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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Paradoxos em verso

Tiago Moreira Ramalho, 12.01.11

Imagino com alguma frequência o que é a rotina matinal de Manuel Alegre. De manhã, depois de acordar, vai colocar-se de pé junto ao púlpito e escreve o seu Guardador de Rebanhos diário, com as prelecções com que nos vai presentear ao longo dos tempos de antena que lhe estão destinados. Tal como o outro, escreve a coisa de uma ponta a outra sem sequer olhar para o verso que precede o verso presente. E aqui radica aquilo que, porque somos essencialmente bondosos e confiantes na possibilidade de existir ali algo mais que voz e barba, julgamos ser todo um processo de construção artística, construção sobre construção, destinada a uma claque iluminada que, através do estudo cuidadoso e paciente, lhe desconstrói a tese e, dado o brilhantismo, lhe dá apoio. Como os tempos mudaram. Antigamente, quando os homens eram inteligentes, ou quando, pelo menos, os havia assim em número natural, rogava-se aos poetas que não se imiscuíssem na política. Hoje, são chamados e abraçados e, até, quem sabe, compreendidos.

Claro que nós, que mais do que acreditar na possibilidade etc., somos essencialmente pragmáticos e não duvidamos, até porque é pecado, disse alguém, não sei, da tese socrática, do outro, de que os poetas, ou melhor, este poeta, e aqui estamos a transpor, não a citar, acautele-se, leitor incauto, é como os da Apologia. Entra-lhe a musa pela narina, fá-lo cuspir pela ponta dos dedos, mas depois, nada. Sabemos nós melhor o que ele escreveu que ele próprio. Sim, caros, porque este homem, de duas escolha-se uma, ou não sabe mesmo do que anda a falar ou, sabendo, quer mesmo gozar com a nossa cara laroca, que a temos, que a temos.

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