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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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O Rei sou Eu

Tiago Moreira Ramalho, 05.10.10

Publiquei este texto há coisa de um ano no Expresso Online. Como me parece que não há muito a acrescentar, republico-o.

 

Nós os republicanos temos tratado os monárquicos com uma parcimónia que me parece exagerada. Bem sei que nós, simpáticos, não queremos agitar as crenças de ninguém, mas basta o que basta. Ainda por cima quando é mais que público que alguns, e aqui coloco a tónica na palavra alguns, monárquicos dizem dos republicanos e da sua dama de peito ao léu aquilo que o Cardeal Ratzinger não diria do Belzebu.

O Rei sou Eu, caro leitor. E não tenha inveja, que o leitor também é. É essa a maravilha de tornar os Estados numa coisa pública, tirando-os da mão de um senhor - normalmente é um senhor, não há quotas na genética - que o herdou apenas porque os concidadãos dos seus antepassados não se importaram de abdicar do direito a escolher o seu líder máximo, delegando tal competência à madrasta natureza. E que madrasta, tantas vezes.

Dizem que o monárquico é regime de muita virtude. Que os países mais ricos da Europa são Monarquias. Pois são. Mas falta dizer que se tornaram os mais ricos e poderosos muito antes de se pensar na ideia de uma República. Ou no século XIX a Inglaterra e a Holanda não eram muito mais ricas que esta nossa praia mal amparada? Pois é. Estas faláciazinhas só enganam quem se quer deixar enganar.

E dizem que o monárquico é regime de muita liberdade, de muita escolha. Mentira. Descarada! Pelo amor do Altíssimo, diga-me o leitor, caso queira, claro, como é que se pode falar em Democracia quando o mais alto cargo do Estado é imposto por uma espécie de desígnio divino? É simplesmente uma hipocrisia dizer que uma Monarquia pode ser uma Democracia, porque todos sabemos que isso é um simples contra-senso. Uma Monarquia Constitucional é apenas uma Monarquia como qualquer outra, na qual o Rei concede - é este o termo - ao povo, à plebe, o direito a escolher quem faz o trabalho sujo - o governo. Mais nada. Não é uma democracia. É uma tirania feita para não desagradar muito. E mesmo que desagrade, não tem mal, que do trono ninguém sai com a cabeça em cima dos ombros.

Alguns, espertos, respondem-me a isto com um sublime: "Ah! Sim! Portugal é muito democrático quando comparado com Inglaterra!". Irónicos, os tipos. Esta é uma falácia muito costumeira nestas discussões. O raciocínio subjacente é: o Portugal actual, apesar de republicano, não é tão democrático como a Inglaterra, que é uma Monarquia; logo, a Monarquia é mais democrática que a República. Tonteria. E, novamente, só cai nesta quem quiser cair. É que a questão é simples: Inglaterra até pode ter as maiores liberdades deste mundo asseguradas; o povo inglês até pode ter os mais democráticos sistemas eleitoral e participativo; isto pode ser tudo verdade, mas não deixa de lhes faltar uma última liberdade: a de escolherem o seu líder máximo, a de escolherem quem os representa lá fora, a de dizer, defender e propor um líder alternativo. É este o problema. E, meus caros, volto a dizer: só não percebe isto quem não quer.

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