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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Teoria Geral de Interpretação Poética

Tiago Moreira Ramalho, 23.04.10

 

«É muito bonito - disse ela, quando acabou. - Mas é um bocado difícil de perceber. (Estão a ver, é que ela não queria confessar, nem sequer a si própria, que não conseguia perceber patavina.) - Parece que me enche a cabeça de ideias... só que não sei bem quais são! Porém, com certeza que houve pelo menos alguém que matou alguma coisa...»

 

Lewis Carroll, Alice do Outro Lado do Espelho

Ateu cool

Rui Passos Rocha, 23.04.10

Como se já não lhes bastasse terem de partilhar as mesquitas com o Abel Xavier, os coitados dos muçulmanos tiveram agora de ver um episódio do South Park em que Maomé se transmuta em urso. E depois, só porque um filho de Alá disse que esses filhos da puta americanos que fizeram o episódio deviam ser assassinados a imprensa ocidental, essa pêga, concluiu que o tipo incitou ao seu assassínio. A injúria, minha gente, a injúria: como se seu grandessíssimo cabrão, havias de ser brutalizado como naquele conto do Rubem Fonseca em que espancam o violador da miúda e lhe fritam os tomates ali mesmo, ao relento, fosse sinónimo de quero que sejas morto, ó palhaço. Longe vão os tempos em que a religião era amor.

Jogo das Cátedras [2]

Rui Passos Rocha, 22.04.10

Tiago Danton, arruma lá o cadafalso e vai mas é montar o cavalo (eu sei que preferias que fosse o cavalo a montar o professor de Direito, mas faz-lhe lá esse jeito). Onde vês ridicularização do casamento gay eu vejo mera provocação, onde vês humilhação dos alunos homossexuais eu vejo apenas estupidez. Do professor: que eu saiba os animais ainda não têm personalidade jurídica, por isso pelo menos metade daqueles 12 pontos pode ser ganha com uma frase. Se é para despedir, que seja por esse motivo.

Jogo das Cátedras

Tiago Moreira Ramalho, 22.04.10

Então existe no nosso país um professor, com maiúscula, que se julga engraçado o bastante para colocar num teste de Direito Constitucional II – II! – uma pergunta que ridiculariza o casamento gay, associando-o ao casamento entre animais com o consentimento do dono e ao casamento entre homens e animais vertebrados – sempre senti uma atracção especial por lesmas, mas o professor, com maiúscula, nem um pontinho no artigo fictício lhes dedicou.

Parece-me que aquilo que o dito professor, com maiúscula, poderia receber em troca, pela forma como ridicularizou a questão e, talvez, humilhou alguns alunos, era um tratamento especial de «what goes around comes around». Colocaríamos um conjunto de indivíduos homossexuais com estofo, um conjunto de cães – ou excitados ou raivosos – e, quem sabe, um cavalinho e faríamos um filme. Um filme indiano. No fim, só porque estas coisas convêm à saúde das instituições, convidávamo-lo a renunciar à regência da cadeira. Por causa da moral, digamos assim.

 

P.S.: A Douta Ignorância está disponível, tal como o concorrente Jugular, para receber emails de meninas de faculdades de direito. Têm de tirar más notas - podem adiantar o CV - porque as espertas, e baseio-me numa amostra considerável - costumam ser mais feias, e amigas já nós temos muitas. De qualquer modo, se as espertas quiserem tentar, connosco tudo bem. Somos bons a denunciar casos «que, tipo, são horríveis, 'tás a ver» e também somos bastante cavalheiros. Com jeitinho, até as convidamos para um banquete de salgadinhos.

Toalha no chão

Tiago Moreira Ramalho, 22.04.10

O cavalheirismo de Jaime Gama é claramente de origem lusitana. Pretendendo que a sra. Inês de Medeiros tenha as viagens pagas para Paris – para Paris! –, apesar de ela não ter direito a elas, trata de pegar no dinheiro dos outros – no nosso, digamos assim – e paga. Uma espécie de Don Juan com um cheirinho a Robin dos Bosques. Pretende que a senhora possa ter uma cómoda viagem e não se faz esquisito, reservando-se o direito ao puro capricho, concedendo a prebenda, mas deixando desde já claro que isto não é assim sempre, ou melhor, não é assim para toda a gente.

Eu, por mim, que desisto do assunto, porque mais vale, desejo que o rabinho da sra. Inês de Medeiros vá muito bem acondicionado no aviãozinho que o povo português lhe vai pagar semanalmente só para se dar ao luxo – país de luxos – de a ter como representante na câmara alta, que é também baixa, por única. Desejo, também, que a sra. Inês de Medeiros dê jantaradas do grupo parlamentar que é o seu lá na sua maison parisienne e que, num novo exercício de demonstração pública de nervo puro, peça um financiamentozinho. Afinal, e como diz Jaime Gama, estas coisas, numa escala de um a cem, não interessam nada.

You Moran

Rui Passos Rocha, 22.04.10

«The young woman thinks if she can get the right curtains she can keep death and all attended problems at bay. But the young man knows that the only way to keep death at bay is to have sex pretty much constantly. Now, because nature's so clever, it makes the couple compromise by giving them children, so they never need to have sex again and then the children pull the curtains down - so there was nothing to worry about in the first place»

 

Dylan Moran (via Rulote)

Lentidão

Bruno Vieira Amaral, 20.04.10

Todos sabemos que a ideia de um Deus misericordioso faz mais sentido quando temos as férias estragadas, mas o vulcão islandês não deixa de ser uma semi-tragédia. É verdade que temos o poder da Natureza, que inspira aos bloggers o mesmo terror que assaltava o homem das cavernas sempre que um raio rasgava o céu; é verdade que muita gente, à falta de uma crença sólida na divindade, redescobriu o misticismo que perdera para os ginásios, o facebook e os livros de Paulo Coelho (a ocorrência de uma epifania é mais provável quando estamos às portas da morte ou quando o nosso voo é cancelado); é verdade que o vulcão, tal como o terramoto no Haiti ou Bernard Madoff, é uma óptima desculpa para que se arrase o estilo de vida ocidental; é verdade que os prejuízos da aviação civil são enormes; é verdade que o Barcelona teve de ir para Milão de autocarro; é verdade que tivemos os inevitáveis directos dos aeroportos; é verdade que não faltaram reportagens com música melancólica que nos perguntavam: “É assim que a civilização ocidental vai acabar? À espera que a menina da TAP diga qualquer coisa?” É verdade que tivemos tudo isto, mas faltaram as vítimas. Quer dizer, quando o que mais se assemelha a uma vítima é um inglês gordo com ar de quem acabou de fazer turismo sexual na Tailândia, sabemos que o vulcão islandês é uma semi-tragédia. Um pirralho inglês, entrevistado pela RTP, confessou o seu incomensurável aborrecimento por ser obrigado a regressar de comboio à pátria e à X-Box . De todos os efeitos do vulcão islandês nenhum é mais revelador do que o tédio ferroviário daquela criança. O nosso tempo abomina a lentidão.

Librarian

Tiago Moreira Ramalho, 20.04.10

 

Pergunto-me se ser livreiro poderá contar como sonho profissional. Se não contar, o meu eu está condenado a uma vida de incompletude.