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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Deolinda, esse fenómeno

Priscila Rêgo, 17.02.11

O problema não é bem com os Deolinda. São artistas. É compreensível que as preocupações de estilo se sobreponham às de substâncias. Mas a comunicação social, os opinion-makers e os economistas com acesso ao espaço mediático tinham o dever e a obrigação de não seguir o rebanho e alicerçar o respectivo discurso em algo mais sólido do que preconceitos e ideias feitas. Para bitaites, já cá estão os bloggers.

 

Eu não ouvi a música dos Deolinda, mas pela letra e pelo que tenho lido por aí (os jornais fizeram um extraordinário trabalho de apresentação da música como se de um paper se tratasse), parece-me que há três ideias subjacentes: a) a situação dos jovens no mercado laboral está cada vez pior; b) uma licenciatura não vale nada; c) isto é tudo uma grande merda. Para ilustrar isto, recorrem à imagem do jovem licenciado sem emprego, que salta de estágio não remunerado em estágio não remunerado.

 

Este retrato é verdadeiro? Utilizando esse óptimo instrumento de análise da realidade que são os conhecimentos pessoais, eu diria que é, mas apenas em parte. A maioria dos jovens licenciados não estagia de borla. Não conheço estudantes de medicina veterinária, engenharia, matemática ou gestão a submeterem-se a longos períodos de trabalho em regime de voluntariado (o que não significa que não haja casos pontuais; significa apenas que são estatisticamente pouco relevantes). O fenómeno pode, contudo, estar mais generalizado em áreas de baixa empregabilidade, onde a concorrência é maior e o salário de equilíbrio pode aproximar-se do zero nos segmentos com menos experiência laboral.

 

A minha teoria é que o segundo grupo tem um acesso desproporcionado aos meios de comunicação social, o que dá uma imagem distorcida do que se passa de facto no mercado laboral. Os políticos são sobretudo formados em Direito, onde o desemprego tem estado a crescer (parece-me que por barreiras corporativas à entrada na profissão, embora não domine bem este assunto). Os artistas mais novos, como os Deolinda, serão, presumo, formados em cinema ou algo relacionado com as Belas Artes. E os jornalistas, que são quem gere todo o fluxo informativo, são também uma classe a passar por provações cada vez maiores.

 

Mas, em média, os números não enganam: Portugal continua a ser um dos países em que estudar mais compensa. O diferencial, medido na probabilidade de cair no desemprego e na remuneração expectável, é um dos mais altos da OCDE. É uma desgraça que tantas vezes se ouça dizer o contrário: não há melhor forma de desincentivar o estudo, piorando ainda mais as perspectivas dos nossos jovens. Quem tiver mais apreço pelos dados do que pelo olhómetro pode consultar este estudo de Pedro Portugal, investigador do Banco de Portugal e uma das poucas cabeças que consegue falar com propriedade acerca de mercado laboral.

 

Claro que a situação dos jovens pode de facto estar pior do que há 10 anos. Mas era bom que algumas destas ressalvas, pontos e interrogação e notas de precaução fossem incluídas nas peças e artigos acerca da "Geração Deolinda". Por que é que tal não acontece? Gostava de acreditar que é por ignorância ou falta de formação. Mas não creio que seja. Provavelmente, é porque vende menos jornais.

 

 

 

 

 

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