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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Volta ao mundo (2)

Tiago Moreira Ramalho, 19.12.10

O meu mundo é pequeno o bastante para que o percorra de autocarro. E para que o conheça no autocarro. No caso, o mundo era uma rapariga morena, de cabelo aos caracóis aloirados, pintados, suponho, que exibia o seu gosto musical através de um telemóvel cuidadosamente acomodado no intervalo dos seios, os quais exibia igualmente, sem grandes pudores e com alguma, admita-se, legitimidade. O passo era lento, seguro, acompanhado por um sincopado movimento das ancas. O corredor do autocarro era muito mais do que um espaço sujo e apertado para chegar aos lugares desocupados. Era o palco. E ela actuava. Cumprimentava os bonés e as calças largas dos amigos da infância, com aquele jeito de falar de quem parece ter a boca cheia. Então, estás bom, como se a resposta tivesse especial interesse. Sentada, sem poder continuar os movimentos sem cair no ridículo, substituía-os por outros que julgava sucedâneos competentes – um balão de pastilha rebentado devagar, um jeito ao cabelo, um eventual beicinho, um olhar atentamente distante. Depois tocou no botãozinho vermelho, cheio da sujidade das mãos que lhe tocaram antes. O autocarro, parado, abriu as portas e ela, com a sua musicalidade alojada nos mesmos sítios, desceu cada um dos degraus e foi, sem olhar para trás, à sua vida. Para um mundo diferente do meu.

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