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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Humor

Bruno Vieira Amaral, 09.10.10

Uma saraivada de pedras que atinge Dom Quixote; o comentário de Borges sobre a curiosa variação do filantropo Bartolomé de las Casas; o papagaio que, ao cair numa panela, desata em gritaria náutica, em O Amor nos Tempos de Cólera; a humilhação de João da Ega mascarado de Mefistóteles; a carta da mulher de Elói Calisto, o anjo caído de Camilo; a descrição de um cavalo por Quevedo. Mais do que qualquer outra qualidade, o humor aproxima-nos do escritor, estabelece uma ponte intemporal de compreensão e de inteligência. Guardo dois exemplos do humor de Vargas Llosa. Um poderá ser encontrado em A Tia Júlia e o Escrevedor e conta o desfecho acrobático de uma peça sobre Cristo. O outro está em Os Cadernos de Dom Rigoberto e transcrevo o longo trecho para bem do leitor desanimado pelos aguaceiros outonais deste Sábado:

 

“Porém Manuel não fora um poeta como Neruda, nem um moralista como Swift, nem um sexólogo como Ellis. Apenas um castrado. Ou, antes, um eunuco? Diferença abissal, entre esses dois negados para a fecundação. Um possuía ainda falo e erecção e o outro tinha perdido o adminículo e a função reprodutora e apresentava um púbis liso, curvo e feminil. O que era Manuel? Eunuco. Como tinha podido Lucrecia conceder-lhe aquilo? Generosidade, curiosidade, compaixão? Ou vício e doença? Ou todas essas coisas combinadas? Ela tinha-o conhecido antes do célebre acidente, quando Manuel ganhava campeonatos motociclísticos enfiado num capacete rutilante e num calção de plástico, encarrapitado sobre um equídeo mecânico de tubos, guiador e rodas, de nome sempre japonês (Honda, Kawasaki, Suzuki ou Yamaha), catapultando-se a si mesmo com barulho de peido ensurdecedor a corta-mato – chamavam-lhe motocross -, embora também costumasse participar em galimatias como Trail e Enduro, esta última prova de suspeitosas reminiscências albigenses – a duzentos ou trezentos quilómetros por hora. Sobrevoando valetas, trepando cerros, alvoroçando areais e saltando rochedos ou abismos, Manuel ganhava troféus e aparecia fotografado nos jornais desrolhando garrafas de champanhe e com modelos que lhe beijocavam as faces. Até que, numa dessas exibições de acrisolada estupidez, voou pelos ares, depois de subir como uma bólide uma colina enganada, atrás de cujo cume o esperava, não, como ele, incauto, julgava, um sedante tobogã de amortecedoras areias, mas sim um precipício com rochedos. Precipitou-se nele, gritando um palavrão arcaico – Olho do cu! – quando voava no seu corcel de metal rumo às profundezas, a cujo fundo chegou segundos depois sonoramente, num estrondo de ossos e ferros que se esmagavam, quebravam e estilhaçavam. Milagre! A sua cabeça ficara intacta; os seus dentes, completos; a sua visão e a sua audição, sem dano algum; o uso das suas extremidades, um tanto ou quanto ressentido graças aos ossos quebrados e aos músculos rasgados e tosados. O passivo ficou compensatoriamente concentrado nos seus órgãos genitais, que monopolizaram os estragos. Porcas, pregos e punções perfuraram-lhe os testículos apesar do elástico suspensor que os guarnecia e fizeram deles uma susbstância híbrida, entre a pasta de mel e a ratatouille, ao mesmo tempo que o pecíolo da sua virilidade foi cerceado de raiz por algum material cortante que talvez – ironias da vida – não proviesse da moto dos seus amores e triunfos. O que o castrara, então? O grosso crucifixo puncticortante que levava posto para convocar a protecção divina quando perpetrava as suas proezas motociclísticas.”

 

Os Cadernos de Dom Rigoberto, tradução de J. Teixeira de Aguilar