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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Destruição só criativa

Rui Passos Rocha, 26.11.10

Os tempos estão maus para cavaleiros do apocalipse. A queda do muro e o projecto europeu transformaram o continente num laboratório gigante onde dois tipos de bata branca, Hayek e Keynes, conjugam esforços para encontrar a fórmula da prosperidade. Após um século de malfadadas experiências, a sopa do bem-estar parece ser irremediavelmente liberal, faltando apenas quantificar as unidades de tributação e de regulação que devem ir para o caldeirão. O problema - aqui entre nós que ninguém nos lê - é que o tempo azeda as sopas; e não vale a pena congelar, caros soviéticos e cubanos. As rodas do tempo continuam a girar, já cantava o Bob Dylan.

Não quer isto dizer que a carruagem matou Marx por atropelamento. No máximo cortou-lhe uns membros, mas passou ao lado do essencial: a ética. Aquilo que hoje temos como Terceira Via é um sistema económico capitalista regulado por um Estado que faz por garantir direitos laborais o mais de esquerda possíveis. Infelizmente para a direita, uma fraca regulação incentiva a ganância e a formação de oligarquias, em prejuízo da democracia e da qualidade redistributiva; e para mal da esquerda, a elevada tributação em vários dos países europeus, ainda que importante para a redistribuição, desincentiva o crescimento económico sem o qual essa redistribuição começa a falhar. Como parece estar a acontecer em Portugal.

Se se mantém válida a teoria de que os partidos agregam interesses sociais, a ausência de alternativas fortes ao sistema pode indiciar mera falta de imaginação de quem é contra, ou então um Estado Providência em retracção continua apesar de tudo a ser tido como superior às suas alternativas. Os dados sobre atitudes políticas dos portugueses dão-nos o que quer que seja que lá procurarmos: para uns, a insatisfação com o desempenho da democracia, com a classe política e com o funcionamento das instituições pode, como vão dizendo sociólogos, gerar uma revolta social (que, não tendo acontecer na Greve Geral, foi mais uma vez sinal de que o sistema despótico neoliberal aprisiona e aliena as mentes humanas, tornando-nos a todos autómatos, como diria o 5dias.net); para os outros, um escalonamento das atitudes demonstra que a insatisfação com o desempenho temporal do regime não se alastrou, para já, ao regime abstracto. A democracia liberal, com partidos e instituições kelsenianas, é visto como o melhor regime. O problema está em quem o governa.

Sem ideologias, este não é o Fim da História, mas parece um fim de ciclo criativo. Com os seus defeitos, o regime - fortificado pela lei única comunitária - resiste e continuará a resistir à dieta, tanto por mérito próprio como por demérito dos seus detractores. Pelo menos em Portugal, a menos que acabe em anorexia, o Estado Social continuará a ser apoiado. A consequência disso para a democracia e para a prosperidade das sociedades é discutível; mas para quem se situa na margem, mais do que apelar a revoltas estéreis seria importante pensar em alternativas. Que fossem, para variar, viáveis.

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