Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
Priscila Rêgo

Isto explica uma parte da divergência entre economias. A outra parte explica-se pelo facto de muitas vezes se misturar crenças positivas acerca da Economia (economics) com ideias normativas acerca de como a economia (economy) deveria funcionar. Esta é uma confusão muito comum. A Teoria Económica permite perceber quais os efeitos do salário mínimo no desemprego, mas não permite saber se estes efeitos são desejáveis ou não. Isto é um julgamento puramente moral.

 

Em campos onde não haja grandes cisões ideológicas, isto não levanta problemas. A maior parte das pessoas concorda que o roubo é moralmente inaceitável, razão pela qual a existência de polícia e forças armadas não costuma ser um ponto de debate. Mas há zonas cinzentas em que há clivagens constante, como a questão de decidir se é mais importante o direito do rico a ter propriedade privada ou o direito do pobre a ter refeição em cima da mesa. Decidir a política redistributiva do Governo implica ter uma ideia positiva acerca do impacto dessa política e uma ideia normativa acerca do que é desejável. Frequentemente, a divergência é lida como emergindo de diferenças em relação à primeira ideia, quando na verdade resulta de diferenças em relação à segunda.

 

Há um efeito de selecção adversa que ajuda a propagar esta confusão. A maior parte das pessoas não tem, compreensivelmente, tempo, disponibilidade ou paciência para aprender a Economia dos manuais (tal como eu não tenho pachorra para aprender Direito ou Arte Moderna). O contacto que têm com a Economia é por isso maioritariamente feito através do discurso político – através de pessoas ideologicamente afastadas (o que amplia o efeito descrito nos primeiros parágrafos), com um interesse especial em evidenciarem essas diferenças e com uma tendência natural para martelar a Teoria até que ela se enquadre nos seus preconceitos ou justifique as suas políticas.

 

A ideia que isto passa é que a Economia é como as vaginas: cada uma tem a sua – e quem quiser dá-la, dá. Mas do facto de benfiquistas e portistas não se entenderem em relação às decisões do árbitro não se segue que não haja regras objectivas que norteiam o futebol. Simplesmente estamos a tentar inferi-las da pior forma possível.

 

Aliás, é curioso que esta diferença subtil passe despercebida à própria classe política. O debate em torno do salário mínimo é o exemplo clássico. A Esquerda diz que ele aumenta os rendimentos e não aumenta o desemprego; a Direita diz que ele só aumenta os rendimentos de quem não cai no desemprego. Isto é uma divergência em relação ao funcionamento positivo da economia. Mas a maior parte dos políticos apresenta a divergência como uma questão ideológica e de valores. Acontece que se a divergência fosse normativa, não estariam a discutir Economia, mas sim Filosofia Moral.

 

Há duas explicações possíveis para este disparate: os agentes políticos podem pura e simplesmente não perceber a diferença entre juízos normativos e positivos, o que é mau; ou talvez prefiram chutar a bola para o campo da ideologia na esperança de que isso os desobrigue de apresentar justificações racionais para as políticas que defendem. O que também é mau.


3 comentários:
De Miguel Madeira a 21 de Outubro de 2010 às 12:48
Ocorre-me outra possivel causa de divergências - diferentes visões de qual o sujeito da politica; 3 economistas atré podem concordar com a parte estritamente positiva e nem terem discirdâncias de maior na parte normativa, mas se um estiver a falar de qual a melhor politica que uma família, o outro de qual a melhor política que Portugal deve seguir, e outro qual a melhor politica que a UE deve seguir, as conclusões já poderão ser muito diferentes (sobretudo em assuntos em que haja "dilemas do prisioneiro").


De PR a 21 de Outubro de 2010 às 18:02
Não me lembrei dessa, mas também é boa. Acontece com a maior parte das questões. "Subir impostos, é bom ou mau?". Depende: bom para quem? E quem seria prejudicado num cenário contra-factual em que não haveria subida de impostos.

São questões tramadas.


De Miguel Madeira a 21 de Outubro de 2010 às 21:15
Acho que não me expliquei bem; não me estava a referir a diferenças nos beneficiários das políticas (isso poderia incluir-se na questão normativa), estou-me a referir a diferenças nos actores das políticas.

P.ex., a tal questão que falei no outro post - alguém que se veja como estando a discutir a politica que o goverbno português deve seguir poderá dizer "temos - portugueses - que reduzir o deficit para evitar a bancarrota", enquanto alguém que se veja como estando a discutir a politica que o governos europeus devem seguir poderá dizer "temos - europeus - que aumentar os deficits, até para evitar a deflação e a bancarrota generalizada que tal pode provocar".


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