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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A origem

Bruno Vieira Amaral, 18.08.10

Vi Memento uma única vez. Lembro-me que o filme foi apodado de original, inovador e ousado, adjectivos que me pareceram adequados porque, certamente por desatenção minha, não percebi nada. Também não percebi nada de O Último Ano em Marienbad e nem sequer me atrevo a dizer que é menos que genial. Gosto muito do Resnais de On Connait la Chanson, que é um filme para mentes mais convencionais e burguesas, mas Marienbad ultrapassa-me de tal forma que quando me pedem opinião sobre o filme repito uma frase que inclui “sensorial”, “onírico”, “cinemática” e “Robbe-Grillet”, mas já estou a preparar uma versão em que acrescento “nouveau roman” e “plasticidade”. Quanto a Christopher Nolan, pude comprová-lo ontem ao ver A Origem, tem ideias engenhosas mas sem qualquer substância. A Origem é um heist movie psicanalítico: sonhos dentro de sonhos, cofres como metáfora para os segredos guardados no subconsciente, di Caprio a repetir o papel de Shutter Island (se no início da carreira di Caprio era conhecido por encarnar personagens que acabavam sempre por morrer, agora é garantido que há-de ficar viúvo e atormentado pela culpa). A ideia de Nolan é tão original, inovadora e ousada que as personagens são obrigadas a explicá-la com tantos pormenores que o espectador médio é obrigado a perceber que a ideia é aborrecida, banal e vazia. É como se, atravessados todos os níveis do sonho (excitantes como uma montanha-russa com efeitos pirotécnicos), o espectador chegasse ao cofre e não encontrasse nada lá dentro. A ideia de Nolan seria excelente se ele não tivesse de a explicar. Quanto aos sonhos, continuo a preferir aqueles que começam ao som de uma harpa a estes que não se distinguem de um videojogo.