Terça-feira, 03.04.12
Priscila Rêgo

A culpa desta crise não foi só do Sócrates. A culpa, diz o Henrique Raposo, foi também dos Marcelos Rebelo de Sousa da nossa vida pública, que discutem "a política de forma apolítica" e que não defendem "valores ou causas". E pergunta o Henrique: "Alguém se lembra de uma convicção profunda de Marcelo?". 


É verdade que Marcelo é um caso específico (e raro na tugolândia) de comentador ideologicamente inócuo, mas está longe de ser a regra cá no burgo. Se há coisa em que os nossos opinion makers transbordam, a convicção é certamente uma delas. Uma convicção profunda, certa, dogmática e impenetrável. Precisamente daquelas que são imunes aos factos e conduzem invariavelmente à cristalização de opiniões imutáveis. 


O Prós & Contras, e grande parte dos momentos comentarísticos da nossa televisão, são óptimos tributos a este culto da convicção, pejado de especialistas especializados no debate parlamentar, homens de mérito e experiência (em actividades governativas) e líderes de opinião (e de partidos políticos). Os debates são de uma pobreza confrangedora. Não há uma troca de ideias e clarificação dos fundamentos de cada uma; há um disparar de convicções, repetidas à medida da capacidade pulmonar de cada interveniente. 


Não precisamos de mais convicções de Esquerda ou de Direita: essas já há que chegue, e a opinião pública tem uma grande facilidade em acantonar-se em cada uma delas. Mas precisamos desesperadamente de dados, opiniões informadas e processos de decisão rigorosos. A decisão política tem de ser o culminar de um processo auturado de estudo e não o ponto de partida para pôr a funcionar a rotativa ideológica. Precisamos, como disse o Pedro Magalhães num daqueles textos que deviam estar cravados em pedra, de nos tornar um país a sério.


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Priscila Rêgo

O que é muito significativo. Na verdade, o texto do dito tratado [orçamental] prejudica a alternância política da União e contradiz textos estruturantes da construção europeia. Inviabiliza, por exemplo, a Europa social e os Estados sociais de cada um dos Estados membros. Não passou pelo Parlamento Europeu, como devia. Falta tão-só que seja ratificado pelos Parlamentos nacionais, o que poderá ocorrer entre 13 e 14 do corrente mês. Uma vergonha! O deputado socialista João Galamba, que segue à lupa estas questões, de que é especialista, foi quem chamou a minha atenção para o perigo em que incorrem os Estados nacionais se vierem a ratificar o tratado.

 

Mário Soares, no DN. Ao que chegámos: instrumentalizar um velho.


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Domingo, 11.03.12
Priscila Rêgo

Os comentadores têm razão: Álvaro não tem tacto político (nem cabelo, já agora). Mas esta caracterização é injusta, porque apresenta o seu handicap comunicacional como a cromice idiossincrática que habitualmente associamos aos génios.

 

De génio, infelizmente, Álvaro tem muito pouco. A sua última obra, que o tornou um fenómeno mediático, é um tributo à trivialidade académica (que também existe no Canadá, pelos vistos): um conjunto pesado e amorfo de factos, números e estatísticas empilhadas de forma avulsa; uns pozinhos de recomendações para o mercado de trabalho retiradas à pressa dos documentos da OCDE; e uma incapacidade gritante de ir para além do "estamos acima ou estamos abaixo da média da Zona Euro", polvilhada com uma arrogância desmesurada de quem manifestamente não sabe como é que as coisas funcionam no mundo real ("uma desvalorização fiscal muito grande, feita de repente"). Álvaro foi um epifenómeno do nosso comentarismo: aquilo que esperaríamos encontrar se os nossos bloggers se tornassem políticos. 

 

Só é curioso que o livro seja tão citado pelos nossos comentadores (como aquele cromo do Martim Avillez - que sorte a dele que o Expresso não implemente a meritocracia que tanto defende). Ou não leram o livro, ou leram e acharam tudo aquilo normal. Indigentes ou limitados. Há alturas em que este país dá dó.


Quarta-feira, 29.02.12
Priscila Rêgo

Vale a pena ler a entrevista de Paul Krugman ao Jornal de Negócios. A entrevista promete ser uma dor aguda no coração de alguma Esquerda que tinha visto em Krugman uma espécie de messias da Nova Economia (a Nova Economia é a economia sem matemática e com conclusões de Esquerda) e de paladino contra a austeridade. Entre outras coisas*, Krugman defende que não há alternativa à austeridade, que não há um ataque concertado ao euro e que a saída da moeda única não é, por enquanto, uma opção. Em poucas palavras: não há saída sem dor. Nem bodes expiatórios a quem apontar o dedo.

 

Grande parte da Direita também ficará surpreendida com as posições de Krugman. Alguma dissonância cognitiva poderá até ser inevitável: o que é que é suposto a Direita conservadora dizer de um tipo para quem o Estado Social é sustentável, que defende que a dívida pública não é para pagar e que, ao mesmo tempo, afirma que Portugal devia baixar salários em 20% relativamente à Alemanha? O coração diz "bate"; mas a razão diz "louva". É o drama do criacionista que dá de caras com um fóssil de transição.

 

Este é o maior mérito de Krugman: a capacidade de analisar a economia para além das divisões e compartimentos impostos pelo espectro político. O mundo não é de Esquerda ou de Direita - o mundo é como é. E se os preconceitos acarinhados durante décadas não se ajustam ou adequam aos fenómenos do mundo real, pois tanto pior para os preconceitos. Krugman não deixa de ser Esquerda por dizer que não há alternativa à austeridade. Limita-se a colocar-se junto a uma franja cada vez mais restrita dessa Esquerda: a que ainda não fechou os olhos ao que se passa à sua volta.

 

*Entre outras coisas que, certamente, andou a ler por cá: a crise não é um problema de Estado Social, a austeridade é um sinal ao centro da Europa, países pequenos não escolhem a austeridade, aceitam-na por ausência de alternativas, as agências de "rating" são sobreestimadas, não há uma guerra euro/dólar.    

 



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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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