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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Re: Produtividade

Priscila Rêgo, 16.05.11

O Ludwig Krippahl escreveu um post acerca de produtividade. Azar dos azares, não concordo com quase nada. Mas, como a caixa de comentários do Que Treta! é bastante hermética (por razões compreensíveis, admito), deixo aqui a minha resposta.

 

Primeiro, uma nota técnica. A produtividade tem de facto alguns problemas conceptuais, mas aquele que ele aponta não figura no rol. O Ludwig refere o facto de um mesmo trabalho ser remunerado de forma muito diferente em economias distintas, o que leva a um empolamento artificial do PIB nas economias com preços superiores. E é verdade que os valores nominais são incomparáveis, mas é precisamente por isso que se inventaram as Paridades de Poder de Compra (PPC). Uma PPC é apenas um conversor que permite anular as diferenças de preços entre economias distintas, de forma a restaurar a comparabilidade dos dados. Qualquer economista que se preze usará sempre valores deflacionados pelas PPC apropriadas.

 

Há outro ponto em que me parece haver alguma confusão, que é o propósito de baixar as contribuições sociais e aumentar o IVA. O Ludwig diz que isto não faz sentido para aumentar a produtividade. E eu concordo. Mas a ideia da medida não é colocar os portugueses a produzir mais - é fazer com que haja mais portugueses a produzir. É a diferença entre produtividade e competitividade (um conceito dúbio, admito). Produtos mais competitivos significam mais possibilidades de venda e, portanto, mais portugueses empregados. Mas, porque os portugueses que estão neste momento desempregados até serão, provavelmente, menos produtivos do que a média, aumentar a competitividade até pode ter como corolário uma redução da produtividade.

 

O mecanismo é simples. As contribuições sociais incidem sobre o trabalho, desincentivando o emprego. O IVA incide sobre o consumo, estimulando a poupança. Baixando o primeiro, é de esperar que haja mais emprego e, logo, mais produção. E o passo lógico seguinte será uma diminuição dos preços. Isto admitindo que há concorrência, claro - uma questão muito bem abordada pelo Vítor Bento neste post. No final, as empresas portuguesas deverão conseguir vender mais ao exterior, diminuindo o défice externo.

 

A subida do IVA é a outra lâmina da tesoura. Ao actuar sobre o consumo, eleva os preços, incentivando os agentes económicos a pouparem e a cortarem nas importações - o que vai, mais uma vez, contribuir para diminuir o desequilíbrio das contas externas. O ponto interessante deste "mix" de impostos é que, apesar de ser neutro ao nível orçamental, não é neutro ao nível dos incentivos. Pelo contrário, estimula o emprego, a poupança, e reequilibra os pratos do nosso comércio externo.

 

Qual será o efeito global? Esta questão é essencialmente empírica mas, para quem tiver tempo e curiosidade, deixo aqui o link (página 41) para um paper do Banco de Portugal que analisa precisamente este mecanismo. Sim, é um exercício teórico (modelos de equilíbrio geral). Mas é um exercício teórico feito por alguns dos melhores economistas nacionais, com publicações nas melhores revistas da especialidade. Estes, pelo menos, penso que são insuspeitos de estarem a trabalhar para garantir o pagamento de uma taxa de juro de 6%. 

 

É importante salientar que este mecanismo é habitualmente posto a funcionar automaticamente nos países que têm moeda própria. Se Portugal tivesse escudo, há muito que a moeda teria caído a pique, reduzindo o poder de compra interno e tornando as exportações mais baratas no exterior. A desvalorização fiscal é apenas a forma mais fácil de emular esse processo, cuja alternativa seria uma prolongada deflação interna. Os méritos de uma desvalorização cambial têm sido muito enfatizados pelo Krugman, outro economista que dificilmente terá algum interesse nos juros pagos por Portugal.

 

Claro que a Troika também está preocupada com o pagamento do empréstimo que Portugal recebeu, o que é compreensível: ninguém gosta de perder dinheiro, e preocupação com o dinheiro próprio revelaram todos os investidores que, pouco a pouco, foram deixando de comprar obrigações do Tesouro (ou seja, começaram a "especular"). Os contribuintes alemães e finlandeses dificilmente seriam uma excepção.

 

Mas, independentemente dos juízos que se façam a respeito das intenções do grupo, a verdade é que nenhuma, ou quase nenhuma, das medidas propostas são coisa nova. O que consta do Memorando de Entendimento já apareceu no grupo de trabalho para a Saúde (2004 ou 2005, não sei de cabeça), nos relatórios do Banco de Portugal e nos trabalhos de alguns economistas portugueses sediados no estrangeiros. A troika não inventou a roda. Só veio pô-la funcionar. E ainda bem.

 

 

 

 

3 comentários

  • Sem imagem de perfil

    PR 19.05.2011

    João Vasco,

    Não penso que o problema que aponta seja um problema do PIB. O PIB é, por definição, uma medida da riqueza produzida através de transacções. Se não há transacção, não entra no PIB.

    Um outro exemplo que se pode utilizar é o caso do homem que paga a uma prostituta para o masturbar. Será que se ele se masturbar e dispensar os seus serviços o PIB devia aumentar? E será que devia aumentar na mesma medida em que ele se masturbasse?

    E não percebi bem a ideia do lenhador. Se o lenhador A vende lenha mais cara do que o lenhador B mas vende a mesma quantidade, isso é considerado exactamente a mesma produtividade. A diferença entre o valor das vendas é expressa como um deflator mais elevado [factor preço].

    Quanto ao parágrafo final, concordo que há uma diferença entre o sentido económico de produtividade e o sentido comum do termo, mas parece-me que o problema será mais da instrumentalização política do que do tratamento económico.

    E, independentemente das razões que levem os alemães a ser mais produtivos [economias de escala, geografia, genética, etc.], essa é apenas uma explicação para um facto, que não o altera: os alemães são de facto mais produtivos.




  • Sem imagem de perfil

    Joao Vasco 19.05.2011

    Priscila,

    Na verdade creio que o PIB não é uma medida da riqueza produzida através de transacções, mas apenas das transacções formais.
    Se eu empresto o carro a um amigo, e ele noutro dia sente a obrigação de me emprestar a tenda, estamos perante uma forma de transacção não formal. Se eu troco com o meu amigo uma grade de cervejas por 4 garrafas de azeite, esta transacção também não entra nas contas do PIB.
    Aliás, é por isso que o PIB só pode medir bens e serviços transaccionados, porque os restantes, por muito valor que tenham, não entram na economia formal e o seu valor não pode ser medido tendo como referência a moeda.

    Isto quer dizer que o PIB é função do valor dos bens produzidos para quem os adquire, mas também é função de outros factores, tal como a proporção de bens que circulam de forma «formal».

    Note-se que isto não quer dizer que o PIB devesse ser medido de outra forma. A mim não me ocorre nenhuma melhor. Mas quer dizer que devemos ter isto em conta quando utilizamos essa medida.
    No exemplo da masturbação e da prostituta é razoável assumir estamos a falar de coisas com um valor diferente. Mas no meu exemplo da empregada aquilo que eu queria demonstrar era que mesmo assumindo que têm o mesmo valor (e nada impede essa assunção), o PIB calculado seria diferente.
    Nada impede que duas sociedade onde por definição são produzidos os mesmos bens com igual valor para quem os consome, tenham PIBs diferentes - ere esse o sentido do exemplo. E nada impede que uma sociedade onde são produzidos bens com um valor total superior tenha um PIB menor.

    Note-se que uma sociedade onde cada pessoa conhece pessoalmente uma menor proporção das restantes corresponderá provavelmente a uma maior proporção da economia que será formal, e portanto a um PIB superior por esta via (não relacionada com o valor dos bens produzidos). Este texto não pretende ser nenhuma ode elogiosa às pequenas comunidades - pessoalmente até prefiro a vida urbana. Mas é uma das questões relevantes a ter em conta quando pensamos naquilo que faz variar o PIB, e por consequência a produtividade.

    «Se o lenhador A vende lenha mais cara do que o lenhador B mas vende a mesma quantidade, isso é considerado exactamente a mesma produtividade. A diferença entre o valor das vendas é expressa como um deflator mais elevado»

    Eu não me referia a um lenhador em Portugal a vender a lenha a X, e um lenhador na Alemanha a vender a mesma lenha a 2X. Nesse caso teria toda a razão: expresso tendo em conta o deflator, a produtividade seria igual.

    Mas o exemplo era diferente. Assumimos que em Portugal o valor de mercado é 2Y. Um lenhador vende a lenha a 2Y porque pode. Outro decide vender apenas a Y (mesmo podendo vender a 2Y) por razões pessoais - supondo, por hipótese, que acredita que não deveria cobrar mais que isso, mesmo que o cliente estivesse disposto a pagar.
    O deflator agora não impedirá que o cálculo da produtividade leve à conclusão de que o segundo lenhador é menos produtivo que o primeiro, mesmo tendo assumido por hipótese que o bem produzido tem o mesmo valor.

    Note-se que este caso não é assim tão absurdo. Muitas vezes um empreendedor que oferece um determinado serviço não sabe quanto estariam os clientes dispostos a pagar por ele. Se o serviço lhe custa 40 moedas, e o cliente estaria disposto a pagar 400, tanto é possível que cobre 100 como 350, o preço cobrado dependerá da sua capacidade negocial, da sua disposição para arriscar, dos seus valores morais, e não só do valor do serviço prestado.
    Mas como a produtividade é calculada tendo em base o preço cobrado, ela vai reflectir todas estas questões.

    Quando diz que o problema é mais «da instrumentalização política do que do tratamento económico», eu concordo, e parece-me até ser esse o sentido do texto do Ludwig.
    Alertar para essa instrumentalização política que cria equívocos entre o sentido rigoroso e objectivo dos termos económicos e as associações que fazemos aos termos na linguagem comum.
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