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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

O partido com paredes de cal calcinada pelas mãos calejadas dos revolucionários alentejanos

Rui Passos Rocha, 11.10.10

Infelizmente para a minha tensão arterial - já para não falar, falando, dos calores da colega Priscila - o mundo teima em ser complexo. Enquanto nem ela nem um dos dois cavalheiros comentadores deste seu post decidem alcançar um consenso, qwertymente resolvendo na blogosfera a mais suja luta na lama ideológica do último século e meio, capitalismo continua a significar batatas a murro com pasta de dentes e cera dos ouvidos para o reino iliberal, enquanto que para as gentes liberais engloba todo o cardápio da culinária italiana e portuguesa juntas. Para os primeiros é e, por mais que se o disfarce com ervas aromáticas, será intrinsecamente mau - apenas ligeiramente melhor do que o sistema feudal, porque mantém a mesma exploração mas em regime de pseudo-democracia; para os segundos pode ser uma porrada de grupos ideológicos distintos e por isso permite políticas bem distantes entre si, se bem que com um fio comum. Como, tantos anos depois, nenhuma das trincheiras deixa de lançar granadas à outra, os dois mundos-pensamentos (esta é do Orwell) continuam essencialmente irreconciliáveis, o que, novamente aqui evidenciando a minha mente simplória, não abona em favor da saudinha aqui do escriba. O problema - e finalmente pareço chegar a algum lado com esta treta - está em que, feliz ou infelizmente dependendo das cabecinhas pensantes, já que a Providência teima em limitar-se a arbitrar, apenas um desses mundos-pensamentos domina as culturas contemporâneas. O que torna, diga-se, esta brincadeira mais interessante quando se lê de uma entrevista a Jerónimo de Sousa (feita pelo Destak, esse portento) o dito de que «o capitalismo não será o Fim da História». Tretologia fukuyâmica à parte, o problema deste vosso servo está, leiam-me agora, no invariável nó intestinal após os dois segundos em que o cérebro quer adaptar a frase do capo do PCP ao mundo-pensamento liberal. Nesses dois segundos ocorrem-me sonhos de um mundo mais fraterno e tal, em que Wall Street seja um mercado de legumes e as galinhas tenham direito de protesto constitucionalmente garantido. Depois dá-se o tal nó, a bílis produz uma qualquer excreção nojenta enquanto me lembro do «prometo-lhe que Portugal não terá parlamentarismo» de Cunhal a Oriana Fallaci ou da sua chegada triunfante em 1974, a emular Lenine na Finlândia. Com anfetaminas vos digo, rebanho meu, finalmente (é agora que digo alguma coisa de jeito?), que o pós-capitalismo do camarada Jerónimo passa invariavelmente pelo marxismo-leninismo (ó Festa do Avante!, que tanto o apregoaste) substituto do capitalismo - quem sabe empalando os malditos kulaks das PME para criar o virtuoso estado de coisas em que o trabalho é pedido (sim, pedido, porque o sistema é virtuoso) a cada um «de acordo com as suas possibilidades» e distribuído «a cada um de acordo com as suas necessidades». Enquanto a tese marxista do valor laboral não é implementada, porque não o será enquanto os burgueses, esses exploradores, comandarem os destinos do povo explorado (eu, pobre de mim, incluído), perante tamanha injustiça social o líder do PCP espera agora o messiânico retorno da antítese bolchevique, agora recauchutada de cunhalismo. Infelizmente Marx, o patriarca da coisa, já não tem voz para gritar que as antíteses, como ele, não ressuscitam. Gritaria, imagina-se, que à inesperada síntese do Muro de Berlim se seguiu nova tese. Tivesse o barbudo, ó ironia, uma mão invisível e talvez pudesse com o indicador apontar a Jerónimo uma releitura do seu materialismo dialéctico. Quanto muito, a antítese provirá da síntese de Berlim; pouco resta do esmurrado marxismo-leninismo. Os amanhãs não assobiarão a Carvalhesa. E agora, meus caros, vou repousar antes de voltar a carregar o mundo às costas.

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