Terça-feira, 18.09.12
Bruno Vieira Amaral

Termina aqui a minha (muito intermitente) colaboração neste blogue. Obrigado a todos, leitores e camaradas de escrita.


Quarta-feira, 05.09.12
Bruno Vieira Amaral

Cristiano está triste. Sabemos que Cristiano está triste porque Cristiano anunciou após o jogo do Real Madrid que estava triste. Disse também que as pessoas do clube conheciam as razões da sua tristeza e que não queria falar mais sobre isso. O anúncio da tristeza de Cristiano é, sem qualquer dúvida, mais uma jogada política do que um sintoma de verdadeira tristeza. Se há no mundo moderno alguém geneticamente impreparado para a tristeza é o craque madeirense. Não tem a ver com as quantidades obscenas de dinheiro. Messi, por exemplo, ganha tanto ou mais que Ronaldo e mesmo assim vê-se que há naquele olhar uma possibilidade de melancolia, de genuína tristeza. Em Cristiano até os 3000 abdominais por dia são uma forma de repelir qualquer investida das nuvens negras da depressão. O übermensch Cristiano é simplesmente incapaz de nos convencer da sua tristeza, sobretudo quando a anuncia cirurgicamente após um jogo de futebol. De Cristiano esperamos frustração e raiva perante as derrotas, mas a armadura de músculos e de gel tornam-no invulnerável, aos olhos do público, aos dramas mais subtis e vaporosos dos estados de alma. Não é uma questão de dinheiro. Aliás, é bem curiosa a reacção filistina dos pobres (os de espírito e os outros) confrontados com a anunciada tristeza de Cristiano: “Então o gajo ganha um milhão de euros por mês e tem a lata de dizer que está triste?” Sublinho que são estes arautos do senso comum que nos lembram constantemente que o dinheiro não traz felicidade. Qualquer pessoa, mesmo um jogador de futebol muito bem-sucedido, pode sucumbir ao demónio da tristeza (lembram-se de Robert Enke?). O que é obsceno nas declarações de Cristiano não é o dinheiro que ele tem em comparação com o que nos falta a nós. O que é chocante, pelo menos para alguém que, como eu, dá tanto valor à verdadeira tristeza, é a leviana utilização da tristeza como arma num negócio político-futebolístico. Não é o dinheiro de Cristiano que o torna indigno da tristeza que anunciou; é o fazer da tristeza moeda de troca, falso estandarte, arma de chantagem. Isso, sim, é uma tristeza e um insulto, não aos que não têm o dinheiro de Cristiano, mas aos que sofrem a tristeza real que lhe falta.


Terça-feira, 21.08.12
Bruno Vieira Amaral

(Escrito a poucos dias do início dos Jogos Olímpicos)

 

Os puristas de sofá preparam-se para mais uma jornada de invocação dos nobres ideais do barão de Coubertin. Enquanto mais de dez mil atletas de todo o mundo cumprem o sonho de uma vida construído com o sacrifício de milhares de horas de treino, os profissionais da nostalgia e do “antigamente é que era bonito” maldizem a máquina de fazer dinheiro em que se tornaram os Jogos Olímpicos. No entanto, para os atletas, a consagração olímpica continua a ser o cume da carreira. Uma lesão ou uma queda que ditem a perda de uma medalha provocam lágrimas e desespero que não se podem justificar com os contratos que se perdem ou com os milhares de euros que não vão ganhar. No momento de competir, o dinheiro, o negócio, os patrocinadores, todos esses fantasmas que ameaçam a pureza da competição, desaparecem da cabeça dos atletas. Só há um objetivo: dar tudo. Mas nem sempre a cabeça dos atletas fica vazia ao ponto da concentração máxima. Por vezes, a cabeça atrapalha e anos de treino, de sacrifícios e de desejos evaporam-se num segundo, numa postura errada do corpo, numa barreira que não se consegue ultrapassar, num ensaio nulo, numa falsa partida. No momento da verdade, que separa os bons atletas dos imortais, alguns sucumbem à pressão e à ansiedade. Duvidamos que os seus cérebros, nesses segundos decisivos, estejam a pensar nos ideais desvirtuados de Coubertin. Naquele momento são eles a lutar contra os adversários por um lugar na história. E, frequentemente, quando os adversários já estão derrotados, o último e mais difícil obstáculo vem de dentro.

 

Seul, 1988. Domingos Castro participa na final dos 5000 metros e há boas possibilidades de conseguir uma medalha, talvez a de ouro. A corrida inicia-se e, por volta do primeiro quilómetro, o queniano John Ngugi isola-se. Com três quilómetros percorridos, Castro vai atrás dele, passa o resto da prova a 30 metros do adversário, mas tem uma vantagem confortável para os outros atletas. À entrada da última volta, a medalha de ouro é uma miragem, mas a medalha de prata é quase uma certeza. Até aos derradeiros cem metros. Vindos de trás, com pontas finais poderosíssimas, Dieter Baumann e Hansjörg Kunze, deixam Domingos Castro no mais frustrante dos lugares olímpicos, o quarto. Em vez de focarem o vencedor ou os outros dois medalhados, as câmaras centram-se em Castro a andar de um lado para o outro, incrédulo e em lágrimas. Acabara de perder uma oportunidade única de conseguir uma medalha em Jogos Olímpicos. Ainda participou em Barcelona 92, tendo terminado a prova em 11º lugar. Acabou a carreira com uma medalha de prata nos campeonatos do mundo de 1987. Faltou-lhe aquela que perdeu nos últimos cem metros na corrida de Seul. Imagino que, de vez em quando, o corredor ainda refaça mentalmente o percurso e se empenhe num esforço retroactivo para não ser ultrapassado, para não perder a sua medalha. Apesar disso, o caso de Castro não foi de um bloqueio. Para todos os efeitos, realizou uma prova notável e um dos seus melhores tempos na distância. Os outros foram simplesmente melhores. Nem sempre é isso que acontece. Quatro anos antes da ocasião perdida por Domingos Castro, Fernando Mamede chegou aos Jogos Olímpicos de Los Angeles como o melhor atleta do ano nos 10 mil metros. Mais: chegou como recordista mundial. Mamede era um atleta de eleição. Talvez o melhor da sua geração em talento inato. Moniz Pereira disse recentemente numa entrevista ao Público: “foi um atleta único, nunca vi ninguém assim.” Mas, no momento da verdade, o atleta de Beja bloqueava. Sentia o peso da responsabilidade, o “medo cénico”, e todas as suas incríveis qualidades não chegavam para derrotar a sua fragilidade mental. Naquele que seria o momento mais glorioso da sua carreira, fracassou com estrondo. Desistiu a meio da final. Não conseguiu libertar-se. Ficou amarrado. A cabeça pesava de mais. Pensava de mais. Segundo Moniz Pereira, Mamede tinha um grave problema de ordem psicológica. “Durante mais de dois anos ganhou os meetings todos em que participou, mas chegavas às grandes provas, Mundias e Jogos Olímpicos, falhava. Começava a queixar-se com dores e a dizer que não era capaz...Estava mais bem preparado que o Lopes, mas o dia chegava e fraquejava. Ao fim da primeira volta já era último. No final, perguntaram-me se ele tinha acabado como atleta e eu disse para esperarem pelo próximo meeting da Suiça. Chegou lá e ganhou. Era cabeça.”

 

Em alta competição, pensar de mais é, muitas vezes, o caminho mais rápido para o bloqueio. No seu artigo A Arte do Fracasso, Malcolm Gladwell dá o famoso exemplo do “estoiro” de Jana Novotna na final do torneio de Wimbledon contra Steffi Graff, em 1993. A tenista checa tinha feito um torneio notável até aí, tendo deixado pelo caminho Gabriela Sabatini e Martina Navratilova. Na final, perdeu um primeiro set no tie-break e ganhou o segundo set por demolidores 6-1. No terceiro set liderava por 4-1. Estava a um passo da glória. Podem confirmar no youtube a qualidade de algumas jogadas de Novotna (http://www.youtube.com/watch?v=BTwN_kQc0Pc). Comparem-nas com o ténis praticado a partir desse momento. Não parece a mesma jogadora. Duplas faltas, bolas contra a rede, respostas disparatadas. Graff manteve o equilíbrio, ganhou os cinco jogos seguintes, o set e o torneio. Quando recebeu o prémio de consolação, Novotna não aguentou e chorou no ombro da Duquesa de Kent. Vemos as imagens e partilhamos a frustração, a tristeza e a impotência de Novotna, sem ninguém para culpar a não ser a sua cabeça, a incapacidade de resistir à pressão de estar tão perto de ganhar o mais importante troféu do seu desporto. Foi como se naquele momento de viragem a tenista se tivesse ausentado de si própria, tivesse começado a olhar de fora o seu extraordinário desempenho, a racionalizar os movimentos, e esse pensamento tivesse quebrado o feitiço da união natural entre vontade e acção. Gladwell, que neste artigo distingue o bloqueio do entrar em pânico como duas formas diferentes de fracassar, resume assim o colapso de Novotna: “Quando Jana Novotna fracassou em Wimbledon, esse fracasso deveu-se ao facto de ela ter começado a pensar novamente nas jogadas. Perdeu a fluidez, o toque. Fez duplas faltas nos serviços e falhou bolas altas, as bolas que exigem maior sensibilidade em termos de força e tempo. Ela parecia uma pessoa diferente – a jogar com a deliberação lenta e cautelosa de uma principiante –, porque, num certo sentido, ela voltara à fase de principiante: estava a contar com um sistema de aprendizagem que não usava nos serviços nem nas defesas desde que aprendera ténis na infância.” Este processo é tão simples e rápido quanto aflitivo para quem o vive. É como acordar de um estado de transe competitivo. De repente, há um bloqueio dos movimentos naturais, da memória muscular e o atleta regride para o patamar da “aprendizagem explícita”, um termo científico utilizado por Gladwell no seu artigo e que é equivalente a um leitor adulto ler este texto dividindo as palavras em sílabas. Naqueles momentos, mentalmente, os atletas regressam aos bancos da primária. Foi o que aconteceu a Lolo Jones na final dos 100 metros barreiras em Pequim. A atleta norte-americana não bloqueou no sentido de ter feito uma prova desastrosa. Mas numa prova tão rápida e tão técnica como esta, o mínimo deslize significa a derrota porque não há tempo para corrigir o erro. Jones partiu pior que a australiana, mas a meio da prova já liderava. Quando faltavam duas barreiras, a medalha de ouro parecia ter encontrado a destinatária. Porém, Jones tropeçou na nona e penúltima barreira, desequilibrou-se ligeiramente e isso foi o suficiente para ser ultrapassada por seis atletas. Em entrevista à revista Time, a velocista norte-americana disse que em determinado momento começou a ver as barreiras a sucederem-se a uma grande velocidade e lembra-se de ter pensado que não se podia descuidar na técnica. Foi então que bateu na barreira: “Sinceramente, eu devia ter relaxado um bocadinho e ter-me limitado a correr.” O artigo da Time refere, com base em estudos sobre este tipo de bloqueios, que nestas ocasiões, devido à preocupação, o córtex pré-frontal é inundado por pensamentos quando deveria ser o córtex motor, que controla o planeamento e a execução dos movimentos, a ditar as regras. Em vez de se deixar ir, de flutuar, o atleta começa a pensar, o cérebro entope, indeciso entre a reflexão e a acção, e os músculos, como soldados confusos com ordens contraditórias, hesitam. Basta um segundo e a batalha está perdida. (Jones acabou no maldito 4º lugar dos 100 metros barreiras em Londres).

 

Vejamos a situação oposta, o momento em que um atleta se transcende, chegando muito mais longe do que era expectável. Há um caso recente. Algumas semanas atrás, o tenista espanhol Rafael Nadal enfrentou o checo Lukas Rosol em Wimbledon. Nadal tem onze títulos do Grand Slam, este ano já venceu o torneio de Roland Garros e apesar de a relva não ser o seu território preferido já triunfou em Wimbledon por duas vezes. Nada, a não ser a ocorrência de uma lesão ou um acidente cósmico, faria prever a derrota do espanhol contra o nº 100 do mundo. Mas foi isso que aconteceu. Razões? Depois da derrota, Rafael Nadal, o campeoníssimo Rafael Nadal, pouco habituado a perder nestas circunstâncias, procurou justificações e só conseguiu dizer que o adversário tinha “respondido sem pensar”. Com bolas disparadas a mais de 100 quilómetros por hora, o tempo para se pensar não é muito. Responder sem pensar parece uma boa estratégia e, para infelicidade de Nadal, resultou. O que o tenista maiorquino disse é menos interessante do que o que se percebe das suas palavras. Para Nadal, o ideal seria que Rosol tivesse pensado mais, tivesse tido mais consciência do palco, do adversário e das suas próprias capacidades (claramente inferiores às de Nadal). Mas Rosol optou por se esquecer de tudo isso e por responder sem pensar. Resultado: derrotou um dos melhores jogadores de sempre. Mas talvez não tenha sido uma opção, talvez a libertação de Rosol dos pesos do pensamento tenha sido involuntária, talvez tenha simplesmente acontecido. Temos a ideia que para um jogador ganhar a um adversário que lhe é superior tem de o conhecer muito bem, tem de definir uma estratégia que explore os pontos fracos de quem está do outro lado e tem de elevar os níveis de concentração a um patamar budista para resistir à batalha. O que o resultado de Rosol prova é que, por vezes, basta deixar-se ir. Um tenista profissional, mesmo um que esteja no 100º lugar do ranking, como era o caso de Rosol, é um desportista de elevado rendimento, muito bem preparado técnica, física e mentalmente. Quanto mais pensar na distância que o separa do topo da hierarquia maior lhe parecerá essa distância. Quanto mais pensar no adversário mais pensará sobre as suas próprias limitações. Quanto mais pensar na vitória, maiores serão as probabilidades de sair derrotado. A solução é: não pensar. Jogar. Regressar a um estado uterino, irrefletido, de açção pura. Há dois problemas: o não pensar não garante a vitória (em 10 jogos, Nadal provavelmente derrotaria Rosol em 9, por muito que este não pensasse) e não pensar é muito mais difícil do que parece, porque depende de um esforço voluntário rumo a um estado que é quase de transe. Neste sentido, o não pensar é uma espécie de transe autoinduzido, sem auxílio de outra coisa que não seja a força de vontade. Como se vê, é um equilíbrio quase impossível entre a inconsciência e a vontade, entre o esforço para chegar a um estado e esse estado que é essencialmente “sem esforço”. Rosol transcendeu-se. Não apenas no sentido de ter ido além das suas capacidades, mas no sentido religioso de transcendência. Como se os pensamentos tivessem migrados para os músculos, ossos e tendões. O truque é não querer ser mais esperto do que o corpo no território deste. O pensamento é muito útil num jogo de xadrez ou na resolução de uma equação matemática. Numa prova de alta competição pode ser desastroso.

 

Será que o segredo é ser estúpido? Não. O segredo é ser inteligente e deixar que a parte de nós mais bem preparada para lidar com aquele desafio assuma o comando. Se eu precisar de alguém para pilotar um avião vou recorrer a um piloto de longo curso com muita experiência e não ao rapaz que se licenciou em Matemática Aplicada com média de 20. Às vezes, ser mais inteligente pode passar por se pensar menos, não mais. Num ensaio sobre o livro de memórias de Tracy Austin, David Foster Wallace surpreendia-se com a pouca sofisticação dos comentários da tenista sobre o seu próprio desempenho desportivo. Esta constatação é, de facto, muito pouco surpreendente. Se há bons romancistas e poetas incapazes de produzir um discurso interessante sobre os seus ofícios por que é que esperamos que alguém que não trabalha com palavras o fizesse? A desilusão de Foster Wallace com a superficialidade dos desportistas leva-o a concluir que essa superficialidade não é apenas o preço a pagar pela excelência desportiva, mas a sua condição necessária: no desporto, só quem não pensa no que faz poderá fazê-lo perto da perfeição. Isto é, obviamente, um erro. Se perguntarem a Diego Armando Maradona em que é que ele estava a pensar enquanto fintava metade da equipa inglesa para marcar o que é considerado um dos melhores golos de sempre, a resposta será sempre frustrante quando comparada com a beleza dos movimentos em si. A dificuldade em descrever por palavras um desempenho desportivo de excelência não afeta apenas os próprios desportistas. Poucas pessoas serão capazes de executar essa tarefa ao nível do que o próprio Foster Wallace fez com o ténis de Roger Federer. Pedir que um desportista de topo seja eloquente quando fala do seu desempenho, que seja tão leve e gracioso nas palavras como é em campo, é exigir a coincidência de dois tipos de génio tão diferentes na mesma pessoa que o mais próximo que consigo imaginar seria o de esperar que Einstein tivesse sido campeão olímpico nos saltos para a água. Não é estranho que os desportistas tenham dificuldades em traduzir para palavras os seus movimentos em competição. Essa não é uma dificuldade exclusiva dos desportistas nem é uma condição para um desempenho de excelência. O que parece ser uma condição para um desempenho de excelência é que no momento da competição o desportista não tente pensar como um escritor sentado à secretária à procura da melhor maneira para descrever o que está a fazer. É na capacidade de entrar em transe, in the zone, no momento de maior pressão, em que a memória fica desligada, em que o atleta não está de facto a pensar em nada, que os grandes atletas se distinguem. O facto de escreverem maus livros de memórias não explica o seu extraordinário sucesso desportivo. Diz-nos apenas que deviam ter ficado pelo desporto porque o génio de escrever eloquentemente sobre a excelência desportiva é quase tão escasso como o próprio génio desportivo.


Quinta-feira, 09.02.12
Bruno Vieira Amaral

Nós, os portugueses, queixamo-nos. A minha avó queixava-se do reumático e dos vizinhos, do frio e do calor, do preço do pão de mistura e, aos domingos de manhã, inapelavelmente, do meu avô. Queixamo-nos da vida, dos políticos, do país quando vivemos cá, do estrangeiro quando para lá emigramos, dos ladrões quando roubam, da polícia quando policia, das multas por excesso de velocidade a que os outros milagrosamente sempre escapam. A queixa faz parte de nós. Somos de um servilismo complicado, resmungão, mal-encarado, cheio de úlceras e de violências murmuradas. Gostamos de manifestações suaves e de protestos débeis porque temos sempre as queixas, as lamentações, as pieguices. O que temos mais é pena. Temos tanta pena! Não sabemos o que é a verdadeira compaixão. Temos muita pena. Quando alguém se queixa da saúde e lhe dizemos que tem de ir ao médico, percebemos tudo: o estado não é suficientemente grave para ir ao médico, é apenas suficientemente real para gerar a queixa. O português compraz-se na queixa. A queixa não agrava, alivia. É auto-medicação espiritual. Uma mezinha caseira para alívio das dores da alma. O primeiro-ministro pode tirar-nos o carnaval e os feriados, as férias e os subsídios, mas não pode querer que deixemos de nos queixar. Em primeiro lugar, porque temos motivos para isso. Em segundo, porque não precisamos de motivos, embora sempre os tenhamos tido. Nunca precisámos e sempre os tivemos. A queixa é uma oração secular. A queixa está para a revolta como a pieguice está para a verdadeira compaixão, como o desabafo está para o verdadeiro pensamento filosófico. É o substituto à medida do nosso saldo existencial. Acredito que possa ser desesperante ouvir todos os dias queixas de empresários, de trabalhadores, de professores, de artistas, de alunos e de sindicalistas. Olhe, sr. primeiro-ministro, faça como nós, queixe-se!


Terça-feira, 24.01.12
Bruno Vieira Amaral

O Professor Cavaco tem uma nítida falta de jeito para a comunicação oral. Como todos os bons políticos, fez desta fraqueza uma força. Especializou-se em tabus e silêncios esfíngicos que os incautos tagarelas normalmente tomam por sabedoria. Uma vez mais, ao querer mostrar-se solidário com o sacrificado povo português, Cavaco achou por bem travestir-se de um deles e, em presidencial metonímia, chorar as suas dores financeiras como as dores de todo um país. O povo é que não gostou da figura de estilo ou, no caso, da figura de parvo de um presidente a tomar por parvos os seus concidadãos. Exagero, dizem uns. Outros afirmam que isto é a vingança das elites contra o filho do gasolineiro. Ora, se considero infame que se ataque o homem por causa das suas origens, não considero menos infame que se lhe defendam as burrices com o mesmo argumento. Cavaco, político experimentado, sabe que, em política, os deslizes e as incorrecções, mesmo que verbais, têm um preço. Um Presidente, seja filho de gasolineiro, filho de Deus ou filho da puta, não se pode queixar em público da vidinha quando tem milhares de euros no banco e rendimentos declarados de 149 mil euros. Não pode. Havia muitas maneiras de Cavaco se solidarizar com os portugueses. Fazer-se de desgraçado era a mais imbecil e imoral de todas. Foi essa que Cavaco escolheu.


Quinta-feira, 15.12.11
Bruno Vieira Amaral

 

M. Night Shyamalan gosta de brincar com géneros, de desmontar os códigos narrativos. Ao mesmo tempo, os seus filmes têm uma respiração metafísica, uma espiritualidade vaga que parece estar ali apenas para nos distrair dos truques de argumento. É como se ele nos dissesse: “vou fazer isto muito devagarinho para não se concentrarem na brincadeira.” A brincadeira, o lado lúdico do cinema de Shyamalan, é evidente em O Sexto Sentido (história de fantasmas), O Protegido (BD), Sinais (invasões de ETs), A Vila (monstros) e A Senhora da Água (contos de fadas). Enquanto brincava, a câmara mantinha-se séria e circunspecta. Há momentos, nos primeiros filmes de Shyamalan, de uma insuportável – para os padrões de Hollywood – lentidão. Isto juntava-se a ambientes mais intimistas (as crises conjugais em O Sexto Sentido e O Protegido, a crise de fé em Sinais) para criar um efeito de densidade que atingiu o máximo das suas possibilidades em A Vila, um filme na fronteira entre o denso e o balofo, entre o sério e o risível, entre o profundo e o pretensioso, quase sempre caindo nos últimos. Era um filme que rebentava de vontade de significar alguma coisa mas, como o realizador ainda não prescindira dos célebres twists e, no fundo, continuava a brincar com códigos, era como se estivesse também a brincar aos significados e à espiritualidade. Creio que, na altura, Bénard da Costa, escrevendo sobre A Vila, falou de Dreyer, mas isso era o mesmo que comparar um ilusionista com um santo, um mágico com alguém que opera verdadeiros milagres. Se Shyamalan acredita em alguma coisa, é no cinema e na narrativa. A metafísica das suas obras é metafísica cinéfila, é um cinema religioso no sentido em que a sua religião é o cinema. Não há mais do que isso e isso já é muito. O problema foi atribuir às suas obras uma profundidade espiritual que, na verdade, não existe. A questão espiritual, como a das crises conjugais, é funcional, está lá para aguentar a narrativa, mas não é religiosa num sentido sério. Em Sinais, a fé é apenas uma peça da engrenagem narrativa. Haverá algum espectador que sinta uma verdadeira inquietação espiritual depois de ver o filme? Sinais é um filme que só perturba epidermicamente. O máximo que provoca é uma comichão espiritual. E o mesmo é válido para qualquer um dos filmes de Shyamalan. Por isso é que O Acontecimento é um bom filme, porque é só cinema, não quer ser mais do que cinema, não pede outra leitura, não quer significar (e em Shyamalan, como vimos, querer significar é apenas uma manobra de diversão para ocultar as astúcias do argumento). E não fazendo de conta que tem muito para dizer espiritualmente, acaba por dizer mais cinematograficamente. Aqui, o Mal não é um conceito ontológico, é um conceito cinematográfico. O filme não é uma investigação sobre a natureza do mal, mas uma exploração das possibilidades de representação cinematográfica do Mal. Que o Mal aqui seja invisível, só reforça os méritos dessa exploração. É Os Pássaros sem pássaros. O início, completamente série B, sem prólogos de boas-vindas para acomodar o espectador, e a duração do filme (hora-e-meia) são os dois sacramentos da religião do cinema. A crise conjugal e o milagre quase no fim também não pedem sobreinterpretações. São fios do argumento. Qualquer leitura ecológica, espiritual, metafísica, etc, é lixo. Os Pássaros não é um estudo ornitológico, Tubarão não é sobre o comportamento dos tubarões, Alien não é sobre espécies alienígenas. São filmes sobre cinema e sobre o medo – a mais cinematográfica das emoções. O Acontecimento é isso. Não queiram que seja outra coisa. E espero que Shyamalan não queira ser outra coisa.


Segunda-feira, 12.12.11
Bruno Vieira Amaral

Assisti ao Real Madrid – Barcelona com renovadas esperanças de um golpe de estado futebolístico. No final, tal como os jogadores, adeptos e até Mourinho, estava rendido. Desta vez, não houve ambiente bélico, declarações incendiárias, dedos espetados nos olhos. Houve cortesia, civismo, educação e, para o que o interessa, Barcelona. Mourinho, que viu a sua equipa entrar a ganhar sem saber como, queixou-se da sorte. Mas se a pressão alta do Real Madrid só aguentou trinta minutos, por que razão haveria a sorte de durar noventa? Se Cristiano Ronaldo se ausentou e, no seu lugar, apareceu um rapazito nervoso e assustado com o adversário, por que razão a sorte teria de se manter em jogo até ao fim e, ainda por cima, do lado dos menos competentes? O Real entrou bem, com a energia equídea e militar das equipas de Mourinho, a ânsia de blitzkrieg, a vontade de poder. O Barcelona atrapalhou-se ligeiramente com o erro de Valdés, mas a filosofia de corpo dos catalães manifestou-se logo a seguir nos sucessivos passes para o guarda-redes, obrigando-o a exorcizar o erro de bola nos pés. “Somos o que somos”, pareciam dizer os jogadores do Barça. E o que são impôs-se, minuto a minuto, ao que o Real Madrid quer, e o Real Madrid quer ganhar. É essa a diferença entre as duas equipas: uma é, a outra quer. É a diferença entre identidade e desejo, entre ser e ter. E enquanto o Barcelona continuar a ser, o Real Madrid nunca terá.


Sexta-feira, 09.12.11
Bruno Vieira Amaral


Segunda-feira, 05.12.11
Bruno Vieira Amaral

Na Ler de Novembro:

 

“Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado.” A ameaçadora primeira frase de O Teatro de Sabbath, de Philip Roth, pertence curiosamente à amante e não à legítima. É quase inevitável que, num determinado momento da sua vida de enganos e pequenas mentiras, o adúltero seja confrontado com o espectro da exclusividade, quando não com a conversão forçada às virtudes da monogamia. Contornar os deveres matrimoniais requer uma considerável ginástica da consciência. Da bíblica carne fraca aos modernos viciados em sexo, da adrenalina egoísta da novidade à justificação filosófica e genética da traição masculina, o menu de desculpas para o adultério é variado e suculento quando comparado com as razões frugais para a fidelidade: amor e respeito pelo outro ou a (pouco admitida) falta de oportunidades. Haverá outra, mais maquiavélica e praticamente desconhecida do homem comum. Trata-se do interesse político. Muitos políticos americanos têm aprendido que um desvio conjugal pode prejudicá-los mais do que um desvio de dinheiro. Pode parecer uma confusão entre a esfera pública e a privada, resquícios de uma mentalidade puritana (cf. A Letra Escarlate, de Hawthorne), mas se um homem nem sequer merece a confiança da própria mulher com que cara pedirá aos eleitores para confiarem nele? Um político exposto em público como adúltero tem de eliminar do léxico a palavra “confiança”, o equivalente a pedir a um dirigente comunista para nunca mais usar a expressão “ataque aos direitos dos trabalhadores.” Porém, deduzir de um comportamento moral privado uma eventual conduta imprópria na gestão da coisa pública é algo tão ingénuo como a pergunta “compraria um carro em 2ª mão a este homem?”, pensada para questionar a integridade de um presidente manhoso. Todos nós conhecemos alguém fiel à mulher e a quem não hesitaríamos em comprar um carro, mas inadequado até para conduzir uma reunião de condóminos. Isto (e, num dos casos, a pontaria de Lee Harvey Oswald) ajuda a explicar a contínua popularidade de dois presidentes americanos muito propensos a pular a cerca.

 

Em meados da década de 90 do século passado, tivemos direito a uma ópera do sabão sobre as faltas conjugais do homem mais poderoso do mundo. A saga envolvia charutos amolecidos e temperados nas intimidades de uma estagiária e incursões céleres na Sala Oral. O reinado de William Jefferson Clinton ficou manchado por um vestido azul, por sua vez manchado para a eternidade por um vestígio de esperma presidencial. Monica, a estagiária, guardou com fervores de devota a relíquia numa caixa como prova da frágil constituição moral do presidente. Vítimas retroativas apresentaram-se ao mundo, emergindo do fundo dos tempos, feias como demónios, para reclamar o respetivo quinhão de ignomínia a tão duras penas conquistado. Também elas tinham sido tocadas pelo eleito e ungidas pela sua semente, ainda que não depositada no vaso recomendado pela ortodoxia. Hillary suportou a humilhação porque tinha em vista galardão mais elevado do que o de esposa traída. Concedeu-lhe o perdão público e o povo, saciada a fome de escândalo, também. Bill Clinton saiu da Casa Branca com níveis de aprovação pública superiores aos de Ronald Reagan, o que prova que é mais vantajoso saber representar do que trair a mulher.

 

Mais de trinta anos antes, John Fitzgerald Kennedy não teve de enfrentar procuradores esfaimados a morder-lhe as canelas. Era, contudo, um adúltero em série e insaciável. No início de Adúltero Americano, de Jed Mercurio, lemos: “Sempre teve mulheres – várias, em sequência e simultaneamente, e podiam ser amigas da família, herdeiras de famílias ricas, senhoras da alta sociedade, modelos, atrizes, relações profissionais, esposas de colegas, “meninas” amigas de festas, lojistas e prostitutas.” O seu lema poderia ser a frase da personagem de Joe Pesci em O Touro Enraivecido: “I try to fuck anything”. A popularidade de JFK pode atribuir-se à morte prematura e também ao desinteresse da imprensa da época por delitos menores. A fama de mulherengo não lhe arruinou a aura de menino de ouro da política americana. Pelo contrário, essa aura aristocrática de eleito contaminou todos os aspetos da sua vida pública e privada.

 

O escritor Theodore White, responsável pela associação da presidência de Kennedy à Camelot do Rei Artur, escreveu na revista Life que aqueles tempos foram “um momento mágico na história americana, em que homens galantes dançavam com belas mulheres, uma época de grandes feitos, em que artistas, escritores e poetas se reuniam na Casa Branca enquanto os bárbaros permaneciam no outro lado das muralhas.” Clinton, pese embora o reconhecimento das suas qualidades intelectuais por figuras como Toni Morrison ou Gabriel García Márquez, nunca foi o rei de uma corte sofisticada. Adúlteros omnívoros, a grande diferença entre Kennedy e Clinton – esqueçamos o facto de um ser católico e o outro batista, das origens irlandesas de um e do outro ter sido chamado o “primeiro presidente negro” e de o rol de conquistas de JFK incluir uma tal de Marilyn Monroe – é de classe social. É a diferença entre a Washington de Gore Vidal e os subúrbios de John Updike. Entre a aristocracia possível e a classe média inevitável de uma mesma nação. Entre patrícios e plebeus. À distância, os rumores das ligações entre o clã Kennedy e a mafia são muito mais fascinantes do que os duvidosos negócios de compra e venda de terrenos dos Clinton. O casal Kennedy esbanjava classe, era matéria de conto de fadas. O casamento dos Clinton é da fibra das sociedades de negócios, recende a obstinação. Apesar do seu inegável carisma, podemos imaginar Clinton como um remediado vendedor de automóveis ou mediador de seguros a seduzir empregadas de cafetaria no Arkansas. Nos corredores do poder ou nos de uma agência bancária, Clinton seria sempre um adúltero de província. Kennedy instalou-se, desde cedo, num trono mitológico. Nos anos de Camelot, imprimia-se a lenda. Nos de Clinton, imprimiu-se a verdade. Porque até os adultérios presidenciais precisam de uma hierarquia, de gradações classistas entre a aristocracia e o povo. Há um mar de estatuto a separar uma Casa Branca de uma casa com cercas brancas.

 


Quinta-feira, 03.11.11
Bruno Vieira Amaral

Peço a atenção dos telespectadores para as capas que se seguem:

 

 

 

 

Por um inexplicável fenómeno editorial e atmosférico, ambas as revistas coincidem no tempo (esta semana) e no espaço (o das bancas). Para facilitar, chamemos a isto democracia. De um lado, temos um encontro entre dois génios, ocorrido (assim reza a capa) a 9 de Outubro, em Cambridge, lugar onde, presumo, as pessoas são muito inteligentes e dão joviais passeios pelas ruas discutindo filosofia e literatura clássica depois de manhãs intensas de salutar exercício físico. Do outro – porque, nestas coisas de cultura, a TV Guia não gosta de ficar para trás –, temos uma concorrente da Casa dos Segredos, famosa, entre outras coisas, por desconhecer o paradeiro de África e por massajar subrepticiamente a pudenda de um colega de infortúnio. Diz a capa da TV Guia que Cátia, assim se chama a rapariga, tem um problema mental, o que só pode ser considerado um progresso porque tudo indicava que teria vários. Para divertimento geral da nação, Cátia mostrou-se ser mais burra do que o comum dos seus compatriotas: acha que Londres é um país, que África fica na América do Sul (uma curiosa variação da teoria das placas) e – segundo me constou – tem por hábito analisar os mapas ao contrário, no que considero uma metáfora arguta sobre o estado actual da economia.

 

Feito o intróito, devo começar por defender a pobre rapariga, uma vez que os outros dois senhores encontrarão com facilidade quem os defenda e até quem imediatamente se ajoelhe perante a imagem da proximidade de dois mitos. A ignorância geográfica de Cátia, não sendo matéria de louvor, não será motivo para escárnio, a não ser para aqueles que estão sempre dispostos a atacar o ensino público e a lembrar o inelutável atraso cultural do povo lusitano. É óbvio que no sistema de valores de Cátia – mesmo ignorando o eventual problema mental referido na capa da TV Guia – a localização de África, o próprio conceito de África, dos continentes e do mundo, são informações neglicenciáveis, da mesma forma que a maior parte dos seres humanos vive bem sem saber o que caralho é um neutrino (a esse propósito, deverão ler a entrevista de João Magueijo, também neste número da Ler). De manhã, quando me levanto, e apesar de saber quem são George Steiner e António Lobo Antunes, é-me bem mais útil saber onde é e como chegar a Benfica, onde trabalho. Pequena nota: há uns meses, fui almoçar a um restaurante em Benfica e quem é que estava no mesmo restaurante? António Lobo Antunes. Partilhar o mesmo restaurante com um génio fez-me ter vontade de envelhecer depressa para lamentar o tempo em que era normal ir almoçar a um restaurante em Benfica e encontrar figuras da literatura mundial, Ah, tempos que não voltam mais! Retomo. Facto curioso é que, no meio de uma conversa eruditíssima, em que praticamente não há uma frase que não seja abençoada por um nome incontornável da cultura ocidental (vou ser rápido: Tchékov, Céline, Juvenal, Swift, Platão, Malraux, Diderot, Allan Poe, Kant, Jünger, Sócrates, Jesus Cristo, Bourget, Bergson, Flaubert, a puta da Bovary, Balzac, Tolstói, Pound, Stendhal, Emily Brontë, Ovídio, Horácio, Virgílio, Camões, Melville, Cervantes, Benn, Faulkner, Nabokov, Borges, Pessoa, Gogol, Zweig, Conrad, Valéry, Proust, Shakespeare, Koestler, Gide, Greene, Mozart, Schubert, Tintoretto, Rembrandt, vinho branco), falam sobre a experiência africana de Lobo Antunes. Diz o velho mestre: “Para mim, esta questão da tortura é enorme, capital. Podemos nós tocar num outro ser humano? Espero nunca ser capaz disso. Mas, em Angola, teve com certeza de fazer esta escolha.” E é então que se abre um abismo entre estes dois homens, rapidamente colmatado pela educação e elegância de quem sabe estar a viver um momento cerimonioso, um chazinho de intercâmbio de inteligências superiores. No que diz respeito a África e, mais precisamente, à guerra (ou à tortura), estes homens vivem em mundos completamente diferentes que nem os milhares de livros que leram podem unir. A África de Lobo Antunes, a noção de tortura, é algo que o escritor conheceu em primeira mão. A África de Steiner é um ponto num mapa, algo que conhece dos romances de Conrad, e o seu conhecimento da tortura uma mera hipótese académica. Outra vez Steiner: “Em Angola, teve conhecimento direto de experiências atrozes, terá visto com os próprios olhos violências e sofrimentos que eu, graças a Deus, só conheço em segunda mão e que encontro na sua obra, que nos ajuda a compreender esta enorme injustiça (...)”. Get it? Não quero desvalorizar a erudição e o saber livresco. Quero apenas sublinhar que esse tipo de conhecimento é apenas o reverso da ignorância da pobre Cátia. Para Steiner e para Cátia, para nós que lemos muito e vemos muitas séries de televisão, África é apenas um ponto num mapa, uma ideia, uma abstracção. A diferença é que a pobre Cátia não sabe onde raio fica esse ponto no mapa. Nós, com os livros, e a pobre Cátia, com a sua estupidez refulgente, vivemos em segunda mão.

 

Enquanto escrevia estas linhas no barco, duas senhoras sentadas atrás de mim deliciavam-se com a ignorância de Cátia: “Diz que Londres é um país – é uma barbaridade”, dizia uma, ao que a outra acrescentou melancolicamente, como se contemplasse a terra devastada de toda uma civilização: “É muito triste.” Até se pode dar o caso de as duas senhoras saberem quem é António Lobo Antunes, mas duvido que saibam quem é George Steiner e o que ele já escreveu sobre a barbárie e a cultura. Para elas, passageiras triviais do barco e do mundo, a barbárie está para além das muralhas daquilo que conhecem (um reflexo historicamente compreensível e humanamente perdoável), a barbárie começa na cabeça da pobre Cátia. Daqui a uns meses, já não se recordarão da infeliz. Cátia permanecerá esquecida, porém eternamente visível e disponível, nos arquivos de milhões de vídeos do youtube. Ninguém guardará na memória que, durante uma semana, partilhou as bancas de jornais com aqueles dois gigantes, cada um especialista na sua respectiva forma de ignorância, como é próprio do ser humano.

 


Bruno Vieira Amaral

Na Ler deste mês:

 

"Em meados da década de 90 do século passado, tivemos direito a uma ópera do sabão sobre as faltas conjugais do homem mais poderoso do mundo. A saga envolvia charutos amolecidos e temperados nas intimidades de uma estagiária e incursões céleres na Sala Oral. O reinado de William Jefferson Clinton ficou manchado por um vestido azul, por sua vez manchado para a eternidade por um vestígio de esperma presidencial. Monica, a estagiária, guardou com fervores de devota a relíquia numa caixa como prova da frágil constituição moral do presidente. Vítimas retroativas apresentaram-se ao mundo, emergindo do fundo dos tempos, feias como demónios, para reclamar o respetivo quinhão de ignomínia a tão duras penas conquistado. Também elas tinham sido tocadas pelo eleito e ungidas pela sua semente, ainda que não depositada no vaso recomendado pela ortodoxia. Hillary suportou a humilhação porque tinha em vista galardão mais elevado do que o de esposa traída. Concedeu-lhe o perdão público e o povo, saciada a fome de escândalo, também. Bill Clinton saiu da Casa Branca com níveis de aprovação pública superiores aos de Ronald Reagan, o que prova que é mais vantajoso saber representar do que trair a mulher."


Segunda-feira, 24.10.11
Bruno Vieira Amaral

Perante as imagens dos últimos momentos do coronel Khadafi - impotente, ensanguentado, a pedir clemência – a nossa moralidade flexível socorre-se de ensinamentos bíblicos (quem mata pela espada, etc.) e de uma ideia de justiça poética, de equilíbrio cósmico entre a vida que se leva e o fim que se tem. Ora, é precisamente a natureza daquelas imagens que me leva a pensar no absurdo dos conceitos de justiça e política, de bondade e, por estranho que possa parecer, de clemência. Absurdo aquele espectáculo de sede de sangue, primitivo e tribal, comparado com a respeitabilidade desejada por um Conselho Nacional de Transição de fato e gravata, sóbrio e sério, a acalmar o mundo e a proclamar a libertação do povo líbio. Que palavras são estas: Conselho Nacional de Transição, democracia, eleições, justiça? Onde é que, nessa linguagem tranquilizadora e grandiosa, prenhe de futuro e de ordem, se enquadra a morte de um homem daquela maneira? A natureza humana em acção, sem freios morais, indiferente à benevolência da linguagem, assusta. Não cabe nos livros, nem sequer em palavras que pensamos duras: ódio, violência, barbárie. A natureza humana que mata um homem daquela forma não conhece barreiras ou limites, é apenas um desejo de morte em movimento. Esperar que, Khadafi, uma vez capturado, tivesse um fim diferente, é ter mais fé nas palavras do que nos homens. E a única palavra que aqueles homens podiam dizer naquele momento era “morte”. Esqueçam justiça, liberdade, futuro. Morte. Não havia ali mais nada. Morte. Nada do que ali se fez serve para a reivenção do país. Morte. Viva a morte!


Sexta-feira, 21.10.11
Bruno Vieira Amaral

Agora que passaram alguns dias desde esse momento inteiro e limpo que foi o 15 de Outubro da indignação, já me sinto com forças para escrever sobre o assunto. Nos dias que se seguiram à manifestação, não me foi possível pensar coerentemente sobre o maravilhoso exemplo de participação cívica, de democracia directa e de construção do futuro que nos foi legado por milhares de compatriotas, um dos quais empunhava o que me pareceram ser duas garrafas de cerveja enquanto era infamemente varrido da democrática escadaria por forças policiais comprometidas com o Mal. Para me emocionar mais, só faltou um carrinho de bebé por ali abaixo. A bizarra proposta de invasão da Assembleia da República, que pode ser tranquilamente visitada por qualquer cidadão durante a semana, encantou-me: ficámos a escassos degraus de um novo regime, de uma nova constituição e de termos, finalmente, o governo que merecemos. Estava tudo muito bem feito: houve debate de ideias, votações de braço no ar e um megafone usado por um empenhado democrata que aconselhava, aos berros, os restantes democratas a não provocar distúrbios. Houve aplausos e apupos, imprecações e cartazes arte povera para ajudar ao realismo da reconstituição histórica. Foi assim um género de feira medieval, mas para recriar o ambiente dos anos 70. Sou um apreciador das revoluções feitas nestes moldes pacíficos e em que toda a gente procura, acima de tudo, não se aleijar e não enervar a polícia. Isto, para quem não teve a oportunidade de acompanhar as cerimónias em directo, é a verdadeira democracia e, se estiverem de acordo, podemos fazê-la uma vez por mês, à porta da Assembleia ou num descampado qualquer. Temos sempre o pretexto da austeridade que, insensível ao talento e à criatividade dos indignados, vai continuar a andar por aí.


Quinta-feira, 06.10.11
Bruno Vieira Amaral

Eu queria que ganhasse Chinua Achebe, mas vai ganhar um israelita.


Quarta-feira, 05.10.11
Bruno Vieira Amaral

Na polémica inaugurada por Maria do Rosário Pedreira, no blog Horas Extraordinárias, a propósito de uma crítica de José Riço Direitinho ao novo romance de Valter Hugo Mãe, reparei no comentário (e já são mais de oitenta) da leitora Carla Ferreira. Diz isto: “Poderá servir (a crítica), para nos situar na história do livro daquele autor, e nunca para julgar o que lá expõe, que pode ser perceptível ou não ao crítico, depende.” Depreende-se, pois, que a crítica é aceitável desde que seja feita ao nível dos textos de badana e contracapa, isto é, que sirva de bússola para “situar” o leitor, mas que nunca se atreva a querer ser farol para o iluminar. Lembrou-me este comentário um post publicado pela autora do blog há uns meses. Nele, insurgia-se, e com razão, contra alguns textos de divulgação de livros em que pouco mais se faz do que reproduzir por outras palavras a informação da badana e da contracapa. Critica-se a crítica por ser crítica, por julgar, e criticam-se textos que se fazem passar por crítica mas que, na verdade, não julgam, reproduzem.

 

A questão com a crítica de José Riço Direitinho é diferente, porque a mesma não é discutida no post de Maria do Rosário Pedreira. Fala-se na indignação de algumas pessoas pela parcimónia na atribuição de estrelas ao romance de Valter Hugo Mãe e a autora até sugere que o crítico, por ser também escritor e concorrente do outro, não deveria ter escrito sobre o livro para evitar que pessoas atribuam a crítica negativa a dor de cotovelo e rivalidade. Sobre aquilo que JRD escreveu nada se diz. Mas creio que ainda há uma grande diferença entre pessoas que se indignam com estrelinhas sem terem lido o livro (e provavelmente sem terem lido os livros de José Rodrigues dos Santos e de Mónica Marques que mereceram mais estrelinhas de outros críticos do Público), entre pessoas que vêm logo falar de rivalidade e dor de cotovelo, e um crítico que assina com o nome e que toda a gente sabe que é escritor (e podemos até ignorar que alguns dos críticos mais conhecidos são romancistas/poetas com obra publicada e menciono apenas quatro: Eduardo Pitta, José Mário Silva, Miguel Real e Pedro Mexia). A crítica só vincula quem a escreve. Da mesma forma, as acusações de rivalidade, de ajuste de contas e de inveja, ou em alternativa, as de lambe-botismo, amiguismo e fellatios literários, só descrevem as pessoas que as proferem. Uma coisa é certa: quando se lê uma crítica, não se está a consultar o oráculo de Delfos ou a subir ao Monte Sinai para regressar com as tábuas da Lei. Lê-se a opinião de alguém, uma opinião parcial, subjectiva, condicionada pelas leituras (que podem ser mais ou menos do que as do autor), pela cultura, pelos preconceitos, pelo gosto e até por aquilo que se comeu ao almoço ou por quem se comeu a noite passada, ou seja, a opinião de um indivíduo. Até aquilo que se espera de um escritor influencia a crítica: pode-se ser mais exigente com um grande autor do que com outro de quem nada se espera. É por isso que a crítica é assinada por alguém e não é reclamada por um colegiado de sábios. É por isso que um crítico dá cinco estrelas a um livro e outro dá uma bola preta ao mesmo livro.

 

No nosso pequeno meio, uma crítica negativa gera sempre discussão, mas normalmente pelos motivos errados: fazem-se processos de intenções, contabilizam-se agravos passados, alguém recorda um episódio obscuro entre crítico e escritor, esquadrinha-se a vida privada de cada um, mencionam-se invejas por prémios atribuídos, desentendimentos na fila do supermercado, estado civil, preferências sexuais, etc. Que o que está escrito seja a opinião livre de alguém que assina com o próprio nome e que, dessa forma, leva a jogo a sua honestidade intelectual e o seu trabalho é coisa pouco valorizada. O que interessa é falar das intenções subterrâneas, de jogadas de bastidores, dos ódiozinhos. Se formos por aí, a discussão arrisca-se a ser longa e desagradável e, aliás, até pode começar por onde tudo começa, pela publicação de um livro (porque é que uns são publicados e outros não),  passar pelo interesse mediático (porque é que um romancista estreante dá cinco entrevistas e outro não tem sequer direito a uma notícia) e acabar na atribuição de prémios (porque é que uns ganham mais prémios do que outros). Mais vale fazer de conta que vivemos no melhor dos mundos e que tudo isto tem apenas a ver com a qualidade do livro e não com factores extra-literários. Porque, a haver alguma discussão, não é justo que, sendo possível atirar tanta lama para cima de tanta gente e esconder a mão, havendo tantos factores a contribuir para o sucesso ou insucesso de um livro, para o reconhecimento ou esquecimento de um escritor, só as motivações do crítico/escritor sejam escrutinadas.


Quinta-feira, 29.09.11
Bruno Vieira Amaral

Assunção Cristas é a personificação da beleza lusitana, confundida em alguns sectores radicais com fealdade ou, pelo menos, com uma certa rudeza de traços. Cristas é uma valquíria meridional, se as houvesse; uma amazona sem ablações. Não merece as responsabilidades ministeriais, que cansam e desfeiam, os projectos-lei, que esgotam a vitalidade, o ar condicionado dos gabinetes (agora não, que a Assunção quer proibi-lo), que embaça a pele e provoca pieira. Merece ser modelo da figura da República, eternizada em moedas (poucas) nas mãos dos portugueses e estátuas na Assembleia. Admiro-lhe a franqueza e a vivacidade do olhar, a sua arma primeira. Não tem sinais de debilidades urbanas. Apresenta, ao invés, uma solidez de formas, um vigor saloio, uma higiene mental que conforta o eleitorado em geral e os produtores de leite em particular. Fosse eu obrigado e também lhe atribuiria a pasta da agricultura, porque Cristas é mulher que evoca figos e nêsperas, pêssegos e meloas, saboreados nas tardes quentes dos verões alentejanos. Não é produto das faculdades, onde se discute de mais e se respira de menos, nem dos aparelhos partidários de onde brotam os santarrões que por aí se indignam, derramando cinzentismos, embriagados de sobriedade. É um produto da nossa terra, expressão de força vital de um povo que anda sempre derreado e macambúzio. Eu, se mandasse neste país, declarava-a património nacional.


Quinta-feira, 08.09.11
Bruno Vieira Amaral

No seu livro A Doença Como Metáfora, Susan Sontag insurgia-se contra o recurso a metáforas bélicas quando se fala de doenças. Sontag pensava que essa utilização despreocupada da metáfora condicionaria a percepção que o paciente tinha da doença (um ataque, uma declaração de guerra) e do próprio corpo (um campo de batalha). Isto contribuiria para uma auto estigmatização do doente de cancro (e todos nós sabemos como ainda hoje o cancro é tão dificilmente verbalizado, encolhido no eufemismo da doença prolongada) que depois se transferiu para os doentes de Sida (A Sida e as suas Metáforas foi o livro que Sontag dedicou ao assunto).

 

Será que a doença tem um potencial metafórico bélico inato ou foi a utilização continuada da metáfora bélica que formou a nossa percepção da doença enquanto guerra? Certamente o conhecimento científico do modo como o nosso corpo se defende (já estou no domínio da metáfora) das doenças aumentou a metaforicidade da doença. Algumas pessoas vencem a batalha contra o cancro (fortes) e outras perdem-na (fracos). O sobrevivente do cancro é um vencedor, mas aquele que sucumbe ao cancro será um derrotado? Quando se sabe que uma figura pública padece de uma doença grave, a metáfora é inevitável: “x prepara-se para a maior batalha da sua vida”. No fim, quando as coisas correm mal: “Esta era uma batalha (desafio, guerra) que não podia ganhar” ou “o grande x finalmente encontrou um inimigo que não pôde derrotar”, etc.

 

Com o desporto passa-se algo idêntico. O futebol, por exemplo, é em si mesmo, no rectângulo de jogo, uma metáfora da guerra, e os próprios jogadores são caracterizados metaforicamente (defesas, atacantes, ponta-de-lança, médio defensivo, o guarda-redes que protege “o último reduto”, etc), há remates que são bombas, petardos, mísseis; há entradas assassinas (mas que não matam ninguém), ambientes infernais (mas é só barulho), equipas que sofrem baixas (mas recuperáveis a tempo do próximo jogo), toques a reunir, treinadores especialistas em levantar o moral das tropas, guerreiros do Minho, sargentões, bombardeiros alemães, setas apontadas à baliza adversária, etc, etc. Num desporto que é todo ele uma imensa metáfora porque é que o termo “desertor” causou tanta indignação a algumas pessoas? Paulo Bento respondeu à altura e justificou-se precisamente com as inúmeras metáforas à volta do futebol (algo tão natural que Ricardo Carvalho arranjou logo outra, a do mercenário, tão frequentemente utilizada). A acusação que Paulo Bento ter-se-á excedido ao usar uma linguagem militar não é ofensiva, mas simplesmente estúpida. Paulo Bento limitou-se a esticar o potencial metafórico do futebol para cobrir uma situação concreta e pouco habitual. Porque no imenso parque de diversões metafórico que é o futebol àquilo que Ricardo Carvalho fez chama-se deserção. Ao contrário do que se pode pensar, Paulo Bento não teve um excesso de imaginação militar. Limitou-se a falar na língua que mais bem domina, o futebolês.


Sexta-feira, 12.08.11
Bruno Vieira Amaral

Os três últimos posts da Priscila (mas não apenas estes) asseguram-lhe um lugar no top dos melhores bloggers nacionais. Pensar fora de algumas boxes não é para todos.


Quarta-feira, 10.08.11
Bruno Vieira Amaral

Recebo com demasiada frequência para as minhas necessidades e-mails que me oferecem cremes, comprimidos e bombas para aumentar o pénis. A troco de uns quantos dólares, da ingestão de comprimidos não testados em seres humanos, prometem-me dimensões masculinas capazes de rivalizar com John Holmes e de fazer tremer de medo a mais escachada das actrizes pornográficas. É óbvio que nunca compraria esse tipo de produtos. Toda a gente sabe que as transacções na internet não são seguras. Um homem, na sua boa-fé, encomenda uns comprimidos e arrisca-se a ser chantageado por gente sem escrúpulos. O complexo de inferioridade, como todos os problemas dos críticos literários, pode ter origem em leituras erradas. Neste caso, em livros cujas dimensões viris das personagens são hiperbolizadas até ao nível equídeo da masculinidade. Perante estes leviatãs genitais o pobre leitor sente que guarda dentro das calças um inofensivo e infantil peixinho dourado, uma pila de anjinho barroco. E os escritores divertem-se nesta espécie de priapismo literário, como se as palavras não chegassem para descrever tão formidáveis atributos, como se nenhuma comparação fosse suficiente para dar uma ideia fidedigna do portento que concebem na imaginação.

 

Santino “Sonny” Corleone é uma das personagens abençoadas pela natureza e pela prodigalidade do autor. Mario Puzo elabora uma descrição física exemplar. Despacha o metro e oitenta, a cabeleira farta e ondulada, rosto grosseiro, lábios arqueados, queixo obsceno, força de um touro, para se deter na braguilha: era “tão generosamente dotado pela natureza que a pobre da sua mulher temia tanto o leito nupcial como os antigos hereges receavam a tortura.” Puzo, à boa maneira italiana, mete religião e sexo no mesmo saco e compara heresias a deveres conjugais. Mas não se pense que a enorme gaita de Santino só impunha respeito à “pobre” mulher; “mesmo as mais duras e valentes prostitutas, face à visão terrível daquele membro avantajado, exigiam o dobro do preço.” Ou seja, no leito conjugal ou no bordel, a pila de Sonny infundia o mesmo terror. Podemos admitir que as prostitutas exigissem o dobro por uma questão de facilidade contabilística, mas a mensagem implícita é que Sonny vale por dois. Certamente apiedado da sua personagem, Puzo arranja-lhe uma mulher à sua largura: Lucy Mancini, a quem um namorado acusara precisamente de ser demasiado larga. Devido a esta condição do estado do terreno, Lucy só tivera experiências sexuais insatisfatórias. Até que, inadvertidamente, ouviu a mulher de Sonny referir-se publicamente à equipagem do marido: “quando vi pela primeira vez aquela coisa do Sonny e pensei que teria de me aguentar com ela cá dentro, comecei a gritar de medo. Depois, ao fim de menos de um ano, tinha já as entranhas tão desfeitas como macarrão cozido. Quando me vieram contar que ele andava com outras, fui à igreja e acendi uma vela...” Ainda estou para ler passagem mais bela sobre os efeitos de uma pila gigante na morfologia feminina. Se a mulher de Sonny fosse alentejana diria “estou para aqui feita em migas”, como é descendente de italianos encontra uma metáfora bem mais apropriada. Esta descrição ginecológico-culinário-cultural tem um efeito fulminante na Lucy escachada. Como um verdadeiro empresário, Lucy vê uma oportunidade onde todos as outras só vêem um problema e apercebe-se disso quando sente “a carne a tremer entre as pernas”. “Aquela coisa” a que a mulher de Sonny se refere como se se tratasse de um fantasma, de uma forma de vida extra-terrestre ou de um animal não classificado pela zoologia desperta um interesse de índole amorosa em Lucy, como se naquele momento a existência da até então imaginada pila-gémea se materializasse numa “coisa” ao alcance da mão. É o momento mágico em que Lucy encontra um lingam à medida da sua yoni. Puzo é mais poético: “sentiu qualquer coisa quente a deslizar pelas suas coxas [a coisa, a coisa, duvido que quando Lucy sentiu qualquer coisa quente a deslizar-lhe pelas coxas não soubesse já que era a pila de Sonny, mas deve ser a isto que se chama a técnica do suspense]. Deixando cair a mão direita, segurou-a [à coisa] para a conduzir, enorme e grossa, feita de sangue e músculos, pulsando autónoma como um animal [Puzo consegue fazer de uma cena de sexo a dois um ménage a trois entre Sonny, Lucy e a pila de Sonny. As putas tinham razão: Sonny vale por dois]. Quase a chorar de êxtase e prazer [mas pelos vistos sem saber ainda que coisa era aquela], introduziu aquele membro vivo na sua própria carne inchada e húmida, respirando cada vez mais fortemente.” Puzo atinge aqui um nível superlativo na categoria da descrição de pilas: a coisa, o animal, o membro vivo é tão autónomo que é quase possível imaginá-lo, cansado de uma injusta divisão do trabalho, a abandonar Sonny e a mudar-se para um quarto alugado.

 

Em Cem Anos de Solidão, García Márquez também contribuiu para este campeonato de pilas literárias. Mas se José Arcadio, irmão do coronel Aureliano Buendía, é um rival de peso para Sonny Corleone, as mulheres do romance do colombiano são muito mais temerárias. Tal como Sonny, também José Arcadio se apresenta numa casa de má fama. No entanto, e ao contrário das prostitutas de O Padrinho, as meninas de Macondo disputam o privilégio de albergar o fenómeno. Não é José Arcadio que tem de pagar o dobro, são elas que têm de lhe pagar (e pagam) para o terem como cliente. Até mesmo uma cigana de “seios incipientes” e “pernas tão magras que, em diâmetro, não deviam ser maiores do que os braços” de José Arcadio revela uma disponibilidade física impressionante. Apesar do corpo de “rãzinha lânguida” aguenta o embate com “uma firmeza de carácter e uma valentia admiráveis”. As entranhas não se transformam em macarrão cozido, embora a pele desfeita num suor pálido, os olhos cheios de lágrimas e o corpo a exalar “um lamento lúgubre e um vago cheiro a lama” dêem conta de uma batalha jurássica. A masculinidade titânica de José Arcadio assusta a própria mãe, que “achava que a sua desproporção era uma coisa tão desnaturada como o rabo de porco do primo”, encanta a vizinha Pilar Ternera e põe Deus na boca de uma prostituta (“Que Deus to conserve!”).

 

De certa forma, as pilas de Sonny Corleone e de José Arcadio, exuberantes e festivas, são espectáculos de feira. Reflectem (ou talvez sejam a causa de) o carácter estouvado e imponderado dos seus proprietários (pede-se ao leitor mais paciente que estude as diferenças de personalidade entre irmãos – Sonny vs. Michael e José Arcadio vs. Aureliano. A propósito, é óbvio que, de acordo com este critério na distribuição de atributos, Fredo Corleone terá uma pila minúscula). Dirigem-se a um público feminino e observamo-las da perspectiva deste. Há outras duas pilas literárias que nos interessam (moderadamente, é certo), mas que são maioritariamente observadas por outros homens. A diferença é quase do tamanho das respectivas. O que nos primeiros casos é fonte de terror e desejo feminino, transforma-se, nos segundos, em argumento de legitimação da autoridade e da liderança. Falo (verbo falar) de Mr. Sammler’s Planet, de Saul Bellow, e 2666, de Roberto Bolaño. Mr. Sammler é um velho judeu fascinado por observar um carteirista preto em acção num autocarro. O carteirista (de quem não sabemos o nome) percebe que o velho pode estragar-lhe o negócio e, certo dia, segue-o e leva-o para o lobby de um prédio. É aí que abre a braguilha e expõe os seus “great oval testicles” e “a large tan-and-purple uncircuncised thing – a tube, a snake”. Mr. Sammler é forçado a olhar durante alguns segundos na direcção do “bicho”, após o que o carteirista recolhe a pila e parte sem dizer uma palavra. Deste exercício tácito de exibicionismo e de autoridade pode retirar-se o seguinte ensinamento moral: respeita quem tem uma pila grande, sobretudo se essa pessoa se dedica a actividades ilícitas. Mr. Sammler não é insultado, não é agredido, não é violado, mas ao obrigá-lo a olhar para a sua pila, o carteirista faz retroceder as relações de poder entre homens a um estado pré-histórico (cf. a cena do hominídeo assassino em 2001), dizendo, sem palavras e sem Bíblia ou Constituição (como cantava Miguel Ângelo), que é dali que todo o poder emana (ler o ensaio que ainda não escrevi Falocracia e as Letras dos Delfins – Uma Aproximação Mais ou Menos).

 

É também pelas dimensões fenomenais da sua pila que o General Entrescu ganha a fidelidade dos seus homens (2666, Roberto Bolaño), isto sem querer entrar em polémicas sobre o evidente homo-erotismo das instituições militares romenas. Afinal, os trinta centímetros (Bolaño é o único que não se escusa à precisão métrica) da verga do General eram “o orgulho do exército romeno”. A metáfora bélica sublinha a liderança carismática de Entrescu, mas não oblitera comparações mais triviais: “Mais do que um homem, contou Wilke aos seus camaradas, parecia um cavalo.” Os fabulosos atributos de Entrescu não o salvam, contudo, de um fim desgraçado às mãos dos seus soldados. Num episódio que deveria ser estudado por críticos literários mas também por psicanalistas, Entrescu é agredido até à morte e posteriormente crucificado, e o seu membro a abanar “pesadamente ao vento” é como que um estandarte da sua impotência para suster a revolta dos subordinados. Morto, o animal, o monstro, a coisa com vida própria, regressa à condição vegetal, a uma pesada murchidão, ao eterno repouso.

 

Este breve inventário de vergas imponentes e mangalhos mastodônticos não é uma compilação de amostras do génio metafórico aplicado à genitália masculina que nos ofereceu símbolos tão poderosos como “espingarda de carne” (agradeço a quem me chamou a atenção para esta preciosidade de Lídia Jorge) ou o chourição que aparece na charcutaria literária de José Rodrigues dos Santos. Aqui, trata-se apenas de detectar semelhanças entre personagens que partilham tão proeminente característica. Homens de acção (mafiosos, aventureiros, guerreiros e carteiristas) e pouca reflexão, embora Entrescu não seja um mero action man com pila de cavalo. O carteirista de Bellow é um representante da nova ordem social - o corpo arruma o intelecto – e é o único que não tem um final trágico (não conhecemos o seu destino). Os outros três são liquidados sem que aos assassinos seja dado um rosto: não sabemos quem mata José Arcadio, e Sonny Corleone e o general Entrescu são mortos por uma multidão de inimigos e de aliados, respectivamente. Haverá aqui um padrão de vingança psicanalítica? Não sei. O que é certo é que a conjunção de uma personagem de ficção e de uma pila grande é um mau prenúncio para a saúde das duas.


Segunda-feira, 04.07.11
Bruno Vieira Amaral

Na Ler deste mês:

 

"O aeroporto despeja pessoas a um ritmo constante. Quando atravessam as portas é impossível não sentirem uma pontinha de vaidade, mesmo que os olhares ansiosos que as seguem pertençam a agentes de viagem à espera do senhor Tamura ou da senhora Rasmussen. Reparei que entre esta classe de esperadores profissionais, cuja função consiste em passar o dia a exibir uma folha a4 com o nome de alguém que nunca viram, existe uma cumplicidade que se reflecte em códigos humorísticos inacessíveis aos restantes mortais, como no caso de piadas sobre o melhor local para esperar islandeses. E lá se vão sucedendo os tipos humanos: um casal de lésbicas finlandesas, um indíviduo com todas as condições indumentárias para gerir um bar de alterne com moderado sucesso, um cantautor de patilhas anacrónicas, um homem dos seus cinquenta anos bronzeado que reencontra a mulher pálida enquanto reza para não ter apanhado nenhuma doença venérea durante uma suposta viagem de negócios, outro casal que se reencontra sem demasiado espalhafato mas cujo marido cumpre o protocolo com um bouquet burocrático de flores e, porque me estava a incomodar a falta de um lateral-esquerdo nesta colecção, o Álvaro Magalhães, mais magro ao vivo do que na televisão."

 


Segunda-feira, 20.06.11
Bruno Vieira Amaral

No sábado, Lisboa conheceu uma agitação incomum. Milhares de pessoas entregaram-se aos prazeres hortícolas em pleno centro da cidade e, depois de descobertos os segredos da alface, da couve e da beterraba, aplaudiram o fenómeno Carreira. A RTP1, televisão de serviço público, mostrou grandes planos de lágrimas e suspiros a cada gemido microfónico do Tony. O multiplatinado cantor, acompanhado de uma assinalável trupe, cantou as desventuras, os amores falhados, as desilusões, os encornanços, mas tudo acabou bem, porque o povo quer é música. Da parte da manhã, cerimónia mais sóbria e solene, no mais prosaico Campo das Cebolas, com trezentos populares a assistir ao enterramento das cinzas nobelizadas debaixo de uma oliveira transplantada da província e com a sagrada terra vinda da ilha de Lanzarote. Pareceu-me beatificação secular, assim para o pagão, com oliveira telúrica, grega, e livro a acompanhar as cinzas, vá-se lá perceber a superstição literária. Podemos sair da religião, mas não há maneira de a religião sair de nós.


Bruno Vieira Amaral

O excepcionalismo lusitano já nos deu o imorredoiro mito da saudade, sentimento desconhecido de outros povos, que lidam mal com tamanha privação. Só um português sabe o que é a saudade, o sofrimento provocado pela distância da terrinha, da mãezinha e da merdinha. Os outros bem que se podem esforçar que nunca atingirão os cúmulos de sensibilidade a que estas três sílabas, como três degraus místicos, nos permitem aceder. Como nós gostamos de nos esvair em explicações poéticas sobre a saudade perante um estrangeiro! Ficamos logo em estado Amália Rodrigues, cobertos por xailes imaginários, pequeninos mas de alma em erecção, sardinhentos, afadistados, metendo por atalhos que normalmente acabam no beco sem saída do “é um sentimento impossível de explicar”, dito com superioridade civilizacional, como quem acusa o outro de não ter o equipamento místico adequado para captar as subtis reverberações da saudade.

 

Como o negócio da excepcional saudade lusitana já conheceu melhores dias, regressam outros, como a inveja. Ui, a inveja! Vejam lá que a última palavra d’Os Lusíadas não é amor, nem saudade, nem pátria, nem sequer salmonela, é inveja. Eu pensava que a inveja existia em todas as sociedades, que era um defeito universal, mas se me atrevo a dizê-lo em público levo logo com a última palavra d’Os Lusíadas como argumento insofismável. Nós é que somos invejosos. A inveja é nossa. Nacionalizámos a inveja e, para que os outros fiquem com uma pontinha de inveja por verem que a inveja é toda nossa, temos de exportá-la através de pipelines que atravessam o continente. Um finlandês, que só tenha razões para nos desprezar, abre uma torneira e sai-lhe um jacto de inveja distintamente portuguesa, potável mas um tanto fuliginosa. O finlandês, cujo aparelho cardiovascular não está preparado para acomodar a inveja portuguesa, fica um tanto abalado, cambaleia, recompõe-se, começa a olhar com desdém para a casa do vizinho, para o irmão da mulher e para o carro do patrão e amaldiçoa-os em bom português: “ai, os filhos-da-puta!” Está criado um invejoso à portuguesa, que é a única maneira de se ser invejoso, porque os outros não conhecem a inveja, nem a saudade.


Domingo, 15.05.11
Bruno Vieira Amaral

"Mas entretanto, como qualquer profeta teria previsto, um dos habitantes tornara-se social-democrata. Quando o imperador entrou no carro dourado que o aguardava à porta da igreja, o social-democrata espetou-lhe um arpão quinze ou dezasseis vezes, mas felizmente, graças à típica falta de pontaria dos social-democratas, não houve danos."

 

Mark Twain, A Grande Revolução em Pitcairn, Alfabeto, trad. Sofia Gomes


Domingo, 03.04.11
Bruno Vieira Amaral

À clássica pergunta se o eleitor compraria um carro em 2ª mão a determinado político eu respondo sempre que sim, desde que esse político não tenha experiência como vendedor de carros usados. Nos últimos dias descobri que Portugal não é, afinal, o país dos cafés; é o país dos stands de automóveis usados, semi-novos, com garantia e facilidade no crédito. Os vendedores não têm o ar higiénico e confiante dos colegas do imobiliário. Vê-se que têm muitas horas de contentores sem ar condicionado, muito sol das três da tarde na pele e no espírito, que transpira algo de réptil, muito pó da beira da estrada que lhes chega em nuvens carregadas de partículas de desencanto, muita conversa, poucas vendas, o que, tudo junto, faz com que sejam menos assertivos, mais desconfiados, com uma pontinha de desprezo na voz de cada vez que falam com potenciais clientes. Eles sabem que alguns carros de retomas não valem um caralho: estofos rasgados, retrovisores partidos, riscos e amolgadelas, grandes manchas de ferrugem. No entanto, mantêm-se ali, estátuas pacientes, a espreitar do interior dos pré-fabricados a ver se o cliente se demora, se vale o sacrifício de se levantar e de explicar, uma vez mais, os extras, as facilidades, a biografia do anterior dono, as virtudes de um veículo familiar, os custos de um carro a diesel. Quando se dão ao trabalho, entusiasmam-se. Não querem ouvir falar em pagamento a pronto, porque isso significa, regra geral, um carro baratinho: “pode dar esse dinheiro de entrada e fica a pagar uma mensalidade de 70, 80 euros, e fica muito mais bem servido com este carrinho / este aqui não tem nada a ver, estamos a falar de um carro completamente diferente, não é que o outro seja mau, mas este é um carro completamente diferente, é um carro para mais 10, 15 anos.” É então que nos arrastam para o mundo paradisíaco do crédito, das taxas de esforço, dos 48, 72 meses. Quando lhes fazemos ver que o crédito não é uma hipótese, desanimam, amuam, mostram-nos o pior carro do stand para que vejamos o que nos espera se insistirmos na loucura de não pedir o filho-da-puta de um empréstimo: “para esses valores só temos este aqui” e o carro é tão miserável que eu penso seriamente em comprá-lo como antítese da opulência que grassa nas nossas estradas. Em vez de um carro que simbolize a potência e o luxo, hei-de comprar um carro frugal, franciscano e, nas manhãs de Inverno em que tiver de o empurrar para que ele pegue, juro que não irei pensar nas facilidades bancárias dos vendedores dos stands.


Quarta-feira, 09.02.11
Bruno Vieira Amaral

Parece que o grandiloquente Rogério Alves, o tal que se alegrou com a goleada que o Benfica sofreu no Dragão, faz parte de uma lista qualquer. É bom sinal. Talvez o Sporting feche as portas ainda este ano. E, para um clube que se gaba das linhagens, das dinastias e respectiva heráldica, é bonito ver candidatos do calibre de um Braz da Silva e de um Bruno de Carvalho. São milhões atrás de milhões. A este cenário juntam-se as inacreditáveis declarações de um funcionário do clube que, se tivesse vergonha na cara, tinha apresentado a demissão imediatamente. Enquanto isto, alguns leões miam contra o Benfica, lembram o Vale e Azevedo e arrenegam qualquer aliança com o FCP. A bipolarização do futebol português é um facto. Ainda bem.


Segunda-feira, 07.02.11
Bruno Vieira Amaral

É óbvio que os sportinguistas aproveitaram o pretexto do adeus de Liedson para chorar publicamente pelo clube. Foi nítida a sensação de se estar no fim de qualquer coisa, e não apenas da despedida de um jogador. Seria bom que os adeptos do Sporting se revoltassem, mas parece que aquilo só dá mesmo para chorar.


Quinta-feira, 03.02.11
Bruno Vieira Amaral


Quarta-feira, 26.01.11
Bruno Vieira Amaral

Quando é que este homem perde um jogo sem se queixar dos problemas físicos?

 

 


Terça-feira, 25.01.11
Bruno Vieira Amaral

...há falta de salas. Aqui.


Segunda-feira, 24.01.11
Bruno Vieira Amaral

Quase todos os comentadores e analistas dão José Sócrates como um dos derrotados destas eleições. Eu não vou dizer que Sócrates foi um dos vencedores, mas foi significativa a forma rápida e indolor com que a derrota foi assimilada. Parecia aquela tristeza fátua que sentimos pela morte de um parente afastado: evidentemente a notícia não dá para desatarmos aos pulos e, por hábito e decoro social, manifestamos uma discreta comoção, um semblante vagamente pesaroso. Este foi o Sócrates de ontem à noite. Despediu-se do tio-avô sem dramas e vamos lá falar do que aí vem, que o povo quer é estabilidade. O discurso de Passos Coelho foi muito inteligente, mas Sócrates, uma vez mais, mostrou que é um verdadeiro animal político e que ainda é muito cedo para lhe fazerem o funeral.


Bruno Vieira Amaral

Miguel Gaspar, no Público: "Nobre celebrou uma votação surpreendente, com sabor a vitória. Mas a festa parecia mais a de um grupo de auto-ajuda do que outra coisa." De facto. Agora que se provou que há espaço para candidaturas presidenciais fora do espaço partidário, espero que as próximas sejam mais profissionais e protagonizadas por pessoas politicamente mais hábeis. Nobre pode reclamar uma vitória moral, mas em política, como no resto, essas vitórias não contam para nada - Alegre devia ter percebido isso. Aliás, este resultado de Nobre serve apenas para dar visibilidade a múmias do politicamente correcto, como Luís Osório, e a outros bem-intencionados profissionais (casal Represas), embrulhados numa névoa de optimismo laurindalvesco. A cidadania tem de ser mais do que isto. Esperamos que, daqui a cinco anos, a "sociedade civil" encontre um candidato para ganhar e não outro São Francisco de Assis.


Sábado, 22.01.11
Bruno Vieira Amaral

 

 


Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

Quinta-feira, 20.01.11
Bruno Vieira Amaral

Com brilharetes deste género, Cavaco ainda comete a proeza de não ganhar isto à 1ª volta.



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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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