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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Milagres

Bruno Vieira Amaral, 28.06.10

Ontem, ao ver o Argentina-México, já depois de testemunhar a destruição da Inglaterra, concluí, com enfática sabedoria de sofá, que os treinadores de selecção só precisam de fazer uma coisa: milagres. Diego Armando Maradona andava ali a pular de um lado para o outro, a abraçar substituídos, a beijar suplentes, a evitar escaramuças, a exibir as respeitáveis barbas. Nada mais lhe é exigível. À tarde, o douto Capello, mestre das tácticas, o semblante científico que faz a fama e a glória dos treinadores transalpinos, mesmo dos mais ineptos, viu a sua selecção ser esmagada, com requintes cirúrgicos, por uma Alemanha que poderia ser treinada, com iguais resultados, pelo Professor Neca. A Inglaterra teve coração. Só coração. E o coração só não chega, quando ainda por cima o árbitro é um Larrionda zarolho. Durante 90 minutos, a Inglaterra esperneou as suas limitações e, por momentos, isso serviu para equilibrar o jogo, mas não deu para mais. Não podia dar contra a simplicidade do futebol alemão. Se alguém tem dúvidas do que se fala quando se fala de “futebol vertical”, reveja os golos alemães. Não sei se a língua alemã admite diminutivos mas todo o seu futebol é a antítese de um: o rodriguinho. Löw ou Loew, o cantor pop Joaquim, é o único treinador dispensado de fazer milagres. A materialista Alemanha não acredita em Deus, não acredita na sorte, nem no azar, não acredita nas Caravaggios da nossa felicidade. A Alemanha não acredita, materializa. E vão oito quartos-de-final consecutivos, com crises geracionais, jogadores medianos e treinadores medíocres pelo meio. Não interessa. A Alemanha avança. A Argentina também. Com muito talento e com muita fé, com o deus Maradona no banco e onze apóstolos em campo. No Público, Luís Fernando Veríssimo diz que a arte de Maradona “é inspirar os jogadores.” Inspiração. Bonita palavra. Mais uma vez, a Alemanha é a única selecção que pode prescindir desse substantivo volátil, dos estados de alma, de jogadores que depois fazem anúncios a telemóveis “ouvi uma voz”, “era como se alguém me dissesse para chutar”. Nada de metafísicas. Nada de treinadores doutorados em táctica, basta um funcionário da Federação. A selecção como um corpo perfeitamente articulado, um desenho tão simples como o do primeiro golo: pontapé do guarda-redes, erro do adversário, potência no choque e precisão no remate. A Alemanha não falha e não precisa de milagres.

Da partidocracia (3)

Tiago Moreira Ramalho, 28.06.10

Obviamente, soluções para o problema escasseiam. É difícil tirar do Parlamento uma decisão que está intimamente ligada ao Orçamento de Estado. E como o financiamento partidário não pode ser submetido a decisão referendária, tal como a Constituição, a única possibilidade seria uma forte pressão da sociedade, aliada a uma presença de grupos de cidadãos independentes na Assembleia da República, que levasse os partidos, ainda que a contra-gosto, a moderarem os excessos. Claro que num país em que ninguém quer saber de nada além da manchete do Record, é difícil.

Da partidocracia (2)

Tiago Moreira Ramalho, 28.06.10

Claro que o discurso pela redução do financiamento público é rapidamente rotulado como demagógico ou populista. Nomeadamente pelas partes interessadas, que, grosso modo, dominam o espaço mediático. A verdade, apesar do ruído dos grandes partidos, que são os maiores beneficiários, é que tem de haver uma redução das subvenções públicas. Que o desmame seja gradual, nada a opor – preferimos não ser acusados de semear o caos nas instituições partidárias. Mas tem de ser efectivo. Esta brincadeira de reduzir 10%, e ainda por cima transitoriamente, não interessa a ninguém. Na realidade, é quase ofensivo.

Da partidocracia (1)

Tiago Moreira Ramalho, 28.06.10

Imagine o leitor que a decisão sobre os salários dos polícias era tomada numa assembleia que reunisse apenas e só as forças policiais, de uma forma directa ou representada. Imagine, apenas para tornarmos a coisa cumulativamente absurda, que o mesmo se passava com professores, médicos, carteiros e canalizadores. Imagine, sei que custa, que todos aqueles que recebem dinheiro do Estado tinham na sua mão o poder de decidir quanto deveriam receber. Faz doer a cabeça, c’est pas, leitor? Pois, mas isto, caro leitor, é o que fazem os partidos políticos portugueses. Numa lei de 2003, que entrou em vigor em 2005, os partidos políticos decidiram aumentar os financiamentos do Estado em 700%. Repitamos com um ar um pouco mais assustado: 700%. O argumento era a velha banalidade da transparência, que o financiamento público é mais sério que o privado e tal. Balelas, claro está, pois a verdade é que não faz sentido que uma democracia tenha os seus partidos a financiar-se sem ser junto da sociedade, da população que representam. E, mais, toda a argumentação era profundamente hipócrita, pois ainda há pouquíssimo tempo os mesmíssimos partidos decidiram que sim, que o financiamento privado já era de muita virtude, e lá conseguiram juntar o sol na eira e a chuva no nabal. Hoje, claro, o Estado gasta dezenas de milhões de euros anualmente e em época festiva, que é como quem diz em época de campanha, a factura multiplica-se. Os benefícios são nulos: apenas mais e mais investimento em agências de comunicação, apenas mais e mais desigualdade à partida entre partidos instalados e novos partidos, apenas mais e mais do mesmo. Um quadro político-partidário estruturalmente estático. Agora, num destes dias, os senhores deputados lembraram-se do esforço nacional e lá sugeriram uma redução de 10% do financiamento partidário. Uns miseráveis 10%, rapidamente consensuais, que esta gente não se faz de mais do que simples fogo-de-vista.

O crime perfeito (2)

Rui Passos Rocha, 27.06.10

O argumento de Miguel Sousa Tavares teria outra validade se fosse mais abrangente, aplicando-se também às escutas a Pinto da Costa ou a um qualquer traficante de droga. E teria outra validade se, também para esses casos, defendesse a não publicação das escutas mesmo que um qualquer Pacheco Pereira do sistema de Justiça acreditasse ser a publicação pela imprensa a única hipótese de se fazer justiça. Aparentemente – porque não me recordo de opiniões suas idênticas para outros casos que não o de Sócrates –, para MST o maior escrutínio inerente ao cargo de primeiro-ministro deve tornar os seus direitos mais dificilmente violáveis, não menos. Mesmo que o interesse público da informação sobre eventual corrupção de governantes seja muito superior, e proporcional à gravidade dessa corrupção, se comparada com outras. Mas há outro problema na avaliação de MST: o público quer ser informado não só das condenações, mas também das suspeições; sobretudo quando desconfia da qualidade da sua Justiça. Esta serve o povo; e os governantes também, daí a legitimidade do maior escrutínio.

O crime perfeito

Rui Passos Rocha, 27.06.10

O texto de Miguel Sousa Tavares para o Expresso do último sábado lê-se com o gosto de como se ouve declamado o Adeus Português do O'Neill por um gajo com tabaco misturado no hálito matinal. Quer dizer: o tema é bom, o argumento é que já cheira mal. Afinal, é este o tipo de argumento que legitima o segredo de justiça, esse instituto tão nosso (e aparentemente a ser seguido por uma escola democrática também ela admirável, a de Berlusconi). Escreve Sousa Tavares que Mota Amaral fez bem em impedir que Pacheco Pereira trouxesse para a praça pública as escutas "avassaladoras" que supostamente comprometem o primeiro-ministro. E por aqui se fica. Nada acrescenta, do que se depreende que a sua publicação seria sempre - independentemente da gravidade do lá contido - o resultado de uma "tentação estalinista de suspender os direitos e garantias individuais em nome do 'interesse público'". E porque "ele foi eleito e os jornalistas e os magistrados não", publicar escutas que comprovem que Sócrates lesou os interesses do Estado é, isso sim, um atentado ao Estado de Direito. Porque a Justiça nada provou; e mesmo que a Justiça, assim mesmo com maiúscula, não funcione. E porque uma comissão parlamentar, que teve em mãos apenas parte das escutas, também nada provou. As escutas podem até indiciar um crime mas a sua publicação é ilegítima, porque a Constituição a proíbe. E a Constituição, como todas as pessoas de bem (desculpa lá roubar, ó Tiago) sabem, não pode ser ilegítima porque... porque é a Constituição.

A estrada

Rui Passos Rocha, 24.06.10


"The Road not Taken", de Robert Frost

 

[...] Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Do optimismo (3)

Rui Passos Rocha, 23.06.10

«Pangloss respondeu nestes termos: Ó meu querido Cândido! conheceste Paquette, aquela airosa dama-de-companhia da nossa augusta Baronesa; provei nos seus braços as delícias do Paraíso, que produziram estes tormentos do Inferno em que me vedes devorado; ela estava infectada, e pode ser que esteja morta. Paquette recebeu este brinde de um Franciscano muito sábio que havia subido à fonte, pois o apanhara com uma velha Condessa, que o tinha recebido de um Capitão de Cavalaria, que o devia a uma Marquesa, que o obtivera de um Pajem, que o recebera de um Jesuíta, que, quando era noviço, o ganhara em linha directa de um dos companheiros de Cristóvão Colombo. Quanto a mim, não a darei a ninguém, porque vou morrer. - Ó Pangloss! exclamou Cândido, que estranha genealogia essa! não virá ela da casta do Diabo? - Nada disso, replicou o grande homem; era uma coisa indispensável no melhor dos mundos, um ingrediente necessário: pois se Colombo não tivesse apanhado numa ilha da América esta doença que envenena a fonte das gerações, que frequentemente entrava a geração propriamente dita, e que evidentemente se opõe ao grande objectivo da natureza, não disporíamos hoje de chocolate nem de carmim de cochonilha.»

Voltaire - Cândido, ou o Optimismo

Do optimismo (2)

Rui Passos Rocha, 23.06.10

Por outro lado, e tendo isso em conta, seria suficiente para destronar a tese de Cavaco dizer que os seus dois acólitos, Fernando Nogueira e Dias Loureiro, têm (ambos) no bolso apenas licenciaturas em Direito pela Universidade de Coimbra.