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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Porta-aviões sem barba

Tiago Moreira Ramalho, 29.05.10

A crónica de hoje de João Pereira Coutinho, o colunista, além de ter feito rir os marialvas que sabem ler, é um paradoxal tratado de intolerância. Mascarando-se de crítica a um projecto de lei, é, na realidade, um básico, tão básico, ataque ao que, aos olhos de JPC, o colunista, é ridículo. Não conheço, nem vou conhecer, parece-me, os projectos de lei do PS e do BE. Julgo que tal não é problema, pois duvido que JPC, o colunista, os tenha lido também. O que interessa fundamentalmente é a incapacidade que o colunista, JPC, demonstra para aceitar o elementar direito àquilo a que Bentham chamava, de uma forma quase cómica, «excentricidade». A metáfora final - «Que o meu vizinho goste de ladrar não é motivo suficiente para eu lhe oferecer um osso» - é a cereja no topo daquele bolo anti-individualista. Para JPC, o colunista, a individualidade interessa pouco e o direito à sua expressão e reconhecimento depende da sua (dele) boa vontade. Para JPC, o colunista, só a individualidade que lhe merece respeito deve merecer o respeito dos outros. Só a «excentricidade» respeitável merece, portanto, receber o precioso osso. Nada de novo, conclui-se.

Esforço patriótico

Tiago Moreira Ramalho, 28.05.10

O meu esforço patriótico residirá, muito provavelmente, na aquisição de um bilhete de ida para um sítio qualquer ainda antes de 2014. Se a pátria quer mergulhar na miséria, não vou ser eu a estragar a festa.

Até que a bolha rebente

Tiago Moreira Ramalho, 28.05.10

A esquerda parlamentar decidiu chumbar a proposta de adiamento dos grandes projectos. Apenas vislumbro duas razões para a via: a simples estupidez ou a baixa prostituição intelectual. Em alguns casos, concedo, pois sou fundamentalmente flexível, podemo-nos deparar com ambos. Só isto pode justificar que, num país à beira da cessação de pagamentos, num país dependente da benevolência estrangeira, num país que se financia a taxas de juro nunca antes vistas se avance com um pacote de obras públicas que apenas poderiam ser explicadas se fôssemos personagens de um qualquer romance surrealista ou absurdo.

Pedro Passos Coelho, hoje, deveria bater com a porta. Até que a bolha rebente. O PSD, que cada vez mais mostra ter tido razão em Setembro, cedeu na questão dos impostos e comprometeu-se com uma solução política que, na realidade, não lhe trazia nenhum benefício; muito pelo contrário. Em troca, a esquerda, PS incluído, oferece isto. Quem se comporta assim, não merece nada. O PS e a restante esquerda pretendem dar cobertura à teimosia danosa de um homem. Pois que dêem, mas que seja claro para a população quem está de que lado.

Wales

Tiago Moreira Ramalho, 28.05.10

Wales only exports two kinds of things: sheep and men. Ouvi isto de um indivíduo que andou a tentar ensinar-me a sua língua, coitado. Uma maravilha, a frase.

Ler os outros

Tiago Moreira Ramalho, 27.05.10

«Ben Kingsley quer adaptar ao cinema ‘O Primo Basílio’, de Eça de Queirós. É uma notícia que interessa, não por ‘patriotismo’. É por causa da literatura, cujo espaço nas escolas tem sido reduzido – sobretudo o dos clássicos, desalojados para dar lugar a livros moderninhos que não enfrentaram o tempo. 

Eça é um génio da literatura da nossa Língua. Que venha um ator de Hollywood relembrar-nos que as escolas portuguesas leem cada vez menos clássicos e se entretenham com gramática e ‘comunicação’, é algo que deveria fazer pensar os responsáveis. Mas está lá alguém disponível? Não. Em vez de livros, distribuem computadores Magalhães – que, aliás, não funcionam e vão parar à sucata. É o destino.»

 

Francisco José Viegas, no Correio da Manhã

A cigarra e a formiga

Tiago Moreira Ramalho, 27.05.10

O Presidente Barroso, ao condenar a Alemanha por não ter evitado a crise com uma promessa de auxílio mais «atempada», quase parece, tolinho, querer imputar ao burro que nos vai carregando as culpas da estupidez grega. A culpa do que se passa na Grécia é dos gregos, do mesmo modo que a culpa do que se passa em Portugal é dos portugueses. Se a Alemanha não quiser ajudar uns e outros está no seu pleno direito e só a saloiice de Barroso concebe o contrário. Merkel, claro, despreza o senhor Presidente, que está empenhadíssimo em arranjar um precedente para, quando for a nossa vez, não haver tratamento diferenciado e haver, portanto, uns dinheiros para a terrinha por salvar. Daí até vangloriar-se dos feitos numa campanhazinha para as Presidenciais vai um saltinho.

O que devia fazer Merkel, na verdade, era borrifar-se para os pseudo-altruístas, na realidade uns oportunistas, «congéneres» europeus e fazer, como tem feito, o seu trabalho no sítio para onde foi eleita. Já vai sendo tempo de a cigarra parar de financiar os desvarios da formiga.

Fundo de «salvamento»

Tiago Moreira Ramalho, 27.05.10

As ajudas aos bancos na turbulência de há uns meses, apesar de duvidosas, podem ser de algum modo justificadas com a imprevisibilidade da situação – se calhar nem tanto, mas vamos supor que sim. Os governos, deparados com uma situação catastrófica, sentiram que tinham de fazer algo e, mesmo que o que fizeram não tenha sido do mais acertado, acabamos a relativizar os estragos. No entanto, se a situação excepcional permite relativizar a actuação excepcional, é completamente absurdo que assistamos sem reagir àquilo que se propõe por essa Europa fora. Quer a União criar um fundo, com participação de todos os bancos, que servirá para os «salvar» no caso de falência ou da sua iminência.

Penso que não é difícil pensar nas implicações de um tal fundo. O sector bancário, que mesmo sem garantias assumiu riscos muito acima dos níveis óptimos, com uma garantia permanente iria levar isso a um extremo absoluto. Isto é a base da teoria de incentivos que, supõe-se, talvez mal, os senhores promotores aprenderam nas escolinhas.

A Europa continua firme no seu colectivismo pacóvio. Continua insistindo na ideia de que pode planear e conceber todas as possibilidades e que nada escapa ao seu controlo. Com isso, enche a fogueira de achas com a serenidade com que se bebe um copo de água. Um dia acaba em cinzas.