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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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O pão e o peixe

Tiago Moreira Ramalho, 23.10.10

A compra rotineira do pão alentejano na mercearia do bairro, um bairro melancólico, também, alcoólico, o que não tem mal, mas sem livraria, o que prejudica o ecossistema, pode constituir, ou melhor, frequentemente constitui uma aventura digna de epopeia, houvesse engenho e arte. Desejoso de dar o meu euro e vinte pelo transformado de água, sal e farinha, enquanto ouvia uma mulher que, com quarenta anos, dizia que tinha de aproveitar tudo agora, que outros quarenta não arranjava – o pessimismo reina no bairro –, levo um encontrão de um senhor de boné – sim, os homens do bairro apreciam a utilização de pequenos chapéus do Correio da Manhã ou da BP na cabeça –, que, com um saquinho na mão vem pedir um favorzinho à senhora da mercearia. Que lhe pesasse o peixe. Pesava seiscentos gramas, facto de que ele já desconfiava. Tinha a certeza aliás, assim que o pegou lá no hipermercado – sim, na mercearia só se pesa peixe, que comprar ‘tá quieto –, mas depois apareciam setecentos gramas na etiquetazinha. Bandidagem, é preciso é ter cuidado com aqueles bichos e assim. Claro que tudo isto decorria enquanto eu, com as minhas moedinhas na mão, observava o boné, e o sujeito que o carregava, a dar pulos de excitação com a história, elevando o tom rouco, preparando um motim contra a máquina capitalista que é «o dedinho» do funcionário da peixaria do hipermercado. A senhora da mercearia, piedosa, sabendo para que é que eu ali estava, traz-me o pãozinho, dá-me dois beijinhos, que há muito que não me via (pudera…) e permite-me uma saída airosa e discreta para o conforto do lar. É disto que se faz um bairro: uma cougar, um velho louco por peixe, uma merceeira piedosa, um jovem esfomeado e mato, muito mato que ainda nenhuma livraria ocupou.