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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Alegríadas

Bruno Vieira Amaral, 09.12.10

Passo a explicar: o problema (desculpa, mas dá-me jeito pôr isto no singular), o problema, dizia eu, do Manuel Alegre é que, porra, o gajo pensou que a cena do milhão de votos era a sério, tás a ver, e deslumbrou-se, meu. Com os seus trinta e tal anos de obscura deputação, a aura de poeta e aquela barba, pá, aquela barba que não é patriarcal, mas também não é só estilo, é idade, é reputação, é caça à codorniz, o Manuel Alegre, dizia eu, era uma coisa, um símbolo de virtudes intangíveis, perfeito para ser admirado à distância, para ficar quietinho no altar do parlamentarismo, para ser a reserva moral da nação. E o bonito da reserva moral da nação é passar a vida na reserva, no banco da Assembleia, para que não tenhamos de descobrir o vazio que esse estatuto moral tão sublimemente oculta. O milhão de votos, pá, o milhão de votos, isso é que o tramou. Em 2006, o Manuel Alegre foi o Manuel João Vieira possível, o divertimento lateral na vitória previsível e enfadonha do Cavaco. O homem não tinha o apoio do PS, os mais desatentos até pensaram que ele tinha aterrado na Portela vindo directamente da Sociedade Civil, tudo isto numa atmosfera de ajuste de contas com o Mário Soares: caramba, o argumento era perfeito. Mas o Alegre tinha de estragar tudo e a piada perdeu-se. Agora temos de levar com ele todos os dias, em pose de estadista-fadista, cavaquisto, cavacaquilo, o apoio do PS que não apoia, o apoio do BE que não conta, as sondagens que o deprimem, os telejornais que o oprimem, ouve, assim não vale. O milhão de votos, e não te volto a explicar isto, foi um prémio para o Alegre enquanto curiosidade etnográfica, para o Alegre über-Chico-Lopes, para o Alegre-sim-mas-só-pra-lixar-o-Soares. É que, fora isso, o Alegre é o que vês: pomposo e verboso, cheio de nada e de coisa nenhuma.  

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