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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Ensaio sobre a decadência do povo português [2]

Tiago Moreira Ramalho, 23.04.11

Chegámos ao chão da política. E isto não é medina-carreirismo de mercearia ou coisa que se lhe assemelhe. É simples facto: hoje, não há nada pior que pedir ajuda externa ao FMI. É o pior a que nos podemos resignar e é simplesmente a assunção catastrófica de que somos, em matéria de governação, uma catástrofe. Pior, só a cessação de pagamentos e, com isso, o rótulo de caloteiro no mercado mundial, cenário que dificilmente pode ocorrer porque, precisamente, fazemos parte do FMI, que não permite caloteiros, além de não gostar de preguiçosos.

Posto isto, dado o chão em que estamos, coladinhos, deitados, como que sugados sem nos mexermos, assusta-me que o partido de governo tenha sequer a possibilidade de ganhar de novo. Na Finlândia, nação maldita que não tem a bondade de nos auxiliar, o partido de governo, cuja incompetência dificilmente se podia comparar à deste, passou para quarta força política, atrás do fashion nazis, e nem colocam a hipótese de negociar a presença no governo, dada a incapacidade que revelaram. Aqui, nem falamos em passar para quarta força política, atrás de um CDS ou um BE, mas sim de voltar a ganhar as eleições, pela terceira vez consecutiva.

Dizem-me, para justificar a abjecção, que se trata de jogar pelo seguro. O povo sabe que José Sócrates é medíocre e que o PS já quase não existe, mas ao menos trata-se de uma mediocridade conhecida, cá de casa, com a qual já sabemos lidar e viver em paz e harmonia. Agora a mediocridade de Passos Coelho é nova, desconhecida, obscura, quase estrangeirada. Tememo-la e não lhe queremos dar cruzinhas. Pois, meus caros, o facto basilar é este: por muito medíocre que seja Passos Coelho, do chão da política não passamos. Se falássemos de uma situação intermédia, como nas últimas eleições, o argumento, apesar de idiota, ainda se compreendia. Hoje não estamos em limbo nenhum. Hoje estamos num purgatório económico do qual dificilmente saímos se continuarmos na mesma estrada que nos trouxe cá. E se pior não posso ficar, a decisão é simples: prefiro arriscar.