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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Desta vez não cobro

Rui Passos Rocha, 27.12.10

Enquanto os políticos não se organizam em sindicato estou condenado a ler infinitos elencos do que há de bom na transparência e na democracia aberta. Também o Peter Singer (pouco menos capilarmente avantajado do que o Moita Flores, igualmente palrador sobre tudo e mais alguma coisa, mas com a diferença de o seu cérebro conter processadores que lhe permitem saber, em tempo real, o quão distante está de proferir cócó) é a favor de uma diplomacia transparente, com uma ou outra cortina para ocultar coisas como planos de democratização. Também o Pedro Lomba - em quem Singer naturalmente se inspirou - escreveu há tempos que a transparência não pode ser total, sob pena de alguns fins paretianos deixarem de poder ser alcançados por dependerem de processos cuja publicidade colocaria em causa esses próprios fins. De qualquer modo, imagino, mais afinação menos afinação a transparência seria o caminho para melhorar a representação: seria informativa, encurtaria o espaço para corrupção e clientelismo na política, a 'vontade geral' poderia finalmente ser medida a pulso. O que não vi ainda escrito - e por isso achei que o mundo precisava deste meu esclarecimento à uma da manhã - foi um só textículo sobre as implicações da transparência para as atitudes políticas. Sabe-se que as notícias negativas sobre a governação acentuam o descontentamento dos eleitores face aos políticos, aos partidos, às instituições; por isso, a multiplicação de WikiLeaks por aí fora pode ajudar a erodir a confiança que sustenta o regime - se continuarem a ser utilizados como um «school report card that only reports when a student is sent to detention, plays hooky from class, or fails courses, but does not register when she earns As in her course». Não me apontem já as catanas: a transparência deve prevalecer, até onde possível; de pouco serve uma confiança baseada em ignorância. Mas a transparência apenas existirá se não for minado o sustento do regime: a confiança que o eleitorado nele deposita. Mais importante do que discutir que actividades devem manter o selo secreto ou ser divulgadas será imaginar graus de abertura, de transparência, implementáveis paulatinamente e confrontáveis com as reacções populares. Não faltam jardins e bernardinos para contar despojos.