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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Volta ao mundo

Tiago Moreira Ramalho, 23.11.10

É rara a minha viagem de regresso a casa que não me permite guardar um episódio na memória. Raríssima. O que, na realidade, é bastante bom, independentemente da miséria que constitui cada um deles.

Hoje, no autocarro, entrou um homem, claramente doente, com a estrutura óssea deformada dos pés à cabeça, com baba a pingar e olhos perdidos. Trazia por todo o corpo malas penduradas. Malas de senhora, mochilas de criança, tudo. Vergava-se perante o peso, mas não as largava. Nunca as larga, que já não é a primeira vez que o vejo. Pavoneia-se, na sua provável demência, com aquele conjunto imenso de acessórios, que não sei se roubados, se achados, não sei, aos quais acrescenta, além da vasta colecção de pulseiras que leva nos braços, uma carteira de senhora, que abre e fecha, todo torto, sem nunca meter ou tirar nada. A isto tudo, junta um fedor insuportável, provavelmente causado pela merda que lhe escorre pelas pernas e transparece pelas calças. E nós ali, e ele ali, todos ali, a cheirarmo-nos uns aos outros, nós a ele, ele a nós, até que ele sai, em pulos desengonçados, que não anda bem, como poderia, e nós continuamos viagem a pensar para onde irá, o que fará, ou se algum carro, à conta da sua distraída caminhada pela via rápida, o impedirá de voltar a cheirar quem quer que seja.