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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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How to do (weird) things with words

Tiago Moreira Ramalho, 07.04.10

O artigo do Henrique Raposo, no Expresso Online, tem uma série de vícios de raciocínio que apenas posso associar à vontade de criar um certo impacto, desprezando-se, talvez, o conteúdo – tese que o Henrique perfilha há alguns anos.

O primeiro vício é o de assumir que o facto de eu, por exemplo, condenar uma prática ou conjunto de práticas com uma maior veemência do que aquela que aplico na condenação de outras práticas igualmente reprováveis constitui, por si só, uma contradição. Não constitui. A questão é que nem todos aguentamos a pressão da indignação generalizada, que o tratamento das úlceras não é, de todo, agradável. O Henrique acha que há dois pesos e duas medidas nas avaliações. Discordo. Penso que há dois pesos e duas medidas nas demonstrações das avaliações, e isso é completamente diferente.

O segundo vício é o de criar o conceito de ateu cool desprezando o seu simétrico, o do beato naftalina – já que estamos no mundo da metáfora, permaneçamos por lá. São iguais. Enquanto o segundo, mais comum, mais conhecido, propaga a sua fé e coloca a Igreja e os padres acima de qualquer juízo ou condenação – mesmo quando é óbvio que o que aconteceu e continua a acontecer é inaceitável –, o primeiro faz o inverso. Irracionais? Sim, muito, mas ambos na mesmíssima medida. O texto do Henrique poderia, portanto, ser exactamente ao contrário bastando mudar umas palavrinhas, isto é, poderia ser um manifesto tremendo contra os beatos que defendem os padres pedófilos (arranjando justificações como a da obrigação do celibato ou, mais ousados, criando teorias conspirativas da «jacobinada»), mas que atacam desalmadamente os muçulmanos que obrigam as mulheres a não existir fora de casa.

O terceiro vício, e último, parece-me, é que o artigo do Henrique se contradiz na base. É digno de Austin, em certa medida. É como se o Henrique estivesse a comer um bife com batatas fritas enquanto denunciava, gritando, no meio do restaurante, os horrores que as vaquinhas sofrem. Sejamos objectivos: bater em ateus cools, apesar de tudo, é igual a bater em beatos naftalina. Descrever daquela forma a atitude desses tais ateus – uma sub-categoria, atenção, que há muitos ateus que não se misturam nessa salada de idiotice – enquanto se refere a eles nos termos que parece condenar é um extraordinário exercício de auto-destruição retórica.

O Henrique assume que prefere ver-se acompanhado pela forma a ir ao baile da opinião com a substância. Fair enough. Outros escolheram o caminho inverso e séculos depois continuamos a lê-los.

2 comentários

  • Sem imagem de perfil

    TMR 08.04.2010

    Ó meu senhor, já que veio à Internet, vá ao google, pesquise por «pornografia grátis» e beneficie de um bom momento a sós. É que mal por mal não mostrava a burrice e sempre deixava as pessoas em paz.

    Quer perceber as minhas posições sobre o assunto? Arranje um manualzinho de princíprio microeconómicos. Quer perceber porque é que acho nojento o que fizeram ao Henrique Raposo? Esforce-se, que isso não há livros que ensinem.

    Agora, faça favor, que a porta da rua é serventia da casa.
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