Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A ética da bola

Priscila Rêgo, 12.09.10

Suponha o leitor que é um jogador de futebol subitamente beneficiado por uma decisão incorrecta do árbitro. Fala ou fica calado? O Fernando Alexandre fez a pergunta e o Luís Aguiar-Conraria deu uma resposta que me pareceu aceitável.

 

(...) para mim a questão nem é de lealdade. É mesmo, quase, de justiça desportiva. O erro do árbitro faz parte do jogo. De certeza que o árbitro se enganou mais vezes ao longo deste jogo de que o Fernando fala. Se o árbitro for honesto, os erros tenderão a anular-se. Se os jogadores da Polónia corrigirem o árbitro sempre que este se engane a seu favor, então, no fim, o árbitro, sem ter culpa nenhuma, irá beneficiar a equipa russa.

 

Mas só à primeira vista. À segunda, parece-me que a ideia tem alguns problemas. São os seguintes.

 

Em primeiro lugar, os erros sérios e graves são relativamente raros. Num estudo do International Board (sem link) que cobria um período de três anos do campeonato inglês, chegou-se à conclusão de que os chamados lances decisivos, como penaltys por assinalar e golos mal anulados, acontecem, em média, uma vez por cada quatro ou cinco jogos. A ideia de que as más e boas decisões tendem a anular-se é errada: simplesmente não há tantos lances cruciais por jogo para o árbitro distribuir democraticamente as prebendas pelas duas equipas.

 

É possível argumentar que, apesar de estes lances serem raros em cada jogo, eles são muito comuns ao longo de uma temporada. Por exemplo, uma equipa é prejudicada num jogo mas, como há muitos jogos por época, no longo prazo não haverá prejudicados nem beneficiados. Mas este argumento passa por cima do facto de o futebol ser um jogo caótico em que um pequeno benefício no início da época pode ter um efeito enorme nos restantes jogos. Além do facto ainda mais óbvio de muitos troféus serem decididos por eliminatórias ou sistemas de bota-fora a duas mãos.

 

Em segundo lugar, não é verdade que um árbitrio honesto erre de forma equitativa. Os erros dos árbitrios dependem não só da curva de Gauss mas também de factores como o número de pessoas no estádio, a distância da bancada ao campo, a exstência do chamado "fosso", etc. Equipas mais pequenas tendem a ser mais prejudicadas, o que pode levar a um processo de feedback positivo em que os mais fortes são mais beneficiados, tornam-se mais fortes e são, por isso, novamente beneficiados.

 

Em terceiro lugar, a ideia de que um jogador não pode alertar o árbitro para um erro porque dessa acabará prejudicado depende do facto crucial de a outra equipa não seguir a mesma conduta. Mas, pela mesma lógica, podemos concluir que os jogadores de uma equipa devem tentar enganar o árbitro, pelo menos se adversário também o fizer. E isto levanta, não só um problema ético, mas também um problema prático que pode levar a uma "corrida às armas" das simulações. [Na verdade, pergunto-me frequentemente por que é que isso não acontece. O meu palpite é que se as simulações se tornarem demasiado frequentes o árbitro irá rapidamente "descontar" esse factor na sua arbitragem, permitindo um jogo mais duro em que nenhuma das equipas tem interesse.]

2 comentários

Comentar post