Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Divergência em Economia III

Priscila Rêgo, 20.10.10

Vamos fazer um pequeno exercício de depuração. Em primeiro lugar, separar claramente o que é normativo do que é positivo. Em segundo lugar, eliminar os fenómenos de selecção adversa. Em terceiro lugar, abandonar a pretensão de obter um consenso completo em todos os tópicos em discussão, particularmente os que apenas têm vindo a ser estudados em décadas mais recentes. O que fica no fundo do balde?

 

De forma pouco surpreendente, a verdade é que há um largo conjunto de questões em que a esmagadora maioria dos economistas responde de forma convergente. Vou dar apenas alguns exemplos: a) o comércio internacional é duplamente vantajoso; b) os controlos de preços e salários são geralmente ineficientes; c) os subsídios são geralmente ineficientes; d) o combate, por parte do Estado, às falhas de mercado, como monopólios, existência de bens públicos e externalidades, tende a aumentar a eficiência da economia; e) os mercados são mais eficientes do que sistemas centralizados na difusão de informação.

 

Há economistas que não concordam com isto? Há. Como também há biólogos que se opõem ao princípio da selecção natural como explicação principal para a evolução das espécies (o António Amorim, da Universidade do Porto, é um deles, salvo erro) e adeptos do SLB que acreditam que o Vale e Azevedo até era um tipo honesto e sincero. Mas a maior parte dos biólogos, benfiquistas e economistas está razoavelmente de acordo em relação à Selecção Natural, ao Vale e Azevedo e ao Comércio Internacional.

 

Eu sou um case study interessante. Não tendo formação em Economia,  absorvi as noções básicas de forma mais ou menos auto-didacta através de Economia (Samuelson) e Principles of Economics (Greg Mankiw). Também li um livro de Finanças Públicas de um grupo de professores do ISEG, um livro de Mercados Financeiros de um grupo de professores do ISCTE, Economia Internacional  (Krugman e Obstfeld) e, mais recentemente, Economia(s), de Francisco Louçã e um académico de Coimbra cujo nome agora não recordo.

 

Apesar do largo espectro ideológico que esta lista contempla, as divergências entre os manuais são mínimas. Até a malta do ISCTE admite os benefícios da especulação. E arriscaria mesmo dizer que há mais diferenças entre o Economia de Samuelson e o Principles do que entre este e Economia(s) – provavelmente devido ao facto de o primeiro ser já bastante antigo (oitava edição, se não estou em erro). Quem critica a falta de pluralidade nos media não está a pedir que se dê a voz a Louçã, o economistas, mas a Louçã, o político.  

 

Não estou a dizer que Mankiw, antigo conselheiro económico de Bush, e Louçã, líder do BE, tenham muitas semelhanças entre eles. Na verdade, é o contrário: apesar de todas as divergências, as diferenças esbatem-se quando se trata de fazer ciência a sério. A Economia é muito menos plástica do que a maior parte das pessoas pensa. E muito menos do que a maior parte dos políticos gostaria que fosse.

 

2 comentários

Comentar post