Domingo, 17.02.13
Tiago Moreira Ramalho

Aconteceu-me e, perdoe o dr. Ulrich, não aguentei, aguentei. Também tratei de arranjar nova casa. Solitariamente, como deve ser, por vezes. Chama-se Malconfort.


Terça-feira, 18.09.12
Tiago Moreira Ramalho

A Douta Ignorância termina aqui. A troco de um café (que nem chegámos a pagar) trouxemos o Bruno Vieira Amaral para esta brincadeira. Porque foi isso que isto sempre quis ser: uma forma de nos divertirmos com meia-dúzia de frases pontuais, fossem elas publicadas no blogue ou trocadas nas caixas de e-mail. Tentámos fazer coisas sérias, entrevistas e afins, mas o trabalho inerente a tudo o que não tem por vocação única o puro gozo sempre nos fez deixar cair os 'projectos'.

Dois anos e meio depois deixamos aos historiadores dos séculos vindouros uma colecção (sim, com dois cês, que este blog começou antes de Vasco Graça Moura debater o novo Acordo Ortográfico com a extraordinária Edite Estrela) de duas ou três prosas menos simpáticas, incontáveis prosas profundamente ofensivas e um potencial desagrado em alguns corações particularmente atacados pelas peninhas douta ou ignorantemente atrevidas. Isto para não esquecer o texto fundamental do BVA sobre caralhos. Para que continuemos a receber o acostumadamente fabuloso rendimento que sempre daqui retirámos, o link para os posts da Priscila será um contador de ad clicks do Google. Caso queiram contratá-la para o vosso blog, saibam que A Douta Ignorância SAD detém 65% do passe. Quanto ao resto, não sabemos se deixamos saudades, mas vamos ter algumas.

 

RPR

TMR


Sábado, 01.09.12
Tiago Moreira Ramalho

Apesar de já ter alguns dias, o que já permitiria, com jeitinho, a irrelevância blogosférica, este artigo do João Galamba (e, a propósito, o artigo que ele cita) contém, a meu ver, um conjunto de erros que é preciso esclarecer. Isto não sem antes dizer que a blogosfera, regra geral, não é o melhor sítio para se discutir questões tão técnicas, seja de que ciência for. A ciência económica, para a qual cada um parece ter uma predisposição ‘relvista’ para se auto-certificar, traz problemas acrescidos. Mas, como diriam nuestros hermanos, the damage is done, por isso vamos a isto.

Os custos de trabalho por unidade produzida (CTUP) não nos dizem, de facto, nada de relevante sobre os salários. Mas também ninguém credível na área de economia internacional seria capaz de o dizer. Os CTUP são, sim, e só quando analisados nas suas variações, um instrumento de avaliação da evolução da competitividade de um país, pela via dos custos do trabalho.

Sabemos de ciência certa que, com tudo o resto constante, baixando os salários vamos ter um ganho de competitividade (os CTUP baixam). O ganho de competitividade é trazido pelo facto de um dos custos de produção ser mais baixo e, por isso, os preços dos bens exportados poder baixar. O efeito é semelhante ao da desvalorização, sendo que neste último caso o que acontece é que em vez de uma diminuição do salário nominal, existe um desconto generalizado nos produtos exportados e uma quase certa diminuição do salário real. O fundamental é que um método nos torna mais competitivos por diminuir os custos dos nossos produtos, enquanto o outro nos torna mais competitivos por diminuir «artificialmente» o preço final.

A validade da variação de salários para ajustamentos de curto-prazo não invalida que o que é naturalmente bom para uma economia é, como diz o artigo da Vox, evoluir na sua tecnologia. No entanto, contrapôr as duas medidas é absurdo, pois uma diz respeito ao longo-prazo e outra ao curto-prazo apenas. Não é agora, no meio de uma crise como a que vivemos, que a indústria portuguesa vai virar radicalmente e que os nossos trabalhadores vão mudar as suas qualificações. Neste momento, é preciso um ajustamento rápido. E de facto diminuir salários é rápido (o que não significa que seja exequível).

E aqui chegamos ao ponto fundamental. Sim, os CTUP são um instrumento de medição da variação da competitividade. Sim, a melhor solução é melhorar a tecnologia, o que não exclui a pertinência de um ajuste de curto-prazo nos salários nominais. Não, não me parece que seja possível, nos dias de hoje, diminuir generalizadamente os salários através de uma medida centralizada, o que torna a discussão sobre os CTUP mais uma curiosidade científica do que um potenciador de mudanças políticas.


Sexta-feira, 10.08.12
Tiago Moreira Ramalho

Hoje acordei para ir ao dentista e enfiei-me a seguir num carro durante horas a fio, com um termometrozinho a roçar-se constantemente no número trinta e cinco, para chegar àquilo a que muitos, com alguma propriedade, chamam de parvónia. Não estarei seguramente saudável, fresco, airoso e fundamentalmente lúcido. E apenas porque a loucura não raras vezes traz fortuna escolhi este momento (que se segue à entoação do «Hino à Alegria» de Beethoven ali no sino da igreja da aldeia, numa clara demonstração que o nobre povo das Beiras não precisa de guardar moscas num S. Carlos) para me debruçar – ó p’ra mim – sobre o que Seabra, Zita Seabra, veio dizer (ou não) à televisão e ao eterno Crespo, de quem, a propósito (ou não), é editora.

Debrucemo-nos, ora pois. Um elementar facto é que Zita Seabra insinuou que o PCP espiava órgãos públicos portugueses a mando da (ou em colaboração com, como o Politburo luso gostaria de pensar, caso tudo isto não passe de um deliriozinho seabrino) República Democrática Alemã. Não foi em momento algum dito que equipamento era usado ou onde era incorporado. Por isto, e ao contrário do que se possa pensar, as declarações não se desmentem a si próprias. Muito pelo contrário. São particularmente carentes de desenvolvimento por (i) serem proferidas por uma destacada funcionária do partido à época e por (ii) nos levarem a pensar que uma organização política, com representação parlamentar e que chegou a integrar governos durante essa década, estava ao serviço de um outro Estado e pronta a lesar Portugal. Às declarações não faltam, portanto, credibilidade, vinda de quem as profere, e importância, dado o conteúdo.

Seria, por isto, de esperar que o PCP não fizesse pose de diva respondendo que as afirmações da «pessoa» não têm «crédito» nem «merecem comentário». O PCP foi acusado de uma prática gravíssima que coloca em causa a sua imagem pública (afinal, Zita Seabra é conhecida essencialmente por expor, com mais ou menos rigor, historietas internas do partido) e a reacção natural deveria ser um processo judicial. E porque isto não diz apenas respeito ao PCP, mas sim ao país,  deveria ser a própria PGR a avançar, caso não haja processos movidos pelas partes. Haja provas de tudo isto e ainda há muita gente viva para mandar para a cadeia. Inclusivamente, quem sabe, a própria Zita, que, a acreditar nas suas declarações, foi cúmplice de traição. 


Domingo, 29.07.12
Tiago Moreira Ramalho

A crítica, seja ela do que for, deve servir mais o propósito da gradual redução da estante que o seu acelerado crescimento. Há aqui algum exagero, mas, ainda assim, uma crença genuína no fundamental.  A crítica deve servir de filtro e deve o crítico, mesmo que por vezes de forma injusta, impermeabilizar de tralha inútil o consumidor. Porque se tudo for bom, e cada vez mais tudo me é apresentado como bom, o crítico torna-se inútil, um mero divulgador com performance menos interessante que um singelo anúncio numa auto-estrada qualquer. Abra-se um suplemento cultural por estes dias e contemple-se o fenómeno. Na música, quase tudo é corrido a quatro estrelinhas para cima, que nunca se sabe onde estará escondida uma grande obra-prima e é sempre bom pertencer ao grupo dos que a «encontrou». Já a literatura, fôssemos nós viajantes vindos do futuro, diríamos numa das fases mais profícuas e de maior qualidade de que há registo. No cinema o fandango não é diferente. E assim se tornam inutilidades impressas muitas daquelas páginas onde pululam exércitos de gente para quem a escolha, essa puta velha, não é coisa com significado sério. As excepções, aqueles que se dão liberdades de dizer, com seriedade e rigor, que o que leram, viram ou ouviram é uma abismal bodega, rareiam, e encontrá-las, essa tarefa hercúlea, vai sendo cada vez mais dispendioso.


Tiago Moreira Ramalho

«Não é que me lembre, mas quando as férias eram largas e simples como um tapete largo e simples, como uma mesa larga e simples, havia quem, nas mais diversas latitudes, gastasse as horas mortas do Verão a escrever postais ou cartas, um hábito dos bons que se foi perdendo, com graves danos para a saúde da nossa caligrafia e para a reconstrução futura da memória que interessa e de que hoje não cuidamos, atarefados na partilha pouco parcimoniosa de fotos bizarras e de vídeos de gatinhos com tudo e gatonas sem nada. Muitas vezes, porque o mundo é vasto e os CTT não eram mais rápidos que a sua própria sombra de três letras, a missiva só chegava à caixa de correio uns dias depois da pessoa-remetente regressar à casa de partida e após ter ido beber um café ou uma groselha com a pessoa-destinatário, ocasião não raras vezes aproveitada, pela primeira, para relatar as suas aventuras no estrangeiro ou no Portugal marítimo, abusando nos detalhes e exibindo as 36 fotografias que comprovavam parcialmente o testemunho. Esse fenómeno de desfasamento temporal era quase sempre comemorado com um telefonema da pessoa-destinatário à pessoa-remetente, em que a pessoa-destinatário, depois de abreviar a conversa com um dos progenitores da pessoa-remetente, exclamava: "Olha, chegou hoje o teu postal!" Por incrível que pareça, nada disto entristecia quem quer que fosse. "Ah, chegou hoje? Está bem." Não era mentira nenhuma. Regra geral, aquilo estava mesmo bem. Éramos todos belos e bonitos. E feios, muito feios.»


Daniel, no Rulote.


Terça-feira, 24.07.12
Tiago Moreira Ramalho

Um website que promove encontros amorosos entre homossexuais foi abaixo por excesso de tráfego quando chegaram a Londres as primeiras comitivas olímpicas. O Grindr, um espacinho criado para que o homossexual carente possa encontrar, com alguma facilidade e rapidez, um companheiro, um compincha ou simples amizades, ficou fora de serviço, para grande consternação colectiva. E disto se retira uma de duas: ou estão os londrinos particularmente curiosos sobre as putativas habilidades olímpicas e na tradução destas em benefício sério para a relação amorosa (benefícios que não serão, com tanto aquecimento, despiciendos), ou estão os atletas olímpicos preocupados com a falta de motivação que lhes poderá trazer a satisfação solitária durante duas longas e extenuantes semanas. Isso tudo, ou uma simples coincidência que traz os Jogos Olímpicos desta segunda era para um imaginário bem mais próximo dos da primeira.


Tiago Moreira Ramalho

Este texto de António Araújo, como quase tudo o que escreve António Araújo, é um monumento.


Sábado, 21.07.12
Tiago Moreira Ramalho

O jornalismo de investigação está numa época áurea. Ainda hoje vi, num noticiário, uma jornalista a «investigar» as ofertas de emprego nos centros do IEFP. Chegou a jornalista à conclusão extraordinária que há gente com o ensino básico a ganhar mais que engenheiros. Isto porque encontrou um empregador que estava disposto a pagar 800€ por um mecânico e outro que apenas pagaria 600€ a um engenheiro. Dois casos e uma generalização. E de gente com estudos superiores. Não admira que se receba mal.


Quinta-feira, 05.07.12
Tiago Moreira Ramalho

Lamento a minha condição. Hoje fui surpreendido com a decisão do Tribunal Constitucional, o que muito m’arrelia, porquanto eu ainda devia ser capaz de detectar, mesmo que com algumas dúvidas, aquilo que constitui uma violação de direitos fundamentais. Os cortes de subsídios dos funcionários públicos, ao que parece, são um exemplo e eu, palerminha, não m’apercebi.

Do que me apercebi, no entanto, é que o Tribunal Constitucional nos permitiu uma grande festa sináptica. A decisão de cortar os subsídios, tomada dada a dificuldade que constitui cumprir o acordo de estabilização, é considerada inconstitucional. No entanto, no ano em que esse corte é decidido, a inconstitucionalidade é «perdoada» porque o processo já vai avançado e porque pagar os subsídios este ano nos traria dificuldades no cumprimento do dito acordo. Eu não me contive e dei uma cambalhota. 

A seriedade da decisão do Tribunal Constitucional é desfeita pela própria instituição. Se fosse deveras um exemplo tão descarado de desigualdade de tratamento de cidadãos por parte do Estado, se fosse realmente um atentado grave aos direitos fundamentais dos portugueses, a decisão nunca poderia ser esta espécie de «quase-decisão». Não discuto a inconstitucionalidade dos cortes. Nem tampouco discuto o facto de isto não passar tudo de uma grande palhaçada. 


Tiago Moreira Ramalho

Este texto do Michael Seufert não interessa pelo que diz do autor. O texto interessa por ser um manual sobre certa gente.


Sexta-feira, 29.06.12
Tiago Moreira Ramalho

Imaginar uma actuação do Estado que não tenha um efeito moralizador, mesmo que muito subtil, e mesmo que a actuação não tenha esse propósito, requer, parece-me, uma capacidade criativa sobre-humana. E digo capacidade criativa e não analítica por acreditar francamente que só um nível de criatividade superior poderia suportar tal descoberta. No caso do aborto em particular, tanto a despenalização como a inclusão do tratamento no serviço público de saúde são actos moralizadores. De uma certa ideia de moral, é certo. Mas moralizadores, ainda assim. Ao mesmo tempo, qualquer coisa que se decida sobre taxas moderadoras na área também terá, seja explícita ou implicitamente, um efeito moralizador. Seja a isenção, o pagamento generalizado ou o pagamento em casos particulares, qualquer opção denota uma postura da comunidade perante o serviço médico e perante o acto em si. E é por isto que acusar qualquer opção de comportar uma qualquer visão moral é redundante.

A decisão colectiva que levou à despenalização do aborto foi o que foi e as suas consequências são o que são. Não incluir o aborto no serviço público de saúde é, tendo em conta a sua natureza, um disparate. No entanto, e precisamente porque o Estado português investe na distribuição de métodos contraceptivos, consultas de planeamento familiar e restantes meios para que os casais possam evitar o que se convencionou chamar «acidentes», é também um disparate encarar da mesma forma – ainda que tudo seja legal – um aborto motivado por um «acidente» e um aborto motivado por risco de vida da mãe, por exemplo. Isto, lamento, seria sem dúvida «moralizador». E de uma «moral», essa sim, inaceitável. Pode ser chamado de tudo, mas agrada-me que o Estado português não acomode uma visão «contraceptiva» do aborto, ao mesmo tempo que garante a saúde (ou mesmo a vida) de mulheres cujo «acidente» não tinha forma de ser evitado.


Quinta-feira, 28.06.12
Tiago Moreira Ramalho

São poucas as grandes crises que não precedem grandes mudanças. Porque, por um lado, uma grande crise põe a nu os excessos e defeitos das comunidades afectadas e porque, por outro lado, no meio da miséria geral, a percepção é a de que pouco há a perder em mudar. Se, por um lado, traz saúde tirar as roupinhas às falhas, há que haver sempre um equilíbrio na verve progressista de quem julga que o mundo é um gigante erro a cada manifestação menos boa.

A construção europeia foi feita num suceder de remendos a manifestações menos boas desse possível grande erro. Os primórdios responderam a uma guerra e a um regime nefasto mais a leste. Os avanços subsequentes foram reacções a mal-estares, europessimismos ou simples rebentar de costuras. Hoje, perante uma nova grande crise, falamos de novo em mudar tudo. Falamos em tratados orçamentais, falamos em governos europeus, falamos em federalização de dívidas, falamos em mudanças profundas da condução de política do BCE. Cada pequeno interveniente procura, no seu estiradorzinho de arquitecto institucional, atirar uns pozinhos de perfeição à bagunça reinante. Tudo ao mesmo tempo que se demonizam uns, infantilizam outros e se mantém a rebaldaria em lume brando.

Não há nada que impeça um tratado orçamental, como não há nada que impeça um BCE diferente, ou um governo europeu, ou qualquer outra mudança em cima da mesa. O problema não são necessariamente as possíveis mudanças, mas sim a tremenda falta de credibilidade das nossas regras. O funcionamento europeu é de uma instabilidade impressionante. As poucas regras que existem são sistematicamente violadas, roubando-se estabilidade aos que vêm por um leve respirar dos que estão. E não há interveniente político, por muito mentalmente diminuído que seja, que não se sinta no direito de impor mudanças profundas a bem de ridículos ganhos presentes. A atitude poderia resumir-se na magna voz do inaudito parlamentar António José Seguro, que foi capaz de, numa discussão sobre a posição de Portugal no Conselho Europeu, dizer que se o BCE emprestasse directamente aos Estados, Portugal já podia ter subsídios de férias e Natal para os funcionários públicos e pensionistas. Uma mudança fundamental no funcionamento europeu para que Portugal pagasse dois subsídios. Seriam óptimos, os subsídios, não tenhamos dúvidas. Mas melhor ainda seria manter um módico de dignidade nacional. Isso, ou passarmos pelos pequenos hippies da União.


Quarta-feira, 27.06.12
Tiago Moreira Ramalho

Na Comissão de Orçamento e Finanças, Honório Novo pede defesa da honra da bancada a que pertence quando Michael Seufert e Vítor Gaspar resumem as consequências das propostas comunistas na elementar bancarrota portuguesa. Ao mesmo tempo, o cada vez menos verosímil António José Seguro, com punho a meia haste, condena o governo de arrastar o país para uma situação insustentável. Um governo eleito há escasso ano atrás e cuja principal missão foi a implementação de um Acordo de Estabilização Económica (é bom regressar às antigas designações, tão cá de casa). A insustentabilidade portuguesa, essa, resume-se a um desvio orçamental, naquele que é o período de maior incerteza da economia portuguesa das últimas décadas, e a um inevitável aumento do desemprego. Uma «insustentabilidade» de um modo geral bastante previsível.

Razão tem António Barreto (como de costume, aliás). Nestas alturas não há nada como ouvir gente que por cá anda a gastar estradas há tempo suficiente e cuja memória não morre nem pode matar. E o que diz António Barreto é confrangedoramente simples: todos sabíamos o que ia acontecer. Há um ano, quando o Acordo foi assinado, sabíamos que íamos ter anos sem crescimento. Sabíamos que, tal como no passado, íamos ter desemprego, cortes de despesas, aumentos de impostos. E espantoso no meio de tudo isto é a surpresa geral cada vez que há uma variação decimal de cada indicador. Isso e as «desonras», as «insustentabilidades» e restante folclore resultantes de esquecimento, ignorância ou fundamental desonestidade.


Quinta-feira, 19.04.12
Tiago Moreira Ramalho

Segundo reza a lenda, Napoleão tentou, durante um dos seus exílios, suicidar-se por envenenamento. A tentativa saiu frustrada. O grande imperador foi suficientemente idiota para fazer o seu corpo rejeitar todo o veneno, tão desmesurada foi a quantidade que ingeriu. A história tem interesse por mostrar a extraordinária capacidade que a nossa idiotice tem de nos impedir de fazer mal a nós mesmos. E sim, esta crónica é sobre o Tratado Orçamental Europeu (TOE).

Ao contrário do que os seus produtores muitas vezes imaginam, o Direito Económico tem pouca margem de acção. Pouco se pode legislar em matéria de instrumentos de política económica, porque eles não são independentes entre si. Além disso, os fenómenos económicos são por vezes de tal forma intensos que levam ao desprezo básico pelas normas existentes. Vejamos o Pacto de Estabilidade e Crescimento, constantemente violado pelos países do euro. Vejamos o BCE, que não pode comprar dívida dos estados, mas passou os últimos meses a injectar dinheiro no mercado bancário para que fossem os bancos privados a fazê-lo.

As leis económicas não resultam de um modo geral, mas esta em particular está condenada ao fracasso. A meia Europa falta já a política monetária. O TOE significa acabar com o que resta da política económica. É veneno a mais. Basta esperarmos pela normalização das economias para vermos o grande TOE a cair por terra. Governo algum respeitará a regra. Começando pelo primeiro a ratificá-la: o nosso.

 

Publicado no i.


Quinta-feira, 12.04.12
Tiago Moreira Ramalho

Tenho andado manifestamente desaparecido. Coisas da vida. No entanto, há momentos em que se impõe um comentariozinho. E o presente é apenas para dizer que dói no coração que um artigo em que se inclua o seguinte naco de filosofia seja sequer matéria para discussão e não apenas para divertimento maldoso à conta de quem o escreveu:

 

«E a opção gay é uma forma de negação radical: porque rejeita a relação homem-mulher, ou seja, o acto que assegura a reprodução da espécie. Nas relações homossexuais há um niilismo assumido, uma ausência de utilidade, uma recusa do futuro. Impera a ideia de que tudo se consome numa geração – e que o amanhã não existe. De resto, o uso de roupas pretas, a fuga da cor, vão no mesmo sentido em direcção ao nada.» Daqui.


Terça-feira, 21.02.12
Tiago Moreira Ramalho

Por vezes vou em transportes públicos e vejo gente banal a tapar a boca enquanto fala ao telemóvel. Um instinto estranho leva-me a desconfiar dessas pessoas. Acho sempre que estão a tramar alguma. O caso é que, muito provavelmente, estão simplesmente a ter conversas privadas que não têm de ser tornadas públicas pelo simples facto de tomarem lugar onde tomam. Quando penso isto, o instinto acalma e até as respeito um pouquinho.

No caso da conversa de Gaspar com Schauble, dificilmente se pode nutrir simpatia pela parelha ou condenar a TVI. Ambos os ministros sabiam perfeitamente que no lugar onde estavam até as partículas de pó têm ouvidos. Ter aquela conversa ali, no plenário, em vez de a terem por telefone ou em privado um par de horas mais tarde foi francamente inconsequente. O Poder deve ser reservado em matérias específicas. No caso, o Poder confiou parvamente no seu mais forte opositor. O que aconteceu depois foi, por isso, muito bem feito.


Domingo, 12.02.12
Tiago Moreira Ramalho

Há em mim sincera afecção pelo movimento monárquico português. E se é certo que lhes aprecio cada pequena particularidade, refiro-me aqui principalmente à soberba criatividade revelada em cada actividade. Eles trepam edifícios altos para hastear bandeirinhas mortas. Eles passeiam de barco pelo simples prazer de desembarcarem cantando numa praia qualquer. Agora fizeram um manifesto. 

Não há mal aqui. Os manifestos são coisa preciosa e este tem as suas virtudes. Avisa-nos que “vivemos dias difíceis” e adverte-nos da dificuldade de “dar uma esperança real”. Felizmente, informa-nos que “Portugal precisa de um rei”, ideia muito reforçada pela necessária “justiça histórica”, que deve ser severamente aplicada a um regime que foi “imposto ao nosso povo pela lei das armas e precedido de um grave homicídio”.

Tudo isto é evidente. Preocupa os monárquicos que a República tenha sido implementada à custa de sangue. Estranha-se o silêncio sobre a nação que nasceu com um barbudo a bater na mãe. Para quando uma dose de “justiça histórica” aqui? Para quando quiserem, mas sempre com a expectativa esclarecida: mal nos reunamos a Castela, de Marrocos virão cartinhas de desagrado pela desfeita.

São raríssimas as mudanças de regime feitas sem sangue e desconhecidos regimes perfeitos. No entanto, é seguro dizer que invasõezinhas semanais de grupelhos revolucionários não dão saúde. A beleza e a força de um regime não estão na sua forma, mas na sua estabilidade e dignificação. Com ou sem coroas.

 

Publicado no Jornal i.


Sexta-feira, 27.01.12
Tiago Moreira Ramalho

O reconhecimento público, coisa pela qual a espécie arranca caras e cabelos, é coisa que pode magoar o pescoço ou partes alternativas da figurazinha que expomos tão zelosamente às massas. Isto é particularmente grave quando se é o José Raposo, facto que se me assomou como evidente quando, perdido nos pensamentos vulgares de uma viagem de eléctrico, que agora exige ao amável consumidor o pagamento de dois euros e oitenta e cinco cêntimos, ouvi, atrás de mim, num jeito manhoso de falar, uma senhora muito risonha afirmando, à cautela, enquanto apontava, ‘É o Zé Raposo, é o Zé Raposo’. Era o José Raposo, que enroladinho no banco do canto, com a calvície mal disfarçada por uns vistosos caracóis que se propagavam pelo espaço envolvente, respondeu, com o sorriso de quem preferia estar num outro lugar, que sim, que sim, que era. Gostava muito dele, a senhora, que continuou repetindo, numa desmesurada emoção, que era o Zé Raposo, enquanto dava pancadinhas no peito do senhor que a acompanhava. O senhor anuiu; também ele achava que se tratava do José Raposo. Criteriosa na crítica, disse-lhe que ele estava muito bem; tanto nas novelas em que entrava como naquelas em que ela julgava encontrá-lo, mistificações que o senhor, solícito, rapidamente dissipou. De espírito elevado pela discussão que estava a ter, naquele espaço e naquele tempo, com tão vetusta figura, a senhora do falar particular não hesitou e aplicou cirurgicamente dois pares de chapadinhas no pescoço e na bochecha esquerda do Zé, que ria, e eu ria com ele, e que rezava, e eu rezava por ele. O José acabou por sair na paragem seguinte, provavelmente decidido a fazer a restante viagem pela segura calçada que permite a fuga educada. Despediu-se de um querido, que ria comigo, e lá foi. A senhora assoou-se e saiu também. Saíram todos e eu, vulgarmente pensando, percebi de uma vez por todas que ser o José Raposo não traz vantagem, não é coisa de querer. Não há como a experienciazinha, para aprendermos boas lições.


Tiago Moreira Ramalho

Agora temos linhas, mãos e uma insinuação de genitália italiana. Bravo!


Segunda-feira, 16.01.12
Tiago Moreira Ramalho

Todos os governos têm pelo menos um joker. No actual poderíamos escolher entre Miguel Relvas e Miguel Relvas, mas direccionamos o nosso aguçadinho sarcasmo generalizado a Álvaro Santos Pereira. O ministro é calado, e por isso incompetente. Ao ministro falta carisma, e por isso força. Isto destrói-lhe até as mais óbvias intervenções.

Qualquer estrangeiro que venha a Portugal acaba enfiado na pastelariazinha de Belém. Adoram. Surpreendentemente, procurar o mesmo bolinho no sítio de onde vêm implicará uma pecaminosa perda de tempo. Marcelo Rebelo de Sousa avançou com uma explicação muito plausível. É que, segundo ele, o pastel de nata é bom é quentinho, então exportá-lo tira-lhe qualidade. Chega lá frio e, arriscamos, rijo. Claro que tamanha clarividência só poderia vir de alguém que sabe imenso de Direito. Eu encontro problemas semelhantes quando quero comer um croissant, ou quando quero uma fatia de pizza. Nada tem sabor, nada tem encanto. Tudo duro e sem jeito.

O que o ministro disse não implica subsídios, políticas, leis e agências. Apenas demonstra uma tentativa de compreender um problema real e até hoje sem solução. O facto é que alguns países conseguem e outros não. Os outros países conseguem e o nosso não. Não há objectivo maior para o economista que entender isto. E não há função maior para um ministro que resolver o problema.


Tiago Moreira Ramalho


Sexta-feira, 13.01.12
Tiago Moreira Ramalho

A Rita Blanco, uma personagem extraordinário fora das telas, apareceu na televisão para falar sobre o último filme de Canijo. Como qualquer pessoa na sua situação, aproveitou para deixar uma mensagem política, nomeadamente acerca dos cortes nos subsídios. «Um país sem cultura não é um país, é uma anedota», disse ela para que depois todos repetíssem. Disse ainda que o secretário de Estado era o pior possível. Lá terá alguma razão, ou talvez não. Dessa ‘Cultura’, com maiúscula e governo, percebo nada. O que, no entanto, é interessante é que no meio de tanta reverberante cultura à espera de um subsídio que a accione, as reacções aos quase dez minutos de espaço televisivo dado à Rita Blanco cingiram-se, única e exclusivamente, ao minutinho em que lançou comentários dispersos à governação e ao futebol. O restante tempo que passou a falar sobre a construção do filme, sobre o método de Canijo, sobre os diálogos e toda a restante parafernália que tem de ser mantida foi completamente omitido das notícias e das análises posteriores. A parte mais relevante da intervenção, o conteúdo mais elevado que nos trouxe, a cultura que veio ensinar à televisão, tudo isso foi simplesmente ignorado. Eu não sei se são precisos mais subsídios e se é preciso outro secretário de Estado. O que me parece, muito francamente, é que estamos todos muito bem uns para os outros.


Tiago Moreira Ramalho

Sendo possivelmente, junto do porco, o animal com a pior imagem na mente colectiva, é difícil pensar em direitos fundamentais para galinhas. As galinhas são as aves tristes que não voam, são as aves mortas que correm, são as barulhentas parideiras de ovos para as nossas tartes e gemadas. Ainda assim, pessoas como Peter Singer ocupam décadas das suas vidas a defender o direito destes animais a esticar as asinhas. E a preocupação gerou frutos: é, a partir deste ano, proibido manter as galinhas nos tradicionais galinheiros que as empilham nas tantas explorações agrícolas por essa Europa fora.

Para muitos parecerá tique moderninho. Será até considerado por muitos uma lei iníqua, porquanto obrigará a um aumento nos custos de produção de ovos e, por isso, em aumentos de preços. No entanto, pensar no bem-estar animal é tão extravagante como pensar no bem-estar dos negros ou das crianças. Também se poderia pensar nos defensores dos negros ou das crianças como patetas ou até acusá-los de provocarem aumentos nos preços, mas não o fazemos. A verdade é que estas mudanças de avaliação derivam da percepção do custo social de cada um dos casos. Escravos produzem bens mais baratos, mas a sociedade dá mais valor à liberdade. Galinhas que não se mexem produzem ovos mais baratos, mas parecemos dar mais valor ao seu bem-estar. Estamos mais humanos? Nem por isso. Estamos simplesmente diferentes. 


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Tiago Moreira Ramalho

«O partido que em 2007, na descriminalização do aborto até às 10 semanas, afirmou confiar às mulheres e só a elas a decisão de terminar ou não uma gravidez demonstra assim não as considerar capazes para tomarem a decisão de iniciar e se responsabilizarem por uma.» (Fernanda Câncio, no Jugular)

 

Independentemente da posição que cada um possa assumir sobre o aborto (ou interrupção voluntária da gravidez) e o aluguer de barrigas (ou empréstimo de útero para fins procriativos), a verdade é que este argumento, que nasce e morre no Direito Positivo e que em nada tem de justificação ética, é fortíssimo. O que não deixa de ser interessante. Dada a actual legislação, não permitir o aluguer de barrigas (ou a forma gira de o dizer) é simples esquizofrenia, mera incoerência lógica. Mesmo para alguém que, como eu, é contra a legalização do aborto.


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Quinta-feira, 12.01.12
Tiago Moreira Ramalho

«Bom dia, eu sou insuficiente renal e exijo que a doutora Manuela Ferreira Leite me venha pedir desculpas. O óbvio a mim não me assiste.»


Tiago Moreira Ramalho

Não existe, ao contrário do que se diz e escreve nestes dias, qualquer obrigação moral em tornar público que se é um maçon. Por isso não chega publicar ou dizer publicamente que os maçons têm de sair da sombrinha do secretismo se quiserem assumir cargos públicos. É preciso justificar que isso é uma mais-valia institucional.

O primeiro medo é o de a Maçonaria constituir uma plataforma facilitadora de corrupção. E constitui. E não podemos fazer nada para o evitar. Uma reunião sem aventais e martelinhos não é uma reunião maçónica, mas pode gerar corrupção. Qualquer associação de pessoas é uma potencial plataforma facilitadora de corrupção. Mesmo entre apenas duas. No limite, baniremos pequenas escapadelas amorosas.

O segundo grande medo é a existência de conflito de interesses, dado que a Maçonaria se rege por regras de obediência. De novo, isto é por natureza impossível de controlar. O político pode não ser maçon, mas obedecer a uma religião, a um guia espiritual ou até à mulher. Se a obediência a algo que possa conflictuar com a actividade política é um factor decisivo, então que se feche o Parlamento e venha a anarquia.

Mais do que discutir regras infundadas, seria bastante valioso discutir as que já existem e a sua aplicação. Porque o facto é que há um conjunto de nomes suspeitos de corrupção, mas nenhum processo de investigação aberto. O perigo está aqui, não nos aventais.


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Quarta-feira, 11.01.12
Tiago Moreira Ramalho

 

Esta imagem veio na última edição do Ípsilon, a ilustrar os Sermões do Pipi.


Terça-feira, 10.01.12
Tiago Moreira Ramalho

Quatro anos depois da proibição parcial do fumo em locais públicos, o governo pretende aprofundar, à medida dos «países mais avançados» (que delícia!), as restrições, passando a proibir o fumo em todos os locais públicos e possivelmente nas suas imediações. Justifica-se a proposta com uma suposta necessidade de reduzir a exposição de consumidores e empregados ao indesejado fumo e com um perigoso objectivo de reduzir o consumo.

Falar numa necessidade de reduzir a exposição de quem quer que seja ao fumo parece assumir que os malvados fumadores obrigam os que os rodeiam a absorver o pecado carbónico, quando a verdade é que simples presença no grupo dos consumidores ou dos empregados implica uma decisão prévia. E a decisão de pertencer a um destes grupos, assumindo que a gente é crescidinha e ainda consegue decidir racionalmente, tomou necessariamente em consideração, mesmo que de forma implícita, o fumo do tabaco. Por isso, se os indivíduos se tornaram consumidores ou empregados, significa que o fardo da exposição ao tabaco não é suficientemente pesado. Dava-lhes mais prazer que o fumo não estivesse lá? Possivelmente. Mas a lei deve servir para resolver conflitos ou promover soluções de coordenação que beneficiam todos. Ora, no caso, tudo está resolvido sem lei. A sua simples proposta mostra simples ignorância.

Posto isto, olhemos para o objectivo de reduzir o consumo. A coisa é particularmente macabra. O consumo de tabaco, acreditando que gera externalidades negativas fortes, já é fortemente taxado – o que me parece perfeitamente equilibrado. Mas é importante compreender que a taxação está ao nível da compensação. Há custos sociais óbvios no fumo de tabaco e, por isso, os fumadores compensam a sociedade. Muito diferente é essa mesmasociedade, mais do que ser compensada, querer assumir controlo sobre a decisão. Isto resume-se a básica infantilização e dominação de indivíduos, cujo direito a fazer o que querem das suas vidas roça o sagrado. Seja isso comer saladas ou, como escreveria o Eça, chupar cigarrinhos.

Pode ser que o movimento cívico-contabilístico dos restaurantes que, há quatro anos, gastaram milhares de euros em sistemas de ventilações e semelhantes empreitadas leve  a que a parvoíce seja impedida. Caso contrário, é apenas mais uma. Respire-se fundo e, no limite, chupe-se um cigarrinho. Mas longe as imediações.


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Segunda-feira, 09.01.12
Tiago Moreira Ramalho

É muito difícil imaginar uma sociedade que não tenha na geração de ambundância um propósito fundador. A organização social, seja ela qual for, persegue um objectivo de maximização de bem-estar, o qual está tradicionalmente associado a uma maior quantidade de bens disponíveis. Claro que algumas ideologias e sociedades levam este objectivo a uma obsessão, subordinando-lhe tudo o resto (e tantas vezes falhando, como na China maoísta). No entanto, uma certa base de acumulação de riqueza está (diria eu) sem excepção na fundação de qualquer associação de pessoas.

Interessantemente, é este imperativo que Kenneth Rogoff põe em causa num artigo publicado no Project Syndicate. Poderá ser pouco racional ter como objectivo o crescimento, precisamente porque a natureza social a que somos impelidos para o gerar anula os seus efeitos – se todos os rendimentos duplicarem, a riqueza relativa entre uns e outros mantém-se. Assumindo que as pessoas são mais afectadas pela sua percepção de riqueza (isto é, pela comparação da sua riqueza com as dos outros) do que pelo valor total de riqueza que possuem, o facto é que o crescimento não gerou mais bem-estar. Este argumento tem sido ostensivamente defendido por Robert Frank e é uma das bases de The Darwin Economy sobre o qual já escrevi aqui no blogue. Para provar esta ideia, Rogoff recorre-se de estudos feitos sobre a felicidade das pessoas, que mostram uma certa constância após a Segunda Guerra Mundial, apesar de os rendimentos terem crescido imenso.

O argumento pode parecer persuasivo à partida. O que nos deve mover deve ser a felicidade da população e se a população não está mais feliz, então o esforço do crescimento é uma espécie de fardo sisífico. No entanto, o argumento não resiste a uma análise um pouco mais profunda, a qual nos é felizmente apresentada por Will Wilkinson. Crescimento económico não significa apenas mais gadgets da Apple. O crescimento económico que, segundo os estudos de felicidade, teve efeitos nulos no bem-estar da população é o principal responsável por a vida hoje ser infinitamente menos penosa que a vida há um par de séculos atrás. Crescimento económico significa, à falta de prova em contrário, diminuição do sofrimento da população. E isso, mesmo que não seja percepcionado, é real – basta que comparemos as nossas vidas com as vidas que nos são relatadas de passados longínquos.

A observação, muito acertada, de que os rendimentos relativos são relevantes na avaliação do sucesso pessoal não invalida que o aumento generalizado de riqueza não seja um propósito para o qual valha a pena trabalhar. Até porque isso seria uma estranha negação do que nós somos. Afinal, desde que existimos enquanto espécie que nos preocupamos com a criação de mais riqueza e não apenas com a distribuição da que já existe. E porque é que o faríamos se, no final, tal não nos trouxesse real benefício? 


Tiago Moreira Ramalho

Parece que Portugal descobriu a Maçonaria. Fico muito contente. Agora se calhar é tempo de acalmar a euforia e começar a discutir o que os seus putativos membros fizeram. A mim pouco me importa que meia-dúzia de tipos andem de avental. E importa-me ainda menos que os pedreiros saiam do armário. A única coisa relevante aqui é o que é que os indivíduos fizeram. E, pelos vistos, fizeram o suficiente para que as organizações a que eventualmente possam pertencer sejam pequenas notas de rodapé.


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Domingo, 08.01.12
Tiago Moreira Ramalho

Apesar de usados pelos engenheiros sociais como formas de ‘reeducação’ – coisa muito bonita no nosso tempo – e pelos liberais como exemplo supremo da intromissão estatal nas decisões individuais, a verdade é que impostos sobre comportamentos, digamos, desviantes (os conhecidos sin taxes) seguem uma lógica mais pragmática que ética. Um imposto elevado sobre bens cujas procuras são de alguma forma ‘fixas’, seja porque geram algum tipo de habituação (tabaco e álcool) ou porque são muito necessários (medicamentos), é sempre um imposto com muito bom resultado. Um imposto alto sobre pão leva as pessoas a comprar brioches, mas um imposto alto sobre tabaco faz apenas com que as pessoas dêem mais dinheiro ao Estado. É um simples resultado económico, muito útil a quem faz orçamentos.

Claro que os governos, que têm de granjear da aceitação pública, preferirão sempre taxar de forma elevada os bens viciantes, cujo consumo é mal visto na sociedade, do que taxar de forma elevada os medicamentos, tão necessários a que haja (no limite) população para governar. O problema surge quando os impostos são incentivos tais que conseguem ser mais fortes que a rigidez da procura dos bens. E aí o grande educador fiscal vê-se num dilema: o «objectivo oficial» concretiza-se às custas do «objectivo real». As pessoas passam a consumir menos álcool e tabaco e, com isso, as receitas fiscais diminuem e os problemas orçamentais surgem. O pecado generalizado sustentava um orçamento que agora tem de se organizar na virtude. É o que está a acontecer, por exemplo, em Inglaterra, onde as receitas dos sin taxes estão a descer à conta da melhoria do comportamento dos bons bretões. Agora, a população virtuosa terá de ver os restantes impostos serem aumentados – aqueles que são tanto de santos como de pecadores. Ou então arranjar novas formas de vida fácil – a História está cheia delas.


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Quarta-feira, 04.01.12
Tiago Moreira Ramalho

«Estamos saturados de manhosos, desconfiados de moralistas, estamos sem ídolos, sem heróis, estamos encandeados pelos faróis dos que saltam para o lado do bem para escapar à turba contra o mal. Quando apanhamos, abocanhamos. Estraçalhamos. Somos uma multidão furiosa. Às vezes, erramos. A família Soares dos Santos não está a fugir aos impostos. Mesmo se vai fugir ao País. 

Só há um antídoto contra a especulação: a informação. É assustador ver tanta opinião instantânea sobre o que se desconhece. A sede de vingança tomou o lugar da fome de justiça. O problema não está na rua, nas redes sociais, nas esquinas dos desempregados. Está em quem tem a obrigação de saber do que fala. Do Parlamento, de Ana Gomes, de António Capucho, dos que pedem boicotes ao Pingo Doce(para comprar onde, já agora? No Continente da Sonae que tem praças na Holanda? No Lidl, que as tem na Alemanha?).
A decisão da família Soares dos Santos pode ser criticada mas não pelas razões que ontem se ouviu. A Jerónimo Martins não vai pagar menos impostos. E a família que a controla também não - até porque já pagava poucos.
Uma empresa tem lucro e paga IRC; depois distribui lucro pelos accionistas, que pagam IRC (se forem empresas) ou IRS (se forem particulares). Neste caso, a Jerónimo continua a pagar o mesmo IRC em Portugal (e na Polónia); o seu accionista de controlo, a "holding" da família Soares dos Santos, transferiu-se para a Holanda. Por ter mais de 10% da Jerónimo, essa "holding" não pagava cá imposto sobre os dividendos e continuará a não pagar lá. Já quando essa "holding" paga aos membros da família, cada um pagaria 25% de IRS cá - e pagará 25% lá. Com uma diferença: 10% são para a Holanda, 15% para Portugal.
Porque tomou a família uma decisão que, sendo neutra para si, prejudica o Estado português? Pela estabilidade e eficácia fiscal de lá, que bate a portuguesa. Pelo acesso a financiamento, impossível cá. E porque a família tem planos de crescimento que não incluem Portugal. 
Aqueles que se escandalizaram ontem deviam ter-se comovido também quando, há um par de meses (como aqui foi escrito), a Jerónimo anunciou como iria investir 800 milhões de euros em 2012: 400 milhões da Colômbia, 300 na Polónia... e 100 milhões em Portugal. Isto sim, é sair de Portugal. E quando a Jerónimo investir na Colômbia, provavelmente vai fazê-lo também através da Holanda, onde se paga menos. Estes são problemas diferentes dos que ontem foram enunciados: a falta de atracção de investimento de Portugal; e a instabilidade fiscal, que muda leis como quem muda de camisa, afastando o capital.
A família Espírito Santo tem sede no Luxemburgo. Belmiro lançou a OPA à PT a partir do Holanda. O investimento estrangeiro é feito de fora. Isabel dos Santos investe na Zon a partir de Malta. Queiroz Pereira tem os activos estrangeiros separados de Portugal. António Mota desabafa há dias que pode ter de criar uma sede fora de Portugal só para que a banca lhe empreste dinheiro. E a família Soares dos Santos tem um plano que não nos contou mas que ainda nos vai surpreender - feito com bancos estrangeiros e a partir da Holanda, que é uma plataforma fiscal mais favorável à internacionalização para fora do espaço europeu, uma vez que não há dupla tributação da Holanda para e do resto do mundo.
O que custa a engolir não é que Soares dos Santos tenha cortado o passado com Portugal, esse mantém-no e continua a pagar impostos. É que tenha cortado o futuro. É que tenha decidido investir fora daqui porque aqui não tem por onde crescer, para procurar lucros fora de Portugal, criar postos de trabalho fora de Portugal e, então sim, pagar impostos desse futuro fora de Portugal. Pensando bem, esse é um grande problema e é um problema nosso. Mas investir fora do País não é traição. É apenas desistir dele. E a Jerónimo já partiu para a Polónia há muitos, muitos anos - ou ninguém reparou?»

 

Pedro Santos Guerreiro, Jornal de Negócios.


Terça-feira, 03.01.12
Tiago Moreira Ramalho

Ao decidir transferir os capitais da sua empresa para a Holanda, Alexandre Soares dos Santos parece ter comprado o ódio generalizado das «elites esclarecidas». Lideradas por Nicolau Santos, autor de colunas de opinião invejáveis (invejáveis!), as almas indignadas atacam o homem que agora não pagará impostos em Portugal. Este homem que não é patriota, que é um Judas televisivo, que é, se nos permitíssemos tanto, um pulha.

Pois tudo isto consiste num conjunto de erros de facto ou erros de análise. Com a transferência, a única coisa que não paga impostos é a empresa em questão – uma empresa detentora de capitais financeiros que recebe coisa de 50% dos dividendos da Jerónimo Martins. A Jerónimo Martins continua a pagar todos os necessários impostos – IVA, IRC e restante molhada. Os Pingos Doces ainda são da gente, malta, ainda nos pagam impostos. Isto para não referir (referindo) a quantidade de empregos que a Jerónimo Martins mantém em Portugal, coisa muito contra a pátria que esse Soares dos Santos, o malandro, anda a fazer.

Agora a ética. Ai, como gostamos de mandar uma laracha ética, uma pequena chapadinha de moralismo. Este Judas, que vinha para a televisão mandar bitaites, agora furta-se ao imposto bom que Portugal cobra. Não contribui, o maldito. O que Soares dos Santos fez foi uma decisão perfeitamente banal nos mercados: arranjou o seu portfolio de maneira a ter os melhores resultados. A elite indignada, em vez de atacar quem toma decisões acertadas, devia ajudar a perceber porque é que as decisões acertadas não passam por aqui. Nem para o Soares dos Santos, nem para qualquer pessoa que queira ter uma vida decente. Olhemos para esses milhares de jovens trabalhadores, investigadores e empreendedores que se vendem ao monstro estrangeiro, gente sem pátria nem honra, nem ética. É isso, não é?


Domingo, 01.01.12
Tiago Moreira Ramalho

 

Por todo o lado leio, já um nadinha aborrecido, desejos mais ou menos inspirados de bom ano novo. As pessoas não apreciam a simplicidade de um velho ‘boas entradas’, de um ‘bom ano’ ou de um ‘feliz ano novo’. A extensão da audiência obriga a um discurso mais elaborado, tantas vezes motivadorzinho – coisa dos tempos. O discurso pode ir de uma abstracção batida como dizer que o ano novo será melhor que o ano morto, como pode ir para um discurso mais ao estilo de Rhonda Byrne sobre a necessidade de nos mudarmos e assim. Também há quem se esforce e se ridicularize na graçola fácil ou no cinismo parolo. Eu só tenho um punhado de anos novos na memória, mas para mim a coisa é simples: doze passas, um bom desejo, beijinhos e álcool. Muito álcool, para que o mundo, apesar das novidades, não mude. Um bom ano para todos.



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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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