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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Qualquer Narciso pode ser Presidente

Rui Passos Rocha, 07.04.10

A Universidade de Pádua decidiu, em parceria com o Instituto Camões, criar uma Cátedra Manuel Alegre para o estudo da língua e da cultura portuguesas. Sim senhor, ficamos agradados com a coisa, o Figo - a quem Alegre dedica uns versos no seu O pregador que perguntava se podia pregar pregos com preguiça - é até capaz de lhe pedir que recite uns poemas no próximo anúncio do TagusPark. Como dizia, o povo fica agradado, mas Mário Soares vai exigir uma mudança de nome para Cátedra Barack Obama. Já Alegre está extático, a ponto de considerar o feito (a cátedra, não os versos sobre Figo) superior à chefia do Estado. Como disse à Ler, qualquer um pode ser Presidente, mas não é qualquer um que tem uma cátedra na Universidade de Pádua. Cavaco, como sabem todos os que sofrem - como só um poeta sofre - com as agonias dos pobres, é um economista e os economistas são seres graníticos que procuram eficiência à custa da miséria alheia; Nobre, como também sabem todos os que sofrem no seu sofá - como só um poeta sofre - com as agonias dos pobres, é um tipo que dedicou a vida a ajudar os miseráveis do mundo, mas tamanho esforço de proximidade enviesa a imparcialidade necessária para uma avaliação justa dos meios a utilizar para erradicar a pobreza. Poeticamente falando, nenhum deles está à altura, pensa Alegre. Mas eles, os incapacitados, pensam o contrário: Cavaco descreveu, na sua memorável Autobiografia Política, as peripécias que o levaram de Boliqueime a São Bento, um caminho que todos pensaríamos ser tortuoso, mas que, afinal, parecia determinado desde o início. E se, como diria o Daniel Oliveira, não é qualquer filho de gasolineiro de Boliqueime que chega a Chefe de Estado, também não é, como já deu a entender Fernando Nobre, qualquer um que dedica uma vida ao serviço do país e do mundo: a causas humanitárias e, agora, possivelmente à cadeirinha de baloiço de Belém. Infelizmente, os três estão enganados: não é qualquer um que chega a Chefe de Estado. É preciso ser um bocadinho narcisista. Que o digam Mário Soares e Ramalho Eanes.