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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Profissões bem antigas

Tiago Moreira Ramalho, 18.11.10

Há um rapazinho cuja moleza o levou a deixar os estudos, mas cuja audácia, ou, se quisermos ser rigorosos, o espertismo, lhe trouxe um salário chorudo na Câmara de Lisboa. Nada que choque, no maravilhoso país dos 'assessores'.

A notícia é do Público e, ao que sabemos, ainda tudo continua na mesma. Pedro Gomes, um funcionário do PS que andou a saltar de um lado para o outro dentro do partido, e cuja experiência profissional e académica se resume a isso mesmo, recebeu a extraordinária proposta de fazer assessoria, coisa supimpa, à vereadora Graça Fonseca. O seu salário, aos vinte e seis anos e sem dois livros lidos, é de quase quatro mil euros mensais pagos em recibos verdes.

Como se isto por si só não fosse, já de si, um escândalo, acontece que o tal assessor Pedro Gomes tinha recebido um subsídio do IEFP para criar um negócio. O IEFP é mesmo amigo da malta, então enfiou quarenta mil euros na cuequinha de Pedro Gomes para que ele fizesse o servicinho de começar uma negociata qualquer - como se fizesse algum sentido que um negócio comece nestes termos. O Pedro Gomes recebeu as notinhas, agradado, claro, mas não fez negócio nenhum, que agora está de bem com a vida, com os seus quatro mil euros mensais pagos pela "amiga do povo", ou pelo menos de algum povo, Graça Fonseca.

Não condenamos o desgraçadinho do Pedro Gomes. Afinal, não foi ele que se passou os cheques. Dele sentimos mais uma espécie de peninha, que a coluna vai acabar a ressentir-se com uma vida a fazer de quatro. Condenamos, sim, a amiga Graça Fonseca, competentíssima vereadora que acha que os dinheiros públicos brotam de uma qualquer mística árvore das patacas e que, portanto, está tudo bem. Gostaríamos imenso de ler a sua carta de demissão. Condenamos, claro, um sistema que permite a entrega cega de dezenas de milhar de euros a quem quer "abrir negócios", como se essa fosse uma função do Estado. Adoraríamos ver o fim de tais "programas". Ou então não condenamos nada nem ninguém, porque, a bem da verdade, Pedritos e Gracinhas e demais "programinhas" há-os aos molhos e, suspeitamos, o povo até gosta, que pode ser que calhe algum. Remar contra a maré dá músculo, mas cansa muito.

 

 

Publicado no Expresso Online.

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