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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Apontamentos sobre a Guerra do Ultramar

A Douta Ignorância, 02.08.10

Convidámos o escritor Vasco Luís Curado, autor do romance A Vida Verdadeira, publicado pela Dom Quixote, a escrever um pequeno texto sobre a guerra colonial, tema que também é abordado naquele livro. Pensamos que o drama dos antigos combatentes merece mais atenção do que aquela que lhe é dispensada; foi esse o motivo do convite feito ao Vasco e que ele prontamente aceitou. O Douta agradece-lhe a colaboração:

 

 

 

A guerra do Ultramar acabou há demasiado pouco tempo. Os combatentes, esquecidos pela sociedade e pelo poder político, têm uma coisa fundamental contra eles: milhares ainda estão vivos. Tem de passar tempo suficiente para se ter uma melhor perspectiva histórica, o que implicará que todos tenham morrido. Cruzamo-nos nas ruas, ou temos nas nossas famílias, pessoas que participaram no encerrar de um ciclo que Portugal tinha iniciado 560 anos antes, em 1415, com a conquista de Ceuta. Declarámo-nos cabeça de um Império tropical espalhado por quatro continentes, fechámos esse ciclo repentinamente e aderimos com entusiasmo à integração europeia. O País, empenhado em contar os quilómetros de boa estrada asfaltada até Bruxelas e Estrasburgo, quis esquecer-se daqueles que andaram a picar estrada de terra à procura de minas, em Nambuangongo, em Buba ou em Mueda. Os próprios também quiseram esquecer, porque as guerras impõem aos combatentes uma necessidade impossível de satisfazer: esquecer o inesquecível, reprimir o irreprimível.

 

Forças e tendências estruturantes da identidade, ou pseudo-identidade, portuguesa se conjuraram para dificultar a vida aos veteranos da guerra colonial. Achou-se que o colonialismo era uma missão atribuída por Deus, um dever nobre e altruísta de civilizar povos mais atrasados. Outras potências coloniais eram movidas por cobiça de lucros e montavam empresas de exploração comercial com nomes de países. Nós não. Deus tinha planos especiais para os portugueses e dizia-lhes para irem civilizar quem tanto precisava de ser civilizado. Assim, não havia condições mentais para se aceitar as mudanças políticas do mundo, e Portugal erigiu um ideal de defesa da civilização latina cristã em África contra a vaga liberal que apadrinhou os nacionalismos africanos a partir de 1945. A segunda tendência ou força que prejudicaria os combatentes foi negar-se que havia uma guerra nas colónias: era apenas um policiamento contra meia dúzia de terroristas estrangeiros a soldo dos comunistas. Se não havia guerra, como poderia haver stress de guerra, indemnizações, reconhecimento?

 

O ambiente de guerra adormece as emoções e leva a fazer coisas que noutras circunstâncias não se faria. Não há uma consciência individual, mas colectiva, cada um trabalha para objectivos que o ultrapassam. O problema é que depois se regressa à consciência individual e se assume individualmente coisas que tinham sido colectivas. O País, que durante a guerra não assumia a própria existência de uma guerra, a seguir ao 25 de Abril cometeu erros de igual monta: mandou-os para casa como se nada fosse, como se os 560 anos anteriores fossem uma nota de rodapé de um manual escolar ou um Padrão dos Descobrimentos para turistas fotografarem, deixou-os sozinhos com responsabilidades que tinham sido nacionais, não preveniu as consequências de se ter sido em tempos um combatente. O País, isto é, todos nós, não quis saber daquele combatente que, regressado a casa, dormiu um mês no bosque próximo com a faca de mato, ou daquele que de vez em quando acorda convicto de que aos pés da cama está um saco cheio de orelhas e dedos humanos, ou daquele que se levanta todos os dias às cinco da manhã e se senta no sofá da sala, a que chama o “canto da morte”, e recapitula a guerra e pensa em matar-se. O País é que foi combatente e reduplica à escala nacional a experiência individual. Assim como o combatente se apazigua aceitando as marcas físicas ou mentais como tatuagens que são parte indelével de si mesmo, o País, ou seja, todos nós, amadurece recuperando o seu passado e aqueles que enviou para o combate. Por isso é que temos de começar a fazer História agora, não num vago tempo futuro, e, em respeito pelos que combateram, ajudá-los num outro combate contra um duplo esquecimento: o que eles individualmente gostariam de fazer e não podem, e o que o País cobardemente lhes quer impor e não devia.

 

Vasco Luís Curado

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