente, a democratização não abarcou uma terapia de choque colectiva. Expurgado o poder da meia dúzia de comandantes da ditadura, o povo não precisou de sacudir o capote e pôde politizar-se em liberdade. Não foi assim na Itália e na Alemanha, onde a politização em ditadura foi extrema, o próprio pensamento foi colectivizado e, no caso alemão, o advento da democracia implicou a assunção da culpa colectiva. Talvez por isso nas sondagens os portugueses pareçam menos interessados do que os outros na democracia, enquanto regime garantista e processual, valorizando sobretudo os resultados da governação; e talvez isso também explique em parte a nossa aparentemente maior apatia e a menor capacidade de mobilização política.


7 comentários:
De JVA a 27 de Julho de 2010 às 14:30
A ser assim, o qualificativo “fascista”, sugerido pelo título do post, é inexacto. É a velha história: o fascismo é uma ideologia totalitária que, como todas, repousa no anti-individualismo, na sujeição incondicional do indivíduo ao colectivo; e em que a integração daquele neste último se concretiza através da adesão a organizações de massas. Ora, de duas, uma: ou se considera que a Mocidade Portuguesa e outros penduricalhos congéneres visavam a aglutinação das massas a um projecto político e ideológico do Estado Novo; ou se considera o contrário – e, se no primeiro caso o apodo “fascista” é adequado, já no segundo é inexacto. Se, como o RPR postula, a sociedade do Estado Novo era apolítica, está a enfiar-se no mesmo saco regimes fascistas e regimes autoritários; e, assim, comparar o fascismo com o salazarismo (só porque ambos são autoritários) faz tanto sentido quanto compará-lo com o velho absolutismo que precedeu o advento liberal – ou mesmo com o Leviathan hobbesiano, que apregoava o Estado autoritário para preservar a esfera individual, e não para a suprimir.

Isto vinha a propósito do quê? Co'a breca, já não me lembro. Ah, sim: que um Estado autoritário não é necessariamente um Estado fascista. E eu, esclareça-se, até sou insuspeito de empatias salazaristas e abomino visceralmente aqueles quarenta e oito anos de modorra e estupidez.


De JVA a 27 de Julho de 2010 às 14:34
Se bem que, a despeito destas destrinças “ideológicas”, já houve quem ancorasse a defesa do apodo “fascista” naquele hipotético colaboracionismo com Hitler, naquela trapalhada do “ouro nazi”, como prova não-sei-do-quê-não-sei-que-mais de afinidades com o nazismo - mas mesmo isso é dúbio. Ao longo de toda a Segunda Guerra, Portugal fez o que sempre fizera nos conflitos dos últimos séculos (ressalva feita à Guerra civil espanhola): oscilou ao sabor do vento e das circunstâncias, e foi-se aproximando de um bloco e de outro consoante os interesses momentâneos e a evolução do conflito – como já fizera na Primeira Grande Guerra, na crise do Transvaal e das guerras anglo-boers, etc., etc., etc. No fundo, no fundo, ou vergamos a espinha muito facilmente, ou somos uns porreiraços muito cândidos que nos damos bem com toda a gente ;-)))


De RPR a 28 de Julho de 2010 às 00:01
Há fascismos e fascismos, daí eu ter usado a palavra no plural. Desde logo a palavra "fascismo" para englobar uma série de regimes ditatoriais não comunistas tem necessariamente de ter vários subtipos, já que alguns foram revolucionários, outros reaccionários, uns religiosos, outros anti-religiosos, uns judaico-cristãos, outros nem por isso. Há até um suposto islamofascismo. Mas o uso do conceito, ao coarctar parte da realidade, também simplifica bastante o raciocínio - o que é mau em certos aspectos e bom noutros. O salazarismo terá sido um fascismo também por ter tido a Mocidade, mas não foi como o fascismo italiano porque Mussolini procurou ser "temido" e "amado" ao mesmo tempo, enquanto Salazar apenas quis ser "temido". Era essa a ideia principal deste texto.


De JVA a 28 de Julho de 2010 às 18:58
Certo, mas foi justamente esse ponto que eu comecei por rebater. Se considerarmos o salazarismo uma estirpe do “fascismo”, então não podemos classificar a sociedade que o salazarismo engendrou como “apolítica”. Todas as sociedades de regimes totalitários são, por definição, altamente politizadas; e caracterizam-se pela aglutinação do povo a um projecto ideológico e político, que se concretiza através da incorporação coerciva em organizações de massas (organizações de juventude, partidos únicos, etc.). Ora, se virmos as coisas por este prisma (e admito que o RPR possa vê-las de outro, daí ter entabulado esta conversa), parece-me uma contradição afirmar que a sociedade salazarista era apolítica ao mesmo tempo que a rotula de fascista - e, portanto, totalitária: porque todas as sociedades que germinam em regimes totalitários são, por definição, altamente politizadas.

É precisamente por a sociedade do Estado Novo ser despolitizada que muitos historiadores (V. Pulido Valente, Braga da Cruz) recusam classificá-la como “fascista”. E uma das provas de que o Estado Novo arquitectou uma sociedade despolitizada reside justamente na não obrigatoriedade de as criaturas da época se filiarem no partido único, como sucedia um pouco nos regimes totalitários. Quanto à Mocidade Portuguesa, parece-me que se exagera o papel que ela teve. No fundo, foi um trambolho de fancaria que, por puro provincianismo, se importou do estrangeiro, mas que pouca relevância teve e que não nos habilita a classificar o regime de fascista. Foi o que disse: a pequenez do País implica sempre que se preste vassalagem a algumas das manias coevas.


De JVA a 28 de Julho de 2010 às 19:01
Ah, só mais uma coisa quanto aos “subtipos”: é claro que há vários subtipos de diversa índole, mas eu não contestei isso. O que eu contestei foi a classificação do regime salazarista como uma estirpe do fascismo, pelas razões que elenquei: se o RPR postula que a sociedade era despolitizada, isso contraria a própria essência de um regime totalitário como o fascismo, que pressupõe a aglutinação de massas altamente politizadas. Ou não?... Resumindo: eu concordo, genericamente, com o conteúdo do post; e é justamente por concordar com o conteúdo do post que discordo da contradição implícita no qualificativo "fascista".


De RPR a 28 de Julho de 2010 às 19:46
O rótulo existe e é aplicado ao salazarismo. Justa por uns motivos e injustamente por outros, é-o. Mas é errado pressupor que, por se dizer que o salazarismo foi "fascista" (por ter tido grupos de massas não comunistas), terá sido tão fascista quanto o fascismo italiano. A União Nacional foi um nicho de governadores e administradores públicos; a populaça deixou-se ficar de fora. E isso distingue dois tipos de fascismo (usando o rótulo), se quiser: um totalitário e outro autoritário. O primeiro aglutina; o segundo deixa a sociedade respirar - dentro dos limites da sua "democracia orgânica". Mas, para concluir, concordo consigo no essencial: é no mínimo duvidoso que o rótulo deva ser aplicado ao salazarismo, porque as características comuns com o fascismo não podem camuflar as inúmeras diferenças. Neste texto comparei o salazarismo a outros regimes ditos fascistas, porque é essa a aglomeração que é feita academicamente. Se quisermos ir ao extremo, qualquer regime ou até governo é diferente de outro, mas a necessidade de agrupar fenómenos políticos implica a concentração em aspectos comuns. O salazarismo terá tido aspectos em comum com o fascismo, mais do que com outros tipos de regime. E repare, para terminar, que o título não é "fascismo" mas "fascismos", o que salienta as diferenças.

Obrigado pelos comentários


De JVA a 28 de Julho de 2010 às 21:23
Exacto. Isto, no fundo, são uns rendilhados terminológicos. Eu acho que a raiz desta pequena divergência reside nisto: o RPR usa o termo "fascista" para, como afirmou logo no primeiro comentário, "englobar uma série de regimes ditatoriais não comunistas"; eu reservo-o para um tipo de regime em que se salienta a vertente, não só ditatorial, mas sobretudo totalitária (precisamente porque, a não ser assim, estaremos a aparentá-los aos regimes absolutistas).

Quanto ao resto, de acordo na caracterização da União Nacional e do alheamento do vulgo das questões políticas (aliás, a "forma mentis" do português da época traduzia, quase sempre, uma desconfiança instintiva relativamente a "meter-se na política", que subjaz à citação que fez do Marcello Caetano). E, como é evidente pelo que disse, também concordo com a parte de o poder estar concentrado em meia-dúzia de mandarins e com a ausência de "assunção de culpa colectiva", mas com uma pequena excepção: não a do regime, mas a da questão colonial.


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